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Participação popular, de fato?

Este breve comentário foi escrito sob o estímulo de uma colega que me pediu a opinião:

Sobre o artigo do prof. Ladislau Dowbor (http://outraspalavras.net/brasil/participacao-o-grande-fantasma-das-elites/ ), já do início percebo um evento recorrente: a cada crítica aplicada a algum procedimento ou postura do governo federal ou do partido que o comanda, antes do debate já vejo aparecer uma acusação, vejo aparecer aplicado a esta crítica alguma rotulação a esta crítica, dizendo, p.ex., que é de “direita”, ou que procede da elite, ou que que é retrógrado, etc.. Antes do argumento, o qualificativo, o adjetivo, o rótulo, como forma de marcar e encerrar o diálogo através do silenciamento do outro.
E sabe-se que quando alguém de esquerda diz que algo é de “direita”, ou da “elite”, ele quer dizer atrasado, retrógrado, preconceituoso, etc. Ou seja, não importa de onde venha a crítica, importa aplicar-lhe um rótulo para calá-la ou estigmatizar quem a produz para calá-lo.

Esse rotulação é tão banal que chega a causar sono.

Em meu juízo, o argumento de que, através do decreto que institui a PNPS (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Decreto/D8243.htm), busca-se a participação dos cidadãos, na verdade, disfarça a ocupação do executivo por estes conselhos “populares” e, portanto, na efetiva participação na elaboração das políticas públicas, na prática, não pelos cidadãos, não pela “sociedade civil”, mas, sim pelos grupos organizados. Se o tema é a crise de representatividade, estes grupos são, também, pouco representativos pois são produzidos por uma certa forma de organização social patrocinada pelo partido do governo e pelos radicais de esquerda, e sustentados por verbas oriundas da fazenda pública.

Se a crítica do autor se refere a que os meios representativos não estão adequados (a crise da representatividade), devemos reformar as formas de representação e atuação com participação do cidadão diretamente, mas, primeiramente, deveríamos fazê-lo nas vias legislativas. A reforma deve começar por onde, na democracia, se diz que o povo está representado.

Colocar a administração pública sob a influência ou mesmo comando destes “conselhos populares”, argumentando-se que se vai obter, realmente, participação dos cidadãos, as pessoas que constituem fundamentalmente a sociedade civil, que os cidadãos é que tomarão em suas mãos o governo do país, é ingenuidade, ignorância ou má-fé. Os únicos que efetivamente participarão serão os membros dos grupos organizados que hoje vivem de verba pública, de impostos, para se sustentarem e terem tempo de participar das muitas comissões, debates, consultas, etc.,  pois as pessoas comuns, não participantes ou não militantes desses  ou nesses “movimentos sociais”  – verdadeiros enclaves de gente sustentada pelos impostos arrancados dos cidadãos que efetivamente trabalham e produzem riqueza para o país, direcionados a estes movimentos, coletivos, etc., por um governo aparelhado pelo PT -, estes cidadãos, estes sim “trabalhadores”, não têm tempo de participar desses movimentos pois não são sustentados pelos impostos, são, na verdade os que trabalham para gerar riqueza e impostos, de que esses grupos se apropriam. E se não trabalharem, não pagam as contas. Não obstante, a grande maioria da população terá sua vida dirigida e normalizada por estes pequenos grupos e movimentos da “sociedade civil”.  Diz o decreto “para promover a participação no processo decisório e na gestão de políticas públicas;”.
Basta pensar o que será a administração pública na qual o MST ou o MTST teriam participação na definição das políticas públicas a serem aplicadas pelo executivo.
Os movimentos de junho de 2013 foram considerados legítimos por muitos analista e comentadores enquanto falavam a língua da esquerda. Quando ouve tons e reivindicações e críticas diferentes, já não era mais um movimento legítimo pois era originário de qualquer coisas menos dos movimentos de esquerda. Até de fascistas foram chamados os cidadãos que tinham uma pauta diferente daquela que interessa à esquerda que está no poder ou que quer ocupá-lo.

Depois de doze anos no poder, agora, pouco antes das eleições, o governo do PT lança esse decreto, sem discutir com ninguém. Um decreto de gabinete, que, se diz que quer instituir a participação da sociedade civil, começa impondo algo sem pedir opinião a nenhum cidadão.

E, interessantemente, o que Dowbor expõe no final é que as iniciativas que ele, corretamente, elogia, são iniciativas que apoiam a atividade da própria população através de uma OSC, não de um comitê  ou conselho que vai interferir na vida de muitas pessoas, não em um grupo que aparelha o Estado, mas em uma associação que produz o resultado. Um grupo da sociedade civil, aparentemente não sustentado pelo aparelhamento do Estado. Mas, observe-se: quantos quebra-quebra e invasões e comitês essa OSC patrocinou? Quantas vezes essa OSC interrompeu as vias públicas? Quantas comissões, mesas, comitês, etc., essa OSC patrocinou para fazer o que faz?

Esse argumento de que quem critica o decreto está contra o povo, não gosta do povo, é uma generalização ideológica e partidariamente engajada.

A reforma que o Brasil precisa é política, antes de qualquer coisa. Fazer, agora, o executivo funcionar de acordo com o que os conselhos populares, aparelhados pelos partidos de esquerda, é apenas uma forma de entregar o governo nas mãos de alguns grupos ligados ao partido situacionista, de forma tal que este partido da situação permaneça no poder mesmo que atual administração não seja reeleita.

Antes de decretar, o Governo Federal deveria ter consultado a sociedade sobre as formas de participação que ela deseja. Antes de criar instâncias, ele deveria perguntar à população se é assim que ela deseja. A não ser que o Governo Federal deseje governar e fazer um Brasil que seja de acordo apenas com a parte da população que se alinhe com a sua visão política, tornando a vida dos outros um inferno político, social e fiscal.

Eu não sou da elite (provavelmente o autor também se refira à elite “branca, rica e bonita”, a que Lula se referiu, não? Bem, destas características, eu sou apenas branco) e tenho o direito de discordar e ver diferente do que vê este governo e isso não me faz carrasco de ninguém, nem retrógrado, nem fascista, nem direitista (seja lá o que isso queira dizer), nem outra dessas coisas. Apenas desejo um país mais justo e mais aberto, mais participativo, menos sujeito à corrupção, que use com eficiência os impostos que arrecada e os aplique para o bem dos cidadãos, mas, para isso acontecer, não acredito nessa via que a intelligentsiya quer impor ao Brasil.

Sobre a violência no Brasil

Com relação à violência cotidiana, que assistimos acontecer, ou que nos acontece de alguma forma, parece-me que em todas as instâncias, nós, brasileiros, estamos adotando a atitude mais prejudicial, isto é, a de justificar e não punir legalmente os atos de violência: o criminoso que rouba, agride, mata, é justificado devido à sua condição social; os cidadãos que agem por conta própria, fazendo justiça com as próprias mãos, são justificados pela ausência do Estado ou pela leniência das leis e do judiciário; torcedores (serão?) agridem e matam outros, dentro e fora dos estádios, e são acobertados pelos dirigentes dos clubes; policiais são violentos e são justificados pelas instâncias do estado; manifestantes são violentos e mesmo matam outros cidadãos, são justificados em nome do “direito democrático de se manifestar”; manifestantes usam dinheiro público para organizar quebra-quebra e são recebidos pelos governantes para “dialogar”; políticos agridem física, moral, legal, política e financeira/fiscalmente o país todos e ninguém os pune, ou a própria classe política os apóia e protege; empresários violentam o país com sistemas corruptos de obtenção de contratos e são acobertados por políticos e pelo sistema legal; pessoas ricas cometem atos de violência e se protegem usando do dinheiro e do matagal da burocracia legal; pessoas no trânsito, de todas das classes, cometem as maiores atrocidades contra outros motoristas, motociclistas e pedestres, e conseguem se safar; agressões são feitas em nome da intolerância de gênero, racial, social; e etc,…

Não adianta criminalizar mais nada. O que me parece necessário é que todos nós, toda a sociedade brasileira, adotemos uma postura única: não admitir nenhum tipo de violência e fazer com que a lei seja cumprida; que o Estado, que é nosso instrumento de controle, cumpra seu papel e puna os cidadãos violentos. É preciso que paremos de justificar os tipos de violência, seja qual for o tipo. É preciso que admitamos que a lei que declara a violência como um crime seja cumprida e válida para todos.
A nossa complacência com a violência nos faz cúmplices dela e dos crimes cometidos.

O que realmente vale a pena (sobre a experiência em Juiz de Fora)

Neste período passado no Seminário de Mística Comparada, coordenado pelo prof. Faustino Teixeira, da UFJF, em Juiz de Fora-MG, tive mais uma vez a oportunidade de conviver com, e ver a convivência de, pessoas de confissões religiosas diferentes e mesmo com posicionamentos diferentes em relação à religião e à mística.

seminario-mistica-juiz-de-fora-2012

Nessa experiência, algo, mais uma vez, me veio à mente. Uma das grandes iniciativas, que tomou corpo em anos já passados, é a de promover o chamado “diálogo interreligioso”, que seria uma tentativa de aproximar as diferentes religiões, promovendo o intercâmbio entre elas e buscando, principalmente, como resultado, a convivência pacífica, respeitosa e, quem sabe, até mesmo frutífera entre estas diferentes práticas e diferentes percepções do que é o Ser Humano, o Mundo e Deus ou os Deuses.

Mas, em Juiz de Fora, ficou para mim, mais uma vez, muito forte a impressão de que jamais serão propriamente as religiões que dialogarão. Elas são, em si, sistemas de conceitos, de princípios, de crenças, de muitas visões abstratas, imateriais, algumas já sedimentadas e feitas imutáveis, que apontam para aquilo cuja natureza não pertence ou não está restrita a este nosso mundo ou a esta nossa condição. Sendo assim, de forma similar ao que ocorre com os sistemas filosóficos, os “sistemas” religiosos até mesmo convivem em uma mesmo espaço ou mesmo tempo histórico, mas, cada um deles é uma totalidade fechada, completa em si, auto-suficiente e, em muitos dos casos (senão todos), satisfeita com sua própria “verdade”, o que implica em reconhecer somente a sua verdade.

O que, então, saltou-me aos olhos é que, mais um vez, o diálogo parte, não das religiões, não dos conceitos e sistemas, mas das pessoas. Sim, “pessoas”. Estes seres de cuja interioridade parte o interesse pelo outro, a vontade de conhecer o outro, o sentimento de respeito e de prazer de estar junto do diferente, a necessidade de aprender com o outro, a vontade de rir junto das ignorâncias compartilhadas, de perceber, principalmente naquilo que não é dito, as angústias de que todos sofrem pelo fato mesmo de sermos todos humanos e que isto mesmo é que dá o valor da convivência.

Quando vi isso, mais uma vez percebi que, no fundo, a “verdade”, como conceito, idéia, sistema, é o que menos importa. As relações verdadeiras, diretas, autênticas, que se comprazem com o diferente, que aprendem com isso o que nos une como imperfeitos e o que nos aproxima como seres capazes de diferentes respostas e caminhos para enfrentar a condição humana.

Se há alguma esperança de paz, de convívio frutífero, de mútuo aprendizado, de compaixão pela universal angústia de estar vivo, tudo isso brotará não das religiões, dos sistemas metafísicos, nem mesmo das soluções políticas e científicas, mas, sim, de pessoas que assim o desejam, de pessoas que valorizam esse algo humano, que até o presente nos parece único (apesar de todas as iniciativas de desvalorização e rebaixamento do humano).

É das pessoas que parte toda e qualquer possibilidade de aproximação, ou de distanciamento. O que experimentei em Juiz de Fora, foi a “possibilidade”: aproximação, a convivência, o prazer de estar junto, sabendo que “respostas”, “verdades”, talvez sejam simplesmente inalcançáveis para nós humanos, mas que isso talvez nem importe (como, aliás ensinam várias tradições religiosas), pois, daquilo que nos é possível, como é a convivência frutífera, já faz valer a pena.

 

Igualdade!!

Tantas coisas nessa vida e, ao mesmo empo, tudo tão igual, tão rotineiramente igual… os ditos, os sentidos, os intuídos, os pensados…
Não é à toa que Nietzsche, e outros, ainda reconheciam que a diferença é feita por poucos, bem poucos…
Mas, por razões religiosas e políticas, teimamos em defender a igualdade: que tudo e todos sejam enfadonhamente iguais. Mediocremente iguais. Totalitariamente iguais. Ao olhar ao redor, vê-se que essa imposição se cumpre e a possibilidade da genialidade é esmagada na mediocridade.
Democraticamente iguais. Espiritualmente iguais.
Onde o lugar do mestre? Onde o lugar do gênio? Onde o lugar do criador?

Sobre as reações no Oriente Médio: religião, mídia e preconceito.

Exponho brevemente, aqui, algumas reflexões que tenho feito a fim de tentar entender um pouco melhor a situação presente no Oriente Médio, com relação à onda de manifestações coletivas, de ódio, violência, mortes, em alegado repúdio ao referido vídeo, considerado ofensivo ao Islã.

Entendo que está presente, sim, a questão religiosa (no sentido do dogma da irrepresentabilidade de Deus e do profeta, que estabelecem o caráter dito blasfemo do vídeo). Mas, parece-me que não se deve reduzir a interpretação do problema exclusivamente ao âmbito religioso. Parece difícil justificar tanta violência e até mortes com base unicamente na reação motivada no sentimento religioso da população.

Pode-se observar que o movimento tem, também, conotação política. Os grupos que estimularam a população ao movimento violento de reação utilizam e divulgam publicamente o motivo aparente do sentimento religioso para mover forças psicossociais na população e também para ganhar legitimidade junto à sua população em relação aos seus movimentos contestatórios e à violência estimulada por eles.

Ao mesmo tempo, não se pode perder de vista que há, conjuntamente, um problema de reação à presença econômico-política das potências ocidentais no Oriente Médio, especialmente dos Estados Unidos, que, queira-se ou não, deixa sempre a marca da presença de um poder economicamente exploratório. Se se justifica ou não essa acusação, isto é para se investigar, mas que os grupos que querem ascender ao poder nesses países se utilizam dessa retórica, isso vai ficando cada vez mais evidente.

Por outro lado, também há a ótica de como essa mensagem chega para nós, consumidores ocidentais de informação. A cobertura jornalística ocidental, ao menos no nível das manchetes, insistentemente dá como única e exclusiva explicação para o tema a questão religiosa, enfocando o fundamentalismo religioso islâmico, a intolerância religiosa, etc. Agindo dessa forma, essa cobertura jornalística apoia e reforça uma imagem já (pré)concebida, extremamente utilizada na retórica da guerra ao terror, a qual se aplica indiscriminadamente a toda a população e a todos os países que professam o islamismo no mundo.

Há indicações de que esse movimento radical é de responsabilidade de um grupo pequeno que consegue mobilizar a mídia para criar a impressão de ser algo que envolve a grande parte da população de confissão islâmica.

O que se pode deduzir daí é que, conscientemente ou não, o enfoque midiático exclusivo no argumento religioso é favorável aos argumentos de auto-defesa das potências mundiais presentes no Oriente Médio, pois lhes permite afirmar que o problema é originado na religião islâmica e em sua “intolerância” e não de sua presença economicamente predatória nessas regiões e nesses países, associadas a governos com pouco interesse em mudar a situação econômica de suas populações. Essa retórica reforça a idéia preconcebida de que os combustíveis da insatisfação e da mobilização popular são a religião e a intolerância. É evidente que essa insatisfação tem sido utilizada por estes grupos radicais islâmicos que usam a população como escudo e como massa de manobra para seus próprios projetos políticos de tomada do poder. Mas, deve-se observar que quanto mais a mídia internacional mantiver a cobertura exclusivamente sob o argumento da insatisfação religiosa, mais ela ajuda a mascarar o problema, que é sócio-econômico, e mais favorece o aprofundamento do fosso entre as culturas baseado no desconhecimento mútuo. Como conseqüência, essa mídia trabalha a favor de ocultar o papel das estruturas econômicas que atuam de forma exploratória nessa região e, paradoxalmente, favorece os grupos locais radicais e violentos na utilização midiática do argumento religioso para as mobilizações. A religião continuará sendo o culpado mais fácil de apontar em tudo isso. E essa (falsa) “culpa” é aplicada indiscriminadamente sobre toda uma população de mais de um bilhão de pessoas!

De nossa parte, é preciso que sejamos observadores críticos desse viés da cobertura da mídia internacional (que tem grande influência dos grupos de comunicação norte-americanos) ao menos para desconfiarmos do argumento exclusivo na religião.

E ainda eu gostaria de acrescentar um terceiro tópico, mais a título de reflexão em andamento do que propriamente de oferecer um argumento. Ao que parece, estes movimentos radicais que observamos não reconhecem o conceito nem o papel do “indivíduo”. Em outras palavras, o “indivíduo” tem pouca importância no aparato conceitual desses grupos (culturais, religiosos ou apenas políticos). Tampouco parece haver a preocupação com o reconhecimento das alteridades (a noção de que há um “outro” cultural, religioso, etc.,) que teria o mesmo estatuto ontológico que o seu próprio, o que implica o direito à existência em sua própria condição de diferente. Isso resulta em que se algum indivíduo ocidental produz uma ato considerado uma ofensa religiosa, tal fato não é visto como problema que aquele indivíduo particular causou mas, sim, que todos os ocidentais são responsáveis por esse ato. No caso em questão, que todos os norte-americanos são culpados pela ação de um ou alguns poucos cidadãos de seu país e, junto com eles, os demais não-islâmicos. Todo o diferente seria, assim, ruim por definição. (Veja-se os textos de Zygmunt Bauman sobre o problema do “diferente”, da “alteridade” na modernidade).

Este não é um problema novo. A noção de que um clã, tribo ou povo, na antigüidade, formava uma totalidade da qual o indivíduo era apenas um componente e que assumia coletivamente as virtudes, vícios, culpas, de seu povo, é bem conhecida. Os próprios relatos bíblicos ilustram essa situação com uma contundência notável.

A noção de subjetividade, e principalmente de um indivíduo como sujeito moral de seus atos, é uma construção ocidental, sim, que emergiu em especial com a modernidade. E é justamente essa noção que nos permite sustentar que a produção do tal vídeo é de responsabilidade daquelas pessoas que, por um ato voluntário, livre, decidiram produzir e produziram a peça em questão. Portanto, isso deve ser imputado à sua responsabilidade individual, e não a toda a coletividade, a realização de tal vídeo; eles, como autores, devem assumir as suas conseqüências morais e, se for o caso, civis e criminais. Essa noção de sujeito moral está na base da nossa noção de democracia, de sociedade, de leis, de estado laico, etc.

A questão que fica para se investigar é a de se a modernidade, ocidental de origem, nesse sentido, com seus conceitos de individualidade, de sujeito moral, de reconhecimento da alteridade, de sociedade civil, de democracia, direitos individuais e liberdade de expressão, talvez não tenha sido construída nem vivenciada ainda por esses grupos radicai, o que os levaria à rejeição da modernidade como apenas um “produto” ou uma “imposição” cultural do Ocidente.

Vários autores discutem a questão de se a modernidade era ou ainda é uma forma exclusivamente ocidental de civilização e se se poderia dizer que culturas não-ocidentais assumiriam ou se inseririam nessa chamada “modernidade”.

Talvez o momento das revoltas populares (que não parecem, de forma alguma, corresponder à maioria da população islâmica, muito pelo contrário) traga de novo essa questão da adoção dos parâmetros de modernidade por esses grupos do Oriente Médio e o quanto isso será necessário (e viável) para que a integração internacional possa se dar de fato.

E também serve para observarmos que nós, ocidentais, apesar de todo o caminho em direção à construção de uma cultura da racionalidade democrática e pluralista, também temos ainda grande dificuldade para compreender e para lidar com este “outro”, com o “diferente”, e desta forma compramos as idéias pré-fabricadas de que este é outro é sempre “radical e violento”. Para refletir com muita atenção!

Pequena chama.

Quem nunca experimentou aquilo que os românticos chamavam de um momento sublime? Mas, refiro-me a algo que, diferentemente dos românticos, não dependa da grandeza ou da imponência daquilo que esteja diante de nós, como elementos da natureza dotados da grandeza, da imensidão, da obscuridade. Penso em algo que se torna sublime, de forma paradoxal, exatamente pela singeleza. Algo que experimentamos que, de tão singelo torna-se único. Algo que é capaz de nos levar ao enlevo. Algo que nos marca de forma tão indelével que é capaz de fugir da voragem do olvido.

Experiências únicas que parecem que só podem ocorrer naqueles momentos em que a natureza se distrai e esquece-se de nós e, assim, podemos experimentar algo do eterno no efêmero. Talvez sejam coisas assim que vão compondo esse algo que chamamos de humano, essa eclosão de ser em um mundo de coisas, uma chama de consciência em uma vastidão de natureza.

Ser contemporâneo…

Pobre seres humanos contemporâneos. Cada vez mais solitários, efêmeros e descontínuos, como caixas de cereal na prateleira dos supermercados, sem história, sem narrativa, atraídos  pelas luzinhas piscantes dos “objetos” que lhe são ofertados, que lhes sinalizam o único futuro que podem oferecer -o mesmo deles-, o descarte depois do uso…

Por isso, seu instinto de sobrevivência os põe em constante movimento, para lhes dar a aparência ou a sensação de vida. Mas, é um movimento que se esgota como se esgota cada um deles na sua mera função. Não é um sentido que faz com que se movam, mas uma sensação de cumprir um papel, uma função em uma totalidade que em sua mecanicidade, em seu mover-se em função de si própria, tenta fazer suas peças acharem-se vivas e autônomas, pelo simples fato de moverem-se. Mas, como a caixa de cereal, o movimento de cada um é apenas o movimento de sua utilidade. Que muito rapidamente se esgota. É hora de colocar outra caixa no lugar…

Euforias do consumo

Theodor Adorno, em seu texto “A indústria cultural”, de 1947, em que aborda a situação da cultura -e da própria inteligência humana- frente ao desenvolvimento da indústria que abarcou toda a produção cultural, já alertava sobre a condição necessária em que deve estar e permanecer o “consumidor” para que o sistema todo funcione:

“… a mecanização adquiriu tanto poder sobre o homem em seu tempo de lazer e sobre sua felicidade, determinada integralmente pela fabricação de produtos de divertimento, que ele apenas pode captar as cópias e as reproduções do próprio processo de trabalho. O pretenso conteúdo é só uma pálida fachada…

O prazer congela-se no enfado , pois que, para permanecer prazer, não deve exigir esforço algum, daí que deva caminhar estreitamente no âmbito das associações habituais.

O espectador não deve trabalhar com a própria cabeça; o produto prescreve toda e qualquer reação…” (ADORNO, T. Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002, p.31)

Quando entramos em certas euforias de consumo, seja de produtos, seja de entretenimento (esportes, grandes lançamentos de filmes, etc., etc.), é hora de levantar a antena e perceber como nos comportamos e somos dirigidos por essas ondas midiáticas. Ao mesmo tempo, as formas mesmas de reação e controle que poderíamos usar para tentar um mínimo que fosse de autodirecionamento de nossas vidas, são estrategicamente afastadas de nosso alcance, cada vez mais.

Olhe ao redor e veja se isso não faz sentido para você…

Euforias do consumo

Theodor Adorno, em seu texto “A indústria cultural”, de 1947, em que aborda a situação da cultura -e da própria inteligência humana- frente ao desenvolvimento da indústria que abarcou toda a produção cultural, já alertava sobre a condição necessária em que deve estar e permanecer o “consumidor” para que o sistema todo funcione:

“… a mecanização adquiriu tanto poder sobre o homem em seu tempo de lazer e sobre sua felicidade, determinada integralmente pela fabricação de produtos de divertimento, que ele apenas pode captar as cópias e as reproduções do próprio processo de trabalho. O pretenso conteúdo é só uma pálida fachada…

O prazer congela-se no enfado , pois que, para permanecer prazer, não deve exigir esforço algum, daí que deva caminhar estreitamente no âmbito das associações habituais.

O espectador não deve trabalhar com a própria cabeça; o produto prescreve toda e qualquer reação…” (ADORNO, T. Indústria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002, p.31)

Quando entramos em certas euforias de consumo, seja de produtos, seja de entretenimento (esportes, grandes lançamentos de filmes, etc., etc.), é hora de levantar a antena e perceber como nos comportamos e somos dirigidos por essas ondas midiáticas. Ao mesmo tempo, as formas mesmas de reação e controle que poderíamos usar para tentar um mínimo que fosse de autodirecionamento de nossas vidas, são estrategicamente afastadas de nosso alcance, cada vez mais.

Olhe ao redor e veja se isso não faz sentido para você…