Eternos prisioneiros?

Parece que é algo atávico. A raça humana – nós –  tem muita dificuldade em ser livre. Eu não cesso de me surpreender e me abismar com isso. Muitas têm sido as vozes que clamam, ensinam, exortam, que deram verdadeiros chacoalhões em indivíduos, grupos e até mesmo nações, conclamando a que se reconheçam como seres livres. Refiro-me, primeiramente, à liberdade interior do indivíduo, do ser singular. A liberdade exterior, que se manifesta no coletivo é de outra natureza. E as liberdades da coletividade como tal, são ainda de uma terceira natureza. A mim me parece que todas derivam da primeira, a interior.

É surpreendente, apesar de não ser nenhuma novidade. Ser livre dá trabalho. Esse trabalho, poucos estão dispostos a assumir. As prisões humanas são de diversas naturezas. Há os instintos. Há as leis naturais. Há os costumes. Há os hábitos. Há os valores. Há os interesses. Há as prisões das crenças. Claro, exteriormente há as leis humanas, socialmente estabelecidas, juridicamente definidas e policialmente mantidas. Mas a estas me referi como sendo, de alguma maneira, secundárias à liberdade interior.

Num certo sentido, ser livre é estar desperto. Tomar consciência destes muitos tipos de prisões é acordar para eles, para cada um deles, e ir se livrando de um por um. Cada um deles exige um tipo de ferramental, um tipo de recurso interno, para enfrentá-lo e o desfazer. Cada tipo de prisão tem um tipo “certo” de chave que abre a porta das grades permitindo sua saída, ou um tipo de instrumento que derrube estas grades.

O filósofo e místico brasileiro, Huberto Rohden, dizia que os homens se acostumam com suas prisões e gostam delas. Elas têm as grades feitas de ouro. Não obstante, são grades, são prisões. Mas os homens apreciam suas prisões douradas. Elas já estão prontas. Basta seguir vivendo dentro delas.

Parece que o apelo a que cada um alcance, conquiste a sua liberdade, esbarra neste esforço a que cada um deve se submeter para alcançar este estado de liberdade interior.

Quão freqüente é a situação de pessoas que começam a tomar consciência deste caminho para a liberdade, para o despertamento, e que, não muito depois, vão como que cansando, caindo no mesmo sono anterior, voltando às douradas grades.

Vivemos numa época em que a exterioridade da natureza humana prevalece. O sensível, e o sensual, são o ponto alto.  Renato Russo (da banda Legião Urbana) disse em uma de suas letras que “disciplina é liberdade”. Este é um antigo preceito que indica que a atual consciência de que ser livre é ter a possibilidade de expressar os instintos e buscar o prazer sem barreiras nem “preconceitos”. Esta é, talvez,  a mais declarada forma de prisão. Um se humano que ostenta sua “razão” como seu cetro de autonomia e seu cérebro como a coroa da evolução, se diz “livre” quando se deixa escravizar exatamente pela forças inconscientes de sua natureza animal e horizontal. A liberdade interior começa pela consciência das força internas que regem o indivíduo e se expressa, internamente, exatamente pelo ato de negação. O “sim” à natureza interna é apenas a fluência natural das forças mecânicas e instintivas que dominam o indivíduo. Estas forças regem seus sentimentos e sua razão. A presença de elementos irracionais na razão foi muito discutida pelo filósofo alemão Schelling, no século XIX, o qual deu muitos subsídios para o desenvolvimento da psicanálise de Freud, dentre outros.

Por isso, um princípio aparentemente oposto à liberdade, que é o ato consciente da negação interna, a disciplina, na verdade é revelador de uma muito maior autoconsciência e autodomínio, que são os princípios da liberdade interna, individual, são sua base e seu fundamento.

É nesta chave que leio, por exemplo, o tão simbólico texto das “tentações” pelas quais Jesus passa no início de sua vida pública. O exercício ali relatado é o da maior liberdade interna pela afirmação da vontade consciente sobre os impulsos internos e sobre a ação dos estímulos externos. Este texto, em particular, vai nos requerer uma reflexão mais extensa em outra oportunidade.

A autoconsciência, a compreensão dos instintos regentes e dos condicionamentos emocionais e mentais, é o primeiro passo para a conquista de uma liberdade. O exercício da autonegação, da autodisciplina, é caminho para a aquisição desta condição de liberdade.

Vemos que, na verdade, não nascemos livres no sentido mais profundo desse conceito. Nascemos com a possibilidade de adquirir a liberdade, mas isso virá com um trabalho consciente sobre si mesmo. A liberdade, enfim, terá um preço. Para quem quiser…

Da longa luta entre o universal e o particular

De diversas maneiras, esta antiga polêmica sempre surge no horizonte. Duas maneiras de se pensar: uma que parte de valores universais, acima das subjetividades, que determina os padrões para justo, o bom. Um padrão que não se sujeita a vontades particulares, nem mesmo à vontade da maioria. É a idéia de que há uma lógica, um plano, que ordena a realidade. São as “leis universais”, que tiveram tanta fama e que, hoje em dia, estão em baixa na bolsa comercial das credibilidades globais e nas pesquisas de preferências das maiorias.

A outra forma, mais recente, é a que parte exatamente da subjetividade, do particular. É quando o indivíduo se manifesta ou quando o fato particular se sobressai. É o momento em que pode surgir o ato criativo, quando surge o valor de algo como insubstituível. Ao mesmo tempo, é quando surge o gosto, a preferência, a conveniência. Quando o particular impera, não há padrão, norma, parâmetro. Tudo é possível e nada é seguro. Toda e qualquer vontade, por absurda e violenta que seja, tem tanto valor quanto qualquer outra. O certo e o errado são apenas questão de costume ou da preferência vigente da maioria. O maior centro de decisão dos valores vigentes é o instituto de pesquisa; em vez da lei universal, a opinião pública; em vez da lei escrita, a pesquisa; em vez do valor, a média estatística; em vez da qualidade, a quantidade.

Nesta pequena síntese, estão resumidos séculos de debate filosófico. Até antes do Renascimento e da Idade Moderna, o universal era o conceito vigente. A filosofia platônica e o desenvolvimento teológico sustentavam esta visão. Com o Iluminismo moderno e a esperança de que a razão autônoma desse conta de todas as necessidades humanas, o subjetivo e o particular entraram em alta. Os padrões universais caíram, e com eles toda e qualquer capacidade de julgamento moral das ações humanas, individuais e coletivas. O julgamento passou a ser pela lei formal ou pela razão instrumental segundo o critério utilitário. Daí a ciência e a tecnologia, que não têm em si nenhum critério moral. Tanto se pode produzir energia e sistemas de tratamento de saúde quanto armas de destruição em massa. Dá no mesmo.

Tanto um como outro têm sua razão e sua aplicação. Tanto um como outro são defensáveis. Filosoficamente, parece não haver solução à vista. O utilitarismo vigente, a razão de mercado, a lógica da eficiência e produtividade e a pesquisa de opinião pública, quantitativamente parecem estar predominando.

Mas, o resultado aparente, devido ao desenvolvimento tecnológico, oculta uma decadência vertiginosa na autocompreensão do ser humano. E um conceito tão fundamental como o da própria vida humana, e a questão de se ela tem valor em si mesma, tem sido julgado neste tribunal da eficiência e da lógica de mercado.
Estamos diante da crise da pós-modernidade. Este termo, que já está ficando caduco ou pedante, ainda revela o estado em que nos encontramos.

Parece que depois de um milênio de universalismo, predominantemente teológico, e de quinhentos anos de razão iluminista, temos que achar um terceiro termo que possa responder a essa necessidade. Possível? Não se sabe. Mas, a tentativa é mais do que justificada.