Sobre “A Liberdade e o Mal”

Man readily renounces freedom in the name of the easing of life” (N. Berdyaev).

É chocante como este pensador russo, cristão ortodoxo, escancara a situação humana diante do drama da sua liberdade. Será possível que aquilo que tanto se exalta e aclama em nosso tempo seja exatamente aquilo de que mais queremos fugir em nossa humana condição? Será a liberdade algo formalmente desejado mas realmente temido e evitado? Será o homem realmente livre?

Obviamente não pretendo responder a uma interrogação tão grande como essa, especialmente no espaço de um “blog” pessoal, mas me pareceu irresistível destacar esta frase do russo Berdyaev, em especial depois da marcante experiência que tivemos com o Seminário “A Liberdade e o Mal”, que realizamos em janeiro, na sede da Thélos Associação Cultural, em São Paulo.

A discussão que pude apresentar neste Seminário envolveu a abordagem de algumas posturas teológicas e filosóficas que ao menos expuseram a importância e a complexidade do tema. Quero apresentar o roteiro que seguimos no Seminário de forma a compartilhar um pouco dos temas que tratamos nestes dias.

Partimos da leitura de um texto fundamental para o Ocidente que é o relato do Gênesis, nos capítulos 2 a 4, em que os protagonistas são Deus (obviamente!), o Homem/Humanidade, a serpente e as ávores do conhecimento do bem e do mal e da vida. Nossa leitura se distanciou das interpretações correntes pois consideramos o Gênesis em seu estilo alegórico (ou “simbólico”, se se preferir o enfoque nesta chave de leitura), no qual vemos o Adam (a palavra “Adam” no hebraico pode ser relacionada com a outra palavra “adamah”, que significa “procedido da terra”) como Homem/Humanidade e não como o relato da vida de um indivíduo. Neste trecho, a Humanidade é apresentada em seu movimento crucial de tomada de consciência de si mesmo, através do qual passa a perceber que a liberdade lhe é inerente mas que, ao mesmo tempo, ela só se lhe torna efetiva quando confrontada e posta em ação mediante as duas dimensões e condições que a tornam real: o bem e o mal. O Homem/Humanidade só se torna livre diante da ação livre que o faz possuir o conhecimento ao mesmo tempo do bem e do mal. E este conhecimento é o sinônimo do sofrimento humano em sua condição única. O Homem/Humanidade se vê nu, o que pode significar que se percebe insuficiente mesmo diante da natureza e que, acima disso, já se percebe “moralmente” desqualificado e mau diante de Deus. A imagem do homem se cobrindo diante de Deus e não diante da natureza revela que sua consciência de bem e mal só se dá diante do Ser que, por estar para além da natureza, é o único que pode lhe fazer ver sua própria condição de insuficiência, de mortalidade, de maldade. Essa idéia bíblica vai ser fundamental ao Ocidente no desenvolvimento da sua visão de liberdade.

Passamos rapidamente pelo conceito agostiniano (Agostinho, séc. IV e V) de liberdade como sendo uma liberdade apenas para o mal, uma vez que, segundo o pensador africano, o bem só seria concebível no homem pela ação da graça divina; saltamos e citamos também Espinosa (séc XVII), que em seu pensamento “geométrico” parte do substância infinita como única causa para tudo (porque só a substância infinita é causa de si mesma e subsiste por si), devido à qual não se pode conceber liberdade na criatura (que não é causa de si mesma e nem subsiste por si própria mas na substância infinita), pois só haveria liberdade no movimento da substância infinita em seus atributos e seus modos, dos quais, o atributo extensão e o atributo pensamento seriam os componentes do homem.

Postos estes dois marcos filosóficos, exemplificadores do esforço teológico e filosófico em entender a liberdade humana, pudemos ver a apreciação do tema do mal a partir da ótica teológica segundo o estudo desenvolvido por um autor contemporâneo, o teólogo inglês John W. Wenham em seu livro “O Enigma do Mal”, no qual o autor expõe e enfrenta o que considera as dificuldades extremas dos textos bíblicos em se lidar com este tema. Segundo o autor, só se pode compreender o Deus cristão em sua profundidade, bem como a revelação em sua relevância, se não se evita a consideração do “mal”, em suas muitas e variadas manifestações (de sofrimentos, de traições, de guerras e extermínios, entre outras). Para esta abordagem, o autor faz um extensivo levantamento de textos que ressaltam as ordens de Deus para a guerra e o extermínio de povos, para os salmos imprecatórios, para as maldições lançadas sobre o povo, e para mostrar que isso não é uma característica do Antigo Testamento apenas, o autor expõe as ameaças de sofrimento eterno, de punições, de terrores, também no Novo Testamento, começando pelas palavras dos apóstolos, e citando também palavras do Cristo. Sem o mal, segundo Wenham, Deus e a Bíblia se tornariam “irrelevantes” em seus ensinamentos e prescrições para o Homem. Seguindo dentro de seus parâmetros teológicos e confessionais, o autor vai reafirmar que todo este contexto se explica pela desobediência do homem, o qual, vivendo num mundo perfeito diante de Deus opta pela desobediência e pelo mal, o que causa o mal no mundo e traz todo o sofrimento em sua vida. Neste ponto, a questão que trouxemos (já feita por outros autores) a esta interpretação do relato do Gênesis foi de que se o homem não conhecia o bem e o mal, pois só tomou conhecimento deles ao comer do fruto da árvore “do conhecimento do bem e do mal”, como pôde ser punido por “escolher” algo que não tinha conhecimento de que era mau, pois nem sabia haver algo como o mal?

Pudemos ver que o tratamento conjunto deste temas pelas vias teológica e filosófica como interligados e interdependentes foi levado a cabo em especial pelos idealistas alemães, sob a forte influência do grande místico alemão Jacob Boehme, dentre os quais ganha destaque a obra de Schelling (séc. XVIII e XIX), que sofre uma grande guinada a partir do seu livro “Investigações sobre a essencia da liberdade humana”, a partir da qual o filósofo defende a tese de que só pode haver a liberdade humana na consciência de que a própria estrutura antrop
ológica é este misto e esta dinâmica entre as duas forças que lhe são constituintes: o bem e o mal. Schelling faz uma espécie de cosmogonia na qual apresenta sua idéia de que a natureza é fruto do movimento de uma força inexorável que se manifesta e que revela Deus em sua essência de Vontade Pura. O movimento inexorável desta vontade pura é que gera a natureza. Na natureza, este movimento de vontade vai se voltar para dentro de si mesmo, e nesse votar-se a si, neste querer existir em si pensando que existe “por sí” é que se concebe o que é o mal. Algo como um auto-centrismo, uma espécie de ilusão de autonomia, se se pudesse aplicar esta imagem à natureza, como sendo a própria definição de mal. Mediante esta dinâmica de bem e mal se concebe o homem, e conceber o homem significa conceber um ser radicalmente livre porque surge como o misto destas duas grandes manifestações de luz e trevas, de bem e mal, e assim, sua liberdade vai ser exatamente esta “possibilidade para o bem e para o mal”. Sem o mal, não se pode absolutamente conceber algo como a liberdade.

Esta discussão alemã foi vista também a partir do russo Berdyaev, em especial mediante seu texto “The Metaphysical Problem of Freedom”, um artigo brilhante no qual o autor apresenta um panorama da temática da liberdade, destacando o embate entre o pensamento cristão e a filosofia. O autor afirma que a liberdade só pode ser concebida como dinâmica e não a partir de conceitos estáticos. Sua visão é de que há duas formas de se conceber a liberdade, uma considera a liberdade primordial, básica, irracional, indeterminada. A outra é a liberdade a partir da razão, concedida por Deus. Mas o autor adverte que se se considera qualquer uma delas isoladamente como o conceito final de liberdade, o resultado vai ser a própria dissolução desta. O primeiro tipo leva à dissolução da liberdade pelo anarquismo e o segundo à dissolução desta pelo autoritarismo via imposição de um tipo racional de virtude. O autor argumenta também que nem os conceitos de Deus, de natureza e de alma são suficientes para se ‘fundamentar’ a liberdade e mostra as razões para isso. Assim, se nenhum destes conceitos pode ser fundamento para a liberdade, só lhe resta e só se pode conceber como único fundamento para a liberdade o “nada” incriado, o âmbito das infinitas possiblidades, o mal. Da mesma forma, a liberdade só poderia ser concebida como a dinâmica entre a liberdade irracional e a liberdade da razão. Esta dinâmica só seria possível porque o movimento da liberdade (isto é, o rompimento deste auto-encerramento na dupla dinâmica) ocorre pela inserção vertical da verdade do espírito na dimensão horizontal da natureza determinista: “Conhecereis a verdade e a Verdade vos libertará”.

A discussão de Berdyaev é imensamente ampliada e enriquecida através do livro “Crítica e Profecia” (Editora 34, 2003), do filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, no qual o autor, para expor sua tese sobre a necessidade de considerar o aspecto religioso (cristão ortodoxo) da obra de Dostoyévski para se poder apreender a grandeza da obra do autor russo, desenvolve uma extensa discussão sobre as origens do pensamento ortodoxo russo que remontam aos primórdios do movimento monástico e asceta dos padres do deserto. A partir desta discussão, vimos que o movimento de ida ao deserto destes místicos era a imagem do subjugação da physis (tudo quanto é natureza, natural) na imagem da subjugação do próprio corpo como o aspecto “natural” do homem, e do enfrentamento do deserto como o próprio nada, no qual o mal se mostraria sem máscaras nem disfarces. Assim, vimos que, para o pensamento cristão ortodoxo russo, mantendo esta compreensão da tradição dos padres do deserto, toda identificação do homem com seu aspecto “natural”, como quer a ciência contemporânea (na verdade, todo o pensamento “naturalista” ocidental desde suas origens gregas) significa exatamente a identificação do homem com o mal, com a desagregação, com a decomposição, com a desgraça (no sentido de isolamento da graça divina), ou seja, como o próprio mal. Todo conhecimento que procura definir o homem a partir da natureza e de suas leis é um grande engano pois o homem não se resume a seus aspectos naturais, assim como as definições de Deus a partir da razão são inadequadas pois Deus não é um ente da natureza e nem é do plano da razão. Deus estaria para além de ambos. Toda definição natural e racional de Deus é uma definição produzida pelo próprio mal. Neste contexto podemos melhor compreender as posições de Berdyaev em que procura mostrar que a inserção vertical do plano do espírito é necessária para romper o auto-encerramento do homem neste plano horizontal da natureza, que é o do nada e o do mal. O homem é livre, radicalmente livre, mas isso significa exatamente que ele está constantemente diante do abismo do nada.

Já próximos ao final, retomamos um texto do Êxodo no qual Deus “propõe” ao homem “a vida e bem ou a morte e o mal” e lhe “aconselha” que escolha a “vida”. Vimos como este texto fica interessante uma vez que uma “proposta” e um “aconselhamento” se dão na mesma Torá que, normalmente, é vista apenas como um livro de “leis”, de “obrigações”, de “faça” e “não faça”.

E, finalmente, encerramos com a avaliação de alguns textos do Novo Testamento que mostram o enfrentamento de Jesus com o mal, com o “diabo”, com o deserto, com o nada. A partir dos relatos da “tentação”, da agonia no Getsêmani e da crucificação, pudemos ver que o enfrentamento com o mal é o atestador da ação do homem livre, que, para ser livre, precisa enfrentar o mal interno, o “diabo” (opositor, desagregador) em si mesmo, sua possível desagregação no seu nada, sua possível extinção. O episódio da tentação mostra este enfrentamento a tudo o que é do plano horizontal, natural, que compõe a própria natureza humana. Os três estágios da experiência de Jesus no deserto apresentam fases, níveis, aspectos desta tendência do humano em se horizontalizar; Satanás, o adversário, é a imagem deste nada que age para que o homem com ele se identifique, para, ao naturalizá-lo e temporalizá-lo, finalmente nadificá-lo. A agonia no Getsêmani revela o quanto a natureza humana não deseja o enfrentamento com a morte, teme o nada, deseja aquilo que é diferente da verticalidade, mas pela “decisão”, pela “consciência” (termos complicados, sabemos disso), mantém-se em sua opção pela vida vertical, com seu preço de sofrimento e enfrentamento, que se alinha com a “vontade” do “Pai”. O abandono, a solidão na cruz (“Deus meu, por que me desamparaste?”) é o momento derradeiro diante deste nada, diante da extinção, diante da última ameaça de identificação com tempo, com o temporário. Mas o abandono em si mesmo é a pré-condição para a entrega ao vertical, quando o que é natural-horizontal já não pode fazer mais nada, já se esgotou em seus recursos e finalmente entrega a continuidade do processo ao transcendente, ultrapassando finalmente o plano do imanente. Neste enfrentamento, ao fazer suas opções, Jesus tipifica exemplarmente a experiência humana pois sabe que terá que não apenas tomar decisões, fazer escolhas sempre diante do abismo do nada, mas mantê-las, sustentá-las, até o momento derradeiro, sem descanso, sem misericórdia por parte da natureza, sem garantias em si mesmo. Diante da con
sciência de sua absoluta insuficiência antropológica, sabe que a vitória contra o nada só se dará mediante a contínua exposição ao transcendente, dentro da perspectiva de sua “taborização” (referência à “transfiguração” de Jesus no monte Tabor) contínua, de forma a encerrar a batalha na morte com o resultado acumulado desta contínua transformação (também pensada como “metanóia” e “teósis”). A “taborização” continuada, crescente, mostra o processo de “cristificação” de Jesus, através do qual ele se qualificou para este momento derradeiro, para sustentar suas decisões. E só a morte pôs fim à batalha, e só pela permanente exposição à luz vertical da divina transcendência, absolutamente além e incontrolável pela razão e pela natureza, pode o Homem ter sua esperança de vida: “está consumado”; “em tuas mãos entrego meu espírito”.

Este resumo da temática não consegue expor as nuances que pudemos perceber nestes autores e nestas questões, nem traduzir todas as leituras simbólicas nem os “insights” que experimentamos juntos durante o seminário. Mas, ao menos, dá uma noção de quão fundamental e complexo é este tema e quão caro nos é como humanos, vivos, sofrentes.

Fizemos este este percurso no Seminário com a esperança de que os presentes pudessem aquirir mais elementos para considerar com mais profundidade a questão que abriu o seminário e que o permeou o tempo todo: “Somos livres?”

José Luiz Bueno