Sob o véu…

Tenho argumentado sobre a diferença entre ter preconceito e ter conceito sobre as coisas. O preconceito estabelece uma visão valorativa, um pré-julgamento e uma atitude pré-estabelecida em relação à coisa julgada. Um “pré”-conceito (prejuicio, em espanhol; prejudice, em inglês) estabelece uma atitude de desvalorização, confronto e desconfiança em relação à coisa julgada; e por isso mesmo tem apenas a aparência de algo racional e lógico; os argumentos contra a coisa julgada são muito mais retóricos do que qualquer outra coisa e, em grande parte, completamente irracionais (ou, no mínimo, irrefletidos).

Ter conceito sobre algo é exatamente o oposto. Requer que se investigue, que se observe, que se questione, que se dialogue com a coisa em questão. Ter conceito não é ter posições pró e contra. Ter conceito não é partir da resposta para chegar à justificação, mas partir da dúvida, da questão, da coisa, para se chegar a algo de compreensão, ou para se chegar mesmo à conclusão de que não se tem opinião ou conclusão a respeito, ou seja, que ainda não se tem conceito a respeito. Mas, vejo que pouca gente tem coragem de admitir ignorância, principalmente se dedicou algum tempo na busca e investigação de compreensão sem obter os frutos esperados.

Os assuntos de fé são os mais difíceis neste campo, pois, em geral, exigem exatamente o oposto do que estamos propondo aqui. Se, como à vezes se define, ter fé é exatamente não ter necessidade ou não se depender da razão, o processo de investigação, de dúvida, de diálogo, parece estar excluído. Será assim mesmo?

O que é que se esconde por trás dos dogmas da fé? Aquilo que é objeto de fé é imutável? Podem as religiões baseadas em revelação evoluir? Elas caminham em direção ao futuro ou sempre de volta ao passado, ao seu evento fundacional? Uma revelação é algo pétreo e imutável? Algo que é revelado não deveria ser auto-evidente, sem margem à dúvida? Não é este o sentido de algo que estava velado e passou a ser uma “revelação”, algo que estava oculto e ficou exposto, a descoberto? Mas, se uma revelação revela apenas símbolos ou indicações ou grandes linhas gerais, não fica aí já declarada a necessidade da “evolução” da religião baseada nesta “revelação” semi-velada, que exige uma compreensão cada vez mais profunda ou clara destes símbolos? Portanto, não seria que a própria revelação estabelece a necessidade da dúvida?

Cada vez mais me parece que aquilo que se refere ao mundo da fé, da religião, da espiritualidade, de Deus, exige mais do que nunca a dúvida, o questionamento, a investigação. Por mais poderosa, profunda, grandiloqüente que tenha sido uma revelação, por mais eloqüente que tenha sido ou seja o místico receptor da revelação, se é uma “revelação” isto implica que há sempre algo “velado”, algo ainda não “re-velado”, algo não des-velado.

Que há por trás do véu da revelação?