Sobre a banalização do “humano”

Eu sei que o caminho mais fácil é o do extremo, e sei que no extremo não há conhecimento, por isso, procuro não pensar nem agir nos extremos, e procuro caminhar racionalmente eqüidistante dos extremos. O que, provavelmente, nem sempre consigo. Mas, sigo tentando e me esforçando.

Uma das coisas em que mais nos regozijamos, nos ufanamos, em nossos dias de sociedade civilizada, é de nossas conquistas no campo do conhecimento científico. E tais são os benefícios que a Humanidade tem obtido que realmente temos o que comemorar. E aí mesmo, nesta área, é onde ocorre um dos nossos tradicionais extremismos.

Temos passado, como Humanidade, ao menos neste ramo ocidental, por um período de descobertas que têm trazido tal fascínio que cotidianamente vemos as pessoas assumirem uma postura “científica” até nos diálogos familiares no café da manhã. Nada mais digno de orgulho do que isso. Mas, exatamente aí, temos sofrido um processo de convencimento de que este tipo de raciocínio é o único possível. Começamos a nos deixar convencer de que se não pensamos de forma “racional” e “científica”, então, não pensamos. Só é racional o que é científico. E só se pode pensar “racionalmente”.

Sem cair na banalidade de uma crítica fácil ao modelo científico de pensamento, que a maioria nem sabem bem o que significa, e que obviamente é uma grande conquista da humanidade para a humanidade, refiro-me a uma linha de pensamento que se oculta por trás desta aparentemente “óbvia maneira correta” de pensar. O que este tipo de “racionalidade” oculta, não assume, não explicita, é que ela é a face socialmente aceitável da absoluta banalização e materialização do humano, num processo que continuamente o transforma em simples ativo de uso cotidiano das muitas indústrias sociais. Que é o homem? Biologicamente, apenas um pedaço de matéria dotada de um algo que se chama auto-consciência, que logrou manter-se diante da pressão evolutiva. Socialmente, apenas um produto dos mecanismos históricos, culturais e políticos. Que é o homem? Apenas um “agente econômico”, um “consumidor”, um “eleitor”, um “contribuinte”, um “componente do universo de pesquisa de opinião”. Que é o homem? Apenas mais uma “coisa” dentre as muitas coisas existentes.

Esta “coisa” tem algum “valor”? Cientificamente, estatísticamente, mercadológicamente, politicamente falando, claro que sim! Tem o valor de um algo que pode ser manipulado, testado, medido, vendido, comprado. Mas, e além disso? “Bobagem”, dirão. Valor? Significado? Sentido? Bobagem. Já não temos mais tempo para pensar nestas coisas. Nossa mentalidade científica já “provou” que não há sentido, valor nem significado para nada. Em outras palavras, que é o homem? Resposta: nada.

Isto é o que se oculta atrás desta nossa mentalidade utilitarista, quantitativa. E aí, dada esta falta absoluta de sentido, de qualquer fundamento para o valor da vida humana, instaura-se o mais absoluto nihilismo. E o que resta aos que pensam um pouco mas não saem deste envoltório “racional”? Esconder-se atrás de uma quase tola afirmação uma simplicidade da vida, que o que importa é “ser feliz”, que é viver o dia-a-dia com os prazeres cotidianos. Que é isso senão a mais urgente fuga da consciência de que em nosso tempo, com a nossa mentalidade racional e científica, nós, os indivíduos, os “humanos”, passamos a valer nada, a significar nada, a não ter sentido nenhum. E então é preciso preencher e ocultar este vazio, este nada, este deserto, com as simplicidades e cotidianidades. É preciso se “entreter”, é preciso ter “passa-tempos”, é preciso estar o tempo todo voltado para as coisas pois o deserto interno é extremamente desagradável.

Estou fazendo a apologia do combate à ciência e à racionalidade? Por favor, não me tome por extremista nem tolo. Mas, ao mesmo tempo, não estou disposto a assumir este auto-engano coletivo de ocultar este “nada” com a maquiagem mercadológica que vende esta belíssima embalagem vazia de conteúdo, que é esta mentalidade pseudo-científica e pseudo-racional de nosso tempo que não tem coragem de assumir o preço de nadificação do humano que ela inevitavelmente traz consigo.

Pensar o humano apenas como um algo que pode ser testado, medido, provado, manipulado, alterado. Isso é a mentalidade “objetiva”, “racional”, “científica”. Este é o aspecto perverso que é preciso ter em conta quando se assume este tipo de mentalidade, de “racionalidade”. Este é o legado que é preciso avaliar e criticar. Não a conquista dos conhecimentos científicos, não o produto dos “esforços racionais”. Mas, sim, a ilusão, o engano, que afirma que esta é a única forma de conhecer e de falar do “humano”. A ilusão de que nossa “razão” dá conta de tudo. E que “razão” mais “ciência” são tudo o que precisamos em termos de conhecimento. É preciso saber que este casamento tem como filho o nihilismo absoluto. E que, se assumimos esta mentalidade para enfrentar o viver, é preciso saber que junto com o nihilismo, que elimina toda a possibilidade de se investigar valores e significado, vem o reinado da força, pois, onde não há critério, a força resolve. O século XX foi o grande período em que isso se mostrou muito evidente.

Há momentos do pensamento em que ele é propositivo. Mas, há momentos em que é preciso exercer a crítica para se poder adquirir algum “discernimento”. Isto é o que me propus fazer nesta breve reflexão.