O Qohélet e o enfado do Conhecimento

Recentemente, lendo um livro de Slavoj Zizek, o psicanalista, filósofo, conferencista esloveno, fui posto novamente frente a um texto velho conhecido meu que está no livro Qohélet, da Bíblia. O Qohélet tradicionalmente é conhecido como Eclesiastes e atribuído ao rei Salomão, até por conta do texto consolidado no qual as primeiras linhas indicam a possível autoria do texto. Isto, em termos da pesquisa acadêmica é posto em dúvida, mas, de qualquer forma, não é o nosso foco aqui.

O que me despertou a atenção é o significado de um dos últimos versos do livro. Há várias traduções disponíveis para o texto. Mas pode-se encontrar no texto a afirmação de que não há limites para a produção de livros (rolos, no original) e o muito estudo (que no original poderia ser entendido como a ávida aplicação da mente) traz cansaço, ou enfado, para a carne, o corpo, ou para si mesmo.

Sempre ouvi pregadores e comentadores se referirem a este texto no sentido de que o muito estudo, ao final, apenas traz cansaço, e nada mais. O sentido aplicado sempre era o de que o conhecimento humano nada acrescenta à vida espiritual do fiel e o muito estudo seria, na verdade, desnecessário, pois o importante seria viver na contínua experiência e esperança da fé.

Nunca me convenci de tal explicação e, de qualquer maneira, via nesta interpretação um viés obscurantista, que queria evitar que as mentes dos fiéis fossem desafiadas pelo conhecimento, pela razão, e percebia também um outro viés, tão ruim quanto, que é o da “preguiça espiritual”, isto é, que a razão é inútil e que tudo o que importa vai ser “revelado espiritualmente”. E este segundo viés alimentando, igualmente, o primeiro.

O texto do Qohélet é visto como pessimista por alguns, como cético por outros, como criptomaterialista ou criptoateu por outros. Minha amiga, Cristina Guarnieri, doutora em Ciências da Religião pela PUC, em cuja tese de doutorado se enfrenta com Qohélet além de dois pensadores recentes, vê neste livro o encontro, o diálogo, ou o embate, entre a tradição judaica e atradição helenista de pensamento, segundo a experiência de um judeu da antigüidade. Neste ponto, começo a ver as leituras mais profundas e interessantes do Qohélet.

Mas, voltando ao ponto de partida, nesta leitura inspirada por Zizek, vi o aspecto que me chamou mais a atenção. O Qohélet faz um profundo questionamento sobre a existência humana, diante da natureza, diante do tempo, da busca de sentido, da morte. E a honestidade e franqueza do texto inexoravelmente encontram a condição humana, na sua incompletude, na sua insuficiência, na sua falta de sentido em si mesma.

Diz ainda o texto já nos primeiros versos: “Porque na muita sabedoria há muito enfado; e quem aumenta ciência aumenta tristeza.” (Eclesiastes 1:18). O escritor está diante da condição humana na sua mais crua face. A consciência de si, esta dádiva e este fardo humano, torna clara a distinção de cada ser individual com relação a tudo mais: ao outro, à natureza, a Deus. Este si-mesmo do homem o delimita diante de tudo o que não é ele mesmo. A consciência de si, a consciência existencial de cada indivíduo, é um tesouro, o maior fruto da existência e o maior material sobre o qual a inteligência se debruçará na busca da sabedoria.

Mas, exatamente neste ponto, a dupla natureza desta consciência se revela. Este ser que se percebe a si mesmo como único, como pensante, como consciente, como vivo, sabe que tudo isso é efêmero, é “vaidade”, é passageiro. A consciência da insuficiência, da incompletude, de estar diante da tristeza, do sofrimento, da morte, além da clara percepção da falta de sentido das coisas em si mesmas, do movimento aparentemente cíclico e mecânico da natureza, da inexistência de justiça e do próprio bem nas coisas dos homens. O justo e o injusto têm o mesmo fim, diz o texto. Tudo igual. Tudo repetitivo. E nada que se possa saber do que virá. Nada. Nem ninguém para saber nem para dizer.

Assim se vê o escritor diante desta gloriosa luz da consciência de si e, ao mesmo tempo, da tragédia que é a existência efêmera, sem fundamento nem destino, quando olhada em si mesma.

Ora, já não é difícil perceber que nesta reflexão, o estudo que leva ao conhecimento é enfado para a carne pois ele revela a precariedade desta carne, deste ser. O Pregador (uma das traduções para a palavra “qohélet”) não faz distinção de corpo e alma, algo que parece ser muito mais o feitio da concepção de homem presente no Antigo Testamento. Assim, cansaço do corpo é cansaço do ser. E este cansaço, este enfado, não é o do esforço, do trabalho do corpo em buscar o conhecimento, mas o cansaço, o enfado, de ver a própria condição, a própria precariedade como um vivo que logo deixará de viver, e que todo o fruto de seu trabalho, de sua vida, ficará aí, ou para outros, ou para o esquecimento.

Sem cair no pieguismo religioso, o Pregador reflete sobre a condição existencial humana. E nele mesmo, no texto, pode-se encontrar o olhar que se dirige ao longe, a algo para além da natureza, seja a exterior, ou seja, para a interioridade humana. Além da exterioridade, o único algo que pode dar sentido a isto que não tem sentido em si mesmo está nesta transcendência, num para-além deste ciclo sem sentido. Se há algum sentido nisso tudo, ele não provém da natureza, do tempo, nem do homem em si mesmo. Mas, há também um para-além no homem mesmo. Na sua incompletude, precariedade e insuficiência, ele pode perceber que há nele este algo que faz com que isto tudo possa ser percebido.

Diz o Pregador que “… (Deus) também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim.” (Eclesiastes 3:11). Como a natureza não tem sentido, nem justiça, nem alegria em si mesma, assim o Homem, que só encontra a saída naquilo que está para além de si mesmo e de tudo o que o cerca.

E este além-de-si-mesmo, de alguma maneira, está neste aquém-em-si-mesmo, a eternidade nele que está presente, mas que, nem por isso, lhe pode revelar o que permanece em mistério, oculto. A experiência existencial desta eternidade em si é tudo quanto este Homem parece poder alcançar. E precisaria ele de mais do que isso.

O enfado de si, trazido pela consciência, pela sabedoria, pelo muito conhecimento, traz em si a esperança de que este Homem possa ir além deste si-mesmo natural e possa olhar na direção daquilo que não se revela a esta enfadada mente e aos seus olhos, mas que, assim mesmo, a ele se dá, de alguma forma, em alguma medida, na experiência interna da própria existência como lampejo fugaz desta eternidade presente.