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Sobre as reações no Oriente Médio: religião, mídia e preconceito.

Exponho brevemente, aqui, algumas reflexões que tenho feito a fim de tentar entender um pouco melhor a situação presente no Oriente Médio, com relação à onda de manifestações coletivas, de ódio, violência, mortes, em alegado repúdio ao referido vídeo, considerado ofensivo ao Islã.

Entendo que está presente, sim, a questão religiosa (no sentido do dogma da irrepresentabilidade de Deus e do profeta, que estabelecem o caráter dito blasfemo do vídeo). Mas, parece-me que não se deve reduzir a interpretação do problema exclusivamente ao âmbito religioso. Parece difícil justificar tanta violência e até mortes com base unicamente na reação motivada no sentimento religioso da população.

Pode-se observar que o movimento tem, também, conotação política. Os grupos que estimularam a população ao movimento violento de reação utilizam e divulgam publicamente o motivo aparente do sentimento religioso para mover forças psicossociais na população e também para ganhar legitimidade junto à sua população em relação aos seus movimentos contestatórios e à violência estimulada por eles.

Ao mesmo tempo, não se pode perder de vista que há, conjuntamente, um problema de reação à presença econômico-política das potências ocidentais no Oriente Médio, especialmente dos Estados Unidos, que, queira-se ou não, deixa sempre a marca da presença de um poder economicamente exploratório. Se se justifica ou não essa acusação, isto é para se investigar, mas que os grupos que querem ascender ao poder nesses países se utilizam dessa retórica, isso vai ficando cada vez mais evidente.

Por outro lado, também há a ótica de como essa mensagem chega para nós, consumidores ocidentais de informação. A cobertura jornalística ocidental, ao menos no nível das manchetes, insistentemente dá como única e exclusiva explicação para o tema a questão religiosa, enfocando o fundamentalismo religioso islâmico, a intolerância religiosa, etc. Agindo dessa forma, essa cobertura jornalística apoia e reforça uma imagem já (pré)concebida, extremamente utilizada na retórica da guerra ao terror, a qual se aplica indiscriminadamente a toda a população e a todos os países que professam o islamismo no mundo.

Há indicações de que esse movimento radical é de responsabilidade de um grupo pequeno que consegue mobilizar a mídia para criar a impressão de ser algo que envolve a grande parte da população de confissão islâmica.

O que se pode deduzir daí é que, conscientemente ou não, o enfoque midiático exclusivo no argumento religioso é favorável aos argumentos de auto-defesa das potências mundiais presentes no Oriente Médio, pois lhes permite afirmar que o problema é originado na religião islâmica e em sua “intolerância” e não de sua presença economicamente predatória nessas regiões e nesses países, associadas a governos com pouco interesse em mudar a situação econômica de suas populações. Essa retórica reforça a idéia preconcebida de que os combustíveis da insatisfação e da mobilização popular são a religião e a intolerância. É evidente que essa insatisfação tem sido utilizada por estes grupos radicais islâmicos que usam a população como escudo e como massa de manobra para seus próprios projetos políticos de tomada do poder. Mas, deve-se observar que quanto mais a mídia internacional mantiver a cobertura exclusivamente sob o argumento da insatisfação religiosa, mais ela ajuda a mascarar o problema, que é sócio-econômico, e mais favorece o aprofundamento do fosso entre as culturas baseado no desconhecimento mútuo. Como conseqüência, essa mídia trabalha a favor de ocultar o papel das estruturas econômicas que atuam de forma exploratória nessa região e, paradoxalmente, favorece os grupos locais radicais e violentos na utilização midiática do argumento religioso para as mobilizações. A religião continuará sendo o culpado mais fácil de apontar em tudo isso. E essa (falsa) “culpa” é aplicada indiscriminadamente sobre toda uma população de mais de um bilhão de pessoas!

De nossa parte, é preciso que sejamos observadores críticos desse viés da cobertura da mídia internacional (que tem grande influência dos grupos de comunicação norte-americanos) ao menos para desconfiarmos do argumento exclusivo na religião.

E ainda eu gostaria de acrescentar um terceiro tópico, mais a título de reflexão em andamento do que propriamente de oferecer um argumento. Ao que parece, estes movimentos radicais que observamos não reconhecem o conceito nem o papel do “indivíduo”. Em outras palavras, o “indivíduo” tem pouca importância no aparato conceitual desses grupos (culturais, religiosos ou apenas políticos). Tampouco parece haver a preocupação com o reconhecimento das alteridades (a noção de que há um “outro” cultural, religioso, etc.,) que teria o mesmo estatuto ontológico que o seu próprio, o que implica o direito à existência em sua própria condição de diferente. Isso resulta em que se algum indivíduo ocidental produz uma ato considerado uma ofensa religiosa, tal fato não é visto como problema que aquele indivíduo particular causou mas, sim, que todos os ocidentais são responsáveis por esse ato. No caso em questão, que todos os norte-americanos são culpados pela ação de um ou alguns poucos cidadãos de seu país e, junto com eles, os demais não-islâmicos. Todo o diferente seria, assim, ruim por definição. (Veja-se os textos de Zygmunt Bauman sobre o problema do “diferente”, da “alteridade” na modernidade).

Este não é um problema novo. A noção de que um clã, tribo ou povo, na antigüidade, formava uma totalidade da qual o indivíduo era apenas um componente e que assumia coletivamente as virtudes, vícios, culpas, de seu povo, é bem conhecida. Os próprios relatos bíblicos ilustram essa situação com uma contundência notável.

A noção de subjetividade, e principalmente de um indivíduo como sujeito moral de seus atos, é uma construção ocidental, sim, que emergiu em especial com a modernidade. E é justamente essa noção que nos permite sustentar que a produção do tal vídeo é de responsabilidade daquelas pessoas que, por um ato voluntário, livre, decidiram produzir e produziram a peça em questão. Portanto, isso deve ser imputado à sua responsabilidade individual, e não a toda a coletividade, a realização de tal vídeo; eles, como autores, devem assumir as suas conseqüências morais e, se for o caso, civis e criminais. Essa noção de sujeito moral está na base da nossa noção de democracia, de sociedade, de leis, de estado laico, etc.

A questão que fica para se investigar é a de se a modernidade, ocidental de origem, nesse sentido, com seus conceitos de individualidade, de sujeito moral, de reconhecimento da alteridade, de sociedade civil, de democracia, direitos individuais e liberdade de expressão, talvez não tenha sido construída nem vivenciada ainda por esses grupos radicai, o que os levaria à rejeição da modernidade como apenas um “produto” ou uma “imposição” cultural do Ocidente.

Vários autores discutem a questão de se a modernidade era ou ainda é uma forma exclusivamente ocidental de civilização e se se poderia dizer que culturas não-ocidentais assumiriam ou se inseririam nessa chamada “modernidade”.

Talvez o momento das revoltas populares (que não parecem, de forma alguma, corresponder à maioria da população islâmica, muito pelo contrário) traga de novo essa questão da adoção dos parâmetros de modernidade por esses grupos do Oriente Médio e o quanto isso será necessário (e viável) para que a integração internacional possa se dar de fato.

E também serve para observarmos que nós, ocidentais, apesar de todo o caminho em direção à construção de uma cultura da racionalidade democrática e pluralista, também temos ainda grande dificuldade para compreender e para lidar com este “outro”, com o “diferente”, e desta forma compramos as idéias pré-fabricadas de que este é outro é sempre “radical e violento”. Para refletir com muita atenção!

Liberdade e abismo

Desconfio que as pessoas temem a liberdade e isso porque ela significa estar diante do nada, diante do abismo, o tempo todo. A liberdade e o abismo são irmãos. Talvez seja por isso que ela se mostra tão rara. Talvez seja por isso que nossa natureza não seja afeita à liberdade.
É mais fácil fechar os olhos e estender a mão deixando que algo ou alguém a tome e se encarregue de nos levar, assumindo todo o risco.

A última liberdade

Novamente, um texto de Viktor Frankl, o criador da Logoterapia, me toca em um trecho extraído de sua obra “Man’s Search for Meaning” . Nesta obra, Frankl relata sua experiência nos campos de concentração nazista e expõe as experiências que fundamentaram o desenvolvimento da sua técnica psicoterapêutica. Permitam-me, uma vez mais, uma citação um tanto longa:

“We can answer these questions from experience as well as on principle. The experiences of camp life show that man does have a choice of action. There were enough examples, often of a heroic nature, which proved that apathy could be overcome, irritability suppressed. Man can preserve a vestige of spiritual freedom, of independence of mind, even in such terrible conditions of psychic and physical stress.

We who lived in concentration camps can remember the men who walked through the huts comforting others, giving away their last piece of bread. They may have been few in number, but they offer sufficient proof that everything can be taken from a man but one thing: the last of the human freedoms – to choose one’s attitude in any given set of circumstances, to choose one’s own way.

And there were always choices to make. Every day, every hour, offered the opportunity to make a decision, a decision which determined whether you would or would not submit to those powers which threatened to rob you of your very self, your inner freedom; which determined whether or not you would become the plaything of circumstance, renouncing freedom and dignity to become molded into the form of the typical inmate.” **

Frankl, nos campos de concentração, se vê frente a um tipo de situação que muitos descrevem como a exata impossibilidade de se poder ter liberdade ou a capacidade de fazer escolhas. Como um homem totalmente privado de sua liberdade de movimento, privado de sua dignidade, separado de tudo e de todos com quem construíra sua história pessoa, pode ter alguma possibilidade de fazer escolhas? Uma vida que pode ser extinguida por um simples ato de vontade ou, pior, por um ato da mais absoluta indiferença executado por seus algozes. Uma vida podia ser extirpada sem nenhuma razão particular, sem um sentido para aquela ação, sem uma explicação. Apesar disso, seu dia-a-dia era absolutamente controlado e definido pelas tarefas e pelos comandos dos dirigentes dos campos, fossem os soldados do exército nazista alemão, fossem os ‘capos’, prisioneiros a quem eram atribuídas funções de supervisão e que comandavam os alojamentos com mão de ferro mais pesada que as dos próprios soldados alemães.

Estes prisioneiros não tinham direito a nada. Não podiam falar, comer, descansar, trabalhar, olhar para qualquer lugar, ajudar um outro, ler, reclamar, ficar doentes, nada… Em tudo dependiam da permissão violentamente indolente dos soldados ou dos ‘capos’. Como se pode pensar que homens naquela condição tivessem alguma escolha para o que quer que fosse?

Frankl encontra na sua observação dos prisioneiros, e na observação de si mesmo, a resposta a esta questão. Segundo sua própria experiência, ele via que em seu interior, assim como nos demais, havia uma região do ser que não era prisioneira de nada nem de ninguém. Ainda que muitos, talvez mesmo a grande maioria dos prisioneiros nem se dessem conta disso, todos tinham em seu íntimo a liberdade última, a liberdade que Frankl chama de “spiritual freedom”, uma liberdade de espírito, que mesmo nas mais terríveis condições podia ser preservada. Sempre o indivíduo podia escolher a atitude que iria adotar diante do fato inexorável. Se o fato em si era imutável, sua reação interna, sua atitude diante dele sempre poderia ser escolhida.

Parece que as condições de extrema penúria e falta de dignidade em que viviam os prisioneiros tinham como resultado uma derrocada da auto-imagem construída ou recebida por cada um. Esta destruição da imagem social do prisioneiro era realizada à sua revelia. Ele não pedia por isso. Não obstante, o esfacelamento desta auto-imagem era levado a cabo. Porém, este processo primariamente destrutivo, em alguns casos permitia que o próprio prisioneiro, como indivíduo, tivesse acesso à sua interioridade, ao seu “si-mesmo” sem máscaras nem autoimagens preconcebidas. Ele podia ver a si mesmo na sua interioridade nua. Alguns nem se deram conta de que possuíam essa interioridade cheia de vida e significado. Mas alguns perceberam. E estes que a perceberam a preservaram; e tinham nessa interioridade o núcleo e sustentação de sua vida, de sua individualidade, de sua liberdade. Sua mente podia ser independente, apesar das condições adversas do ambiente. Frankl não diz que isso era fácil, nem automático. Mas que sempre esta possibilidade estava ao seu alcance e de cada um daqueles homens e mulheres.

Frankl afirma que cada homem, todos os dias, podia tomar novas decisões internas, a cada nova circunstância. Esta decisão, esta escolha, se referia a abdicar de vez de sua liberdade interna, tomando a forma disforme dos internos destruídos interiormente, ou de manter a liberdade interna e manter seu caráter, sua liberdade espiritual, de manter íntegro seu “self”.

Os “pequenos” atos heróicos que eram praticados diariamente, quando alguém, por exemplo, doava a outro sua única porção de alimento diário, um pedaço de pão, para confortar alguém, demonstravam que essa liberdade interna, esta mente não entregue aos algozes, mantinha-se livre e independente, apesar do estresse físico e emocional de todos os dias.

É impressionante esta constatação de Frankl. Não é para menos que ele teve tanto material para desenvolver sua técnica terapêutica e sua filosofia de vida e trabalho. Um descobrimento, uma constatação deste porte sobre a natureza humana é para se tornar um marco na história do conhecimento do homem sobre si mesmo. Uma lição para nós, seres da época da comunicação de massa, do marketing agressivo, do consumismo, da cultura de superficialidade, da moda, das necessidades de integração aos grupos sociais. Uma época em que parece que a maioria dos indivíduos humanos abdicou de sua liberdade interna, de sua independência mental, por tão pouco. Menos até mesmo que o prato de lentilha da antiga história bíblica.

Leia-se Vitor Frankl nos nossos dias. Vigorosamente. Quem sabe muitos comecem a despertar deste sono da entrega do seu tesouro de liberdade interna aos mecanismos culturais e mercadológicos. Despertemos!

** (FRANKL, Viktor  E.,  Man’s Search for Meaning, New York: Washington Square Press, 1985, pp 86-87)

Eternos prisioneiros?

Parece que é algo atávico. A raça humana – nós –  tem muita dificuldade em ser livre. Eu não cesso de me surpreender e me abismar com isso. Muitas têm sido as vozes que clamam, ensinam, exortam, que deram verdadeiros chacoalhões em indivíduos, grupos e até mesmo nações, conclamando a que se reconheçam como seres livres. Refiro-me, primeiramente, à liberdade interior do indivíduo, do ser singular. A liberdade exterior, que se manifesta no coletivo é de outra natureza. E as liberdades da coletividade como tal, são ainda de uma terceira natureza. A mim me parece que todas derivam da primeira, a interior.

É surpreendente, apesar de não ser nenhuma novidade. Ser livre dá trabalho. Esse trabalho, poucos estão dispostos a assumir. As prisões humanas são de diversas naturezas. Há os instintos. Há as leis naturais. Há os costumes. Há os hábitos. Há os valores. Há os interesses. Há as prisões das crenças. Claro, exteriormente há as leis humanas, socialmente estabelecidas, juridicamente definidas e policialmente mantidas. Mas a estas me referi como sendo, de alguma maneira, secundárias à liberdade interior.

Num certo sentido, ser livre é estar desperto. Tomar consciência destes muitos tipos de prisões é acordar para eles, para cada um deles, e ir se livrando de um por um. Cada um deles exige um tipo de ferramental, um tipo de recurso interno, para enfrentá-lo e o desfazer. Cada tipo de prisão tem um tipo “certo” de chave que abre a porta das grades permitindo sua saída, ou um tipo de instrumento que derrube estas grades.

O filósofo e místico brasileiro, Huberto Rohden, dizia que os homens se acostumam com suas prisões e gostam delas. Elas têm as grades feitas de ouro. Não obstante, são grades, são prisões. Mas os homens apreciam suas prisões douradas. Elas já estão prontas. Basta seguir vivendo dentro delas.

Parece que o apelo a que cada um alcance, conquiste a sua liberdade, esbarra neste esforço a que cada um deve se submeter para alcançar este estado de liberdade interior.

Quão freqüente é a situação de pessoas que começam a tomar consciência deste caminho para a liberdade, para o despertamento, e que, não muito depois, vão como que cansando, caindo no mesmo sono anterior, voltando às douradas grades.

Vivemos numa época em que a exterioridade da natureza humana prevalece. O sensível, e o sensual, são o ponto alto.  Renato Russo (da banda Legião Urbana) disse em uma de suas letras que “disciplina é liberdade”. Este é um antigo preceito que indica que a atual consciência de que ser livre é ter a possibilidade de expressar os instintos e buscar o prazer sem barreiras nem “preconceitos”. Esta é, talvez,  a mais declarada forma de prisão. Um se humano que ostenta sua “razão” como seu cetro de autonomia e seu cérebro como a coroa da evolução, se diz “livre” quando se deixa escravizar exatamente pela forças inconscientes de sua natureza animal e horizontal. A liberdade interior começa pela consciência das força internas que regem o indivíduo e se expressa, internamente, exatamente pelo ato de negação. O “sim” à natureza interna é apenas a fluência natural das forças mecânicas e instintivas que dominam o indivíduo. Estas forças regem seus sentimentos e sua razão. A presença de elementos irracionais na razão foi muito discutida pelo filósofo alemão Schelling, no século XIX, o qual deu muitos subsídios para o desenvolvimento da psicanálise de Freud, dentre outros.

Por isso, um princípio aparentemente oposto à liberdade, que é o ato consciente da negação interna, a disciplina, na verdade é revelador de uma muito maior autoconsciência e autodomínio, que são os princípios da liberdade interna, individual, são sua base e seu fundamento.

É nesta chave que leio, por exemplo, o tão simbólico texto das “tentações” pelas quais Jesus passa no início de sua vida pública. O exercício ali relatado é o da maior liberdade interna pela afirmação da vontade consciente sobre os impulsos internos e sobre a ação dos estímulos externos. Este texto, em particular, vai nos requerer uma reflexão mais extensa em outra oportunidade.

A autoconsciência, a compreensão dos instintos regentes e dos condicionamentos emocionais e mentais, é o primeiro passo para a conquista de uma liberdade. O exercício da autonegação, da autodisciplina, é caminho para a aquisição desta condição de liberdade.

Vemos que, na verdade, não nascemos livres no sentido mais profundo desse conceito. Nascemos com a possibilidade de adquirir a liberdade, mas isso virá com um trabalho consciente sobre si mesmo. A liberdade, enfim, terá um preço. Para quem quiser…

Potenciais

Não consigo entender estes raciocínios filosóficos, científicos, ou de botequim, que têm como foco principal a desvalorização do ser humano. Não é mais necessário ficar advogando a posição de “centro do Universo” para a Humanidade. Mas, por outro lado, reputar a vida humana, o indivíduo humano, como porção desprezível do universo, é também algo para não se aceitar.

Continuamos sendo a única manifestação de vida (conhecida) que sofre por saber de sua própria condição de maldade. Somos a única forma de vida que espera a própria morte, que pensa sobre ela, que lida com ela através das muitas fórmulas e preceitos religiosos, metafísicos, sociais e culturais. Somos a única forma viva que integra os mortos em sua vida coletiva.

Somos a única forma consciente de vida que se pergunta sobre si mesmo, que sabe de si mesmo, que olha para si e na qual cada representante vê em si mesmo um “indivíduo”, que se faz auto-consciente e consciente de que há um “outro” do qual é distinto, seja um semelhante, seja o mundo, seja Deus.

Entender e ressaltar o valor da vida e consciência humanas nada tem que ver com a argumentação e crítica daqueles que temem esta valorização como disfarce para a justificativa da maldade que é intrínseca à natureza humana. Somos uma forma de vida que tem a possibilidade de se transformar. O potencial que temos para o bem e para o mal é o maior tesouro da natureza humana. Pode o indivíduo saber-se mau, saber-se agente do mal, mas ao mesmo tempo, pode querer e tomar a decisão de mudar, pode sincera e conscientemente mudar este rumo, pode lograr deixar para trás um estado ou atitude de maldade e transformar-se em um agente gerador de pensamentos, sentimentos e atos construtivos, altruístas, fraternos. Ou pode seguir lutando com esta inconstância e oscilação, pois apesar de saber-se potencialmente tanto bom como mau, pode não ter o controle de suas próprias emoções e reações, mas pode decidir-se a trabalhar sobre elas para construir um estado de maior constância no bem.

O ser humano não está determinado mecanica e automaticamente, nem para o bem nem para o mal. Sua estrutura lhe permite usar da vontade e da consciência de si para promover mudanças de rumo, de objetivo, de qualidade.

Encontramos na chamada “natureza” uma harmonia entre seus organismos que é espantosa. O plano inanimado como suporte para a vida; os planos de vida em seus diferentes graus de consciência (o que inclui os que não a possuem) se coordenam num grande ciclo de integração que envolve a desapaixonada cadeia alimentar, onde não se nota o ódio numa espécie que caça a outra para sobreviver, mas uma força instintiva, não consciente, que impõe a integração e a harmonia, ainda que através da ação de predadores e de presas. É uma harmonia “mecanicamente disposta”. Sua coesão e coerência se faz por forças inconscientes, instintivas, “naturais”. Podemos notar que não há uma decisão consciente neste planos em ser justo quando se caça ou em ser mau quando se come uma presa, ou que é uma maldade ser perseguido por um predador.

Nós, humanos, somos o ponto fora da curva. Caçamos por fome, mas também por prazer ou por ódio. Coletamos para sobreviver mas também para vender e enriquecer. Desmatamos para plantar ou apenas para o deleite egoístico. Sim, fazemos, ou melhor, podemos fazer tudo isso. Mas, isso mesmo, estes mesmos fatos, nos fazem perceber que não somos determinados para o bem nem para o mal, mas podemos nos encaminhar para um ou para outro por decisão própria. E mesmo que tenhamos decidido e ido em alguma destas direções, ela não está determinada inexoravelmente até o final de nossa existência individual. Enquanto vivos, podemos mudá-la. E mudá-la de novo, e de novo, e de novo…

Não é isto a mais espantosa capacidade? Não é isto um de nossos mais destacados diferenciais? Não é esta capacidade o nosso tesouro? Nossa responsabilidade e privilégio? E talvez nossa bênção e nossa maldição? Mas, o fato de ser abençoado ou amaldiçoado nos dá a visão das nossas potencialidades. E estas potencialidade, como tesouro diferencial que temos, nos dá a dimensão da nossa importância. Somos o centro do universo? Já temos as respostas consagradas. Mas, ao mesmo tempo, não somos o desprezível monturo de pó descartado de estrelas. Dizem alguns poetas e místicos que há seres da pleni-luz e da trevas totais, mas que somente o homem oscila entre ambas, entre a luz e as trevas. Huberto Rohden em um de seus poemas místicos diz que o homem mais sublime que já viveu foi representado erguido na cruz, ainda abaixo do céu mas já acima da terra, que a cruz seria este símbolo do encontro nele, Homem no mais pleno sentido da expressão, da verticalidade Crística com a horizontalidade do tempo-espaço.

Vida. Consciência. Liberdade. Potencialidade para o bem e para o mal. Assim somos nós. E diante de nós, mm permanente abismo de possibilidades, sempre à nossa frente, a cada passo neste caminho da existência. Sempre diante do êxtase e da vertigem. Há ainda quem prefira ser pedra, planta ou animal diante disso?

Sobre “A Liberdade e o Mal”

Man readily renounces freedom in the name of the easing of life” (N. Berdyaev).

É chocante como este pensador russo, cristão ortodoxo, escancara a situação humana diante do drama da sua liberdade. Será possível que aquilo que tanto se exalta e aclama em nosso tempo seja exatamente aquilo de que mais queremos fugir em nossa humana condição? Será a liberdade algo formalmente desejado mas realmente temido e evitado? Será o homem realmente livre?

Obviamente não pretendo responder a uma interrogação tão grande como essa, especialmente no espaço de um “blog” pessoal, mas me pareceu irresistível destacar esta frase do russo Berdyaev, em especial depois da marcante experiência que tivemos com o Seminário “A Liberdade e o Mal”, que realizamos em janeiro, na sede da Thélos Associação Cultural, em São Paulo.

A discussão que pude apresentar neste Seminário envolveu a abordagem de algumas posturas teológicas e filosóficas que ao menos expuseram a importância e a complexidade do tema. Quero apresentar o roteiro que seguimos no Seminário de forma a compartilhar um pouco dos temas que tratamos nestes dias.

Partimos da leitura de um texto fundamental para o Ocidente que é o relato do Gênesis, nos capítulos 2 a 4, em que os protagonistas são Deus (obviamente!), o Homem/Humanidade, a serpente e as ávores do conhecimento do bem e do mal e da vida. Nossa leitura se distanciou das interpretações correntes pois consideramos o Gênesis em seu estilo alegórico (ou “simbólico”, se se preferir o enfoque nesta chave de leitura), no qual vemos o Adam (a palavra “Adam” no hebraico pode ser relacionada com a outra palavra “adamah”, que significa “procedido da terra”) como Homem/Humanidade e não como o relato da vida de um indivíduo. Neste trecho, a Humanidade é apresentada em seu movimento crucial de tomada de consciência de si mesmo, através do qual passa a perceber que a liberdade lhe é inerente mas que, ao mesmo tempo, ela só se lhe torna efetiva quando confrontada e posta em ação mediante as duas dimensões e condições que a tornam real: o bem e o mal. O Homem/Humanidade só se torna livre diante da ação livre que o faz possuir o conhecimento ao mesmo tempo do bem e do mal. E este conhecimento é o sinônimo do sofrimento humano em sua condição única. O Homem/Humanidade se vê nu, o que pode significar que se percebe insuficiente mesmo diante da natureza e que, acima disso, já se percebe “moralmente” desqualificado e mau diante de Deus. A imagem do homem se cobrindo diante de Deus e não diante da natureza revela que sua consciência de bem e mal só se dá diante do Ser que, por estar para além da natureza, é o único que pode lhe fazer ver sua própria condição de insuficiência, de mortalidade, de maldade. Essa idéia bíblica vai ser fundamental ao Ocidente no desenvolvimento da sua visão de liberdade.

Passamos rapidamente pelo conceito agostiniano (Agostinho, séc. IV e V) de liberdade como sendo uma liberdade apenas para o mal, uma vez que, segundo o pensador africano, o bem só seria concebível no homem pela ação da graça divina; saltamos e citamos também Espinosa (séc XVII), que em seu pensamento “geométrico” parte do substância infinita como única causa para tudo (porque só a substância infinita é causa de si mesma e subsiste por si), devido à qual não se pode conceber liberdade na criatura (que não é causa de si mesma e nem subsiste por si própria mas na substância infinita), pois só haveria liberdade no movimento da substância infinita em seus atributos e seus modos, dos quais, o atributo extensão e o atributo pensamento seriam os componentes do homem.

Postos estes dois marcos filosóficos, exemplificadores do esforço teológico e filosófico em entender a liberdade humana, pudemos ver a apreciação do tema do mal a partir da ótica teológica segundo o estudo desenvolvido por um autor contemporâneo, o teólogo inglês John W. Wenham em seu livro “O Enigma do Mal”, no qual o autor expõe e enfrenta o que considera as dificuldades extremas dos textos bíblicos em se lidar com este tema. Segundo o autor, só se pode compreender o Deus cristão em sua profundidade, bem como a revelação em sua relevância, se não se evita a consideração do “mal”, em suas muitas e variadas manifestações (de sofrimentos, de traições, de guerras e extermínios, entre outras). Para esta abordagem, o autor faz um extensivo levantamento de textos que ressaltam as ordens de Deus para a guerra e o extermínio de povos, para os salmos imprecatórios, para as maldições lançadas sobre o povo, e para mostrar que isso não é uma característica do Antigo Testamento apenas, o autor expõe as ameaças de sofrimento eterno, de punições, de terrores, também no Novo Testamento, começando pelas palavras dos apóstolos, e citando também palavras do Cristo. Sem o mal, segundo Wenham, Deus e a Bíblia se tornariam “irrelevantes” em seus ensinamentos e prescrições para o Homem. Seguindo dentro de seus parâmetros teológicos e confessionais, o autor vai reafirmar que todo este contexto se explica pela desobediência do homem, o qual, vivendo num mundo perfeito diante de Deus opta pela desobediência e pelo mal, o que causa o mal no mundo e traz todo o sofrimento em sua vida. Neste ponto, a questão que trouxemos (já feita por outros autores) a esta interpretação do relato do Gênesis foi de que se o homem não conhecia o bem e o mal, pois só tomou conhecimento deles ao comer do fruto da árvore “do conhecimento do bem e do mal”, como pôde ser punido por “escolher” algo que não tinha conhecimento de que era mau, pois nem sabia haver algo como o mal?

Pudemos ver que o tratamento conjunto deste temas pelas vias teológica e filosófica como interligados e interdependentes foi levado a cabo em especial pelos idealistas alemães, sob a forte influência do grande místico alemão Jacob Boehme, dentre os quais ganha destaque a obra de Schelling (séc. XVIII e XIX), que sofre uma grande guinada a partir do seu livro “Investigações sobre a essencia da liberdade humana”, a partir da qual o filósofo defende a tese de que só pode haver a liberdade humana na consciência de que a própria estrutura antrop
ológica é este misto e esta dinâmica entre as duas forças que lhe são constituintes: o bem e o mal. Schelling faz uma espécie de cosmogonia na qual apresenta sua idéia de que a natureza é fruto do movimento de uma força inexorável que se manifesta e que revela Deus em sua essência de Vontade Pura. O movimento inexorável desta vontade pura é que gera a natureza. Na natureza, este movimento de vontade vai se voltar para dentro de si mesmo, e nesse votar-se a si, neste querer existir em si pensando que existe “por sí” é que se concebe o que é o mal. Algo como um auto-centrismo, uma espécie de ilusão de autonomia, se se pudesse aplicar esta imagem à natureza, como sendo a própria definição de mal. Mediante esta dinâmica de bem e mal se concebe o homem, e conceber o homem significa conceber um ser radicalmente livre porque surge como o misto destas duas grandes manifestações de luz e trevas, de bem e mal, e assim, sua liberdade vai ser exatamente esta “possibilidade para o bem e para o mal”. Sem o mal, não se pode absolutamente conceber algo como a liberdade.

Esta discussão alemã foi vista também a partir do russo Berdyaev, em especial mediante seu texto “The Metaphysical Problem of Freedom”, um artigo brilhante no qual o autor apresenta um panorama da temática da liberdade, destacando o embate entre o pensamento cristão e a filosofia. O autor afirma que a liberdade só pode ser concebida como dinâmica e não a partir de conceitos estáticos. Sua visão é de que há duas formas de se conceber a liberdade, uma considera a liberdade primordial, básica, irracional, indeterminada. A outra é a liberdade a partir da razão, concedida por Deus. Mas o autor adverte que se se considera qualquer uma delas isoladamente como o conceito final de liberdade, o resultado vai ser a própria dissolução desta. O primeiro tipo leva à dissolução da liberdade pelo anarquismo e o segundo à dissolução desta pelo autoritarismo via imposição de um tipo racional de virtude. O autor argumenta também que nem os conceitos de Deus, de natureza e de alma são suficientes para se ‘fundamentar’ a liberdade e mostra as razões para isso. Assim, se nenhum destes conceitos pode ser fundamento para a liberdade, só lhe resta e só se pode conceber como único fundamento para a liberdade o “nada” incriado, o âmbito das infinitas possiblidades, o mal. Da mesma forma, a liberdade só poderia ser concebida como a dinâmica entre a liberdade irracional e a liberdade da razão. Esta dinâmica só seria possível porque o movimento da liberdade (isto é, o rompimento deste auto-encerramento na dupla dinâmica) ocorre pela inserção vertical da verdade do espírito na dimensão horizontal da natureza determinista: “Conhecereis a verdade e a Verdade vos libertará”.

A discussão de Berdyaev é imensamente ampliada e enriquecida através do livro “Crítica e Profecia” (Editora 34, 2003), do filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, no qual o autor, para expor sua tese sobre a necessidade de considerar o aspecto religioso (cristão ortodoxo) da obra de Dostoyévski para se poder apreender a grandeza da obra do autor russo, desenvolve uma extensa discussão sobre as origens do pensamento ortodoxo russo que remontam aos primórdios do movimento monástico e asceta dos padres do deserto. A partir desta discussão, vimos que o movimento de ida ao deserto destes místicos era a imagem do subjugação da physis (tudo quanto é natureza, natural) na imagem da subjugação do próprio corpo como o aspecto “natural” do homem, e do enfrentamento do deserto como o próprio nada, no qual o mal se mostraria sem máscaras nem disfarces. Assim, vimos que, para o pensamento cristão ortodoxo russo, mantendo esta compreensão da tradição dos padres do deserto, toda identificação do homem com seu aspecto “natural”, como quer a ciência contemporânea (na verdade, todo o pensamento “naturalista” ocidental desde suas origens gregas) significa exatamente a identificação do homem com o mal, com a desagregação, com a decomposição, com a desgraça (no sentido de isolamento da graça divina), ou seja, como o próprio mal. Todo conhecimento que procura definir o homem a partir da natureza e de suas leis é um grande engano pois o homem não se resume a seus aspectos naturais, assim como as definições de Deus a partir da razão são inadequadas pois Deus não é um ente da natureza e nem é do plano da razão. Deus estaria para além de ambos. Toda definição natural e racional de Deus é uma definição produzida pelo próprio mal. Neste contexto podemos melhor compreender as posições de Berdyaev em que procura mostrar que a inserção vertical do plano do espírito é necessária para romper o auto-encerramento do homem neste plano horizontal da natureza, que é o do nada e o do mal. O homem é livre, radicalmente livre, mas isso significa exatamente que ele está constantemente diante do abismo do nada.

Já próximos ao final, retomamos um texto do Êxodo no qual Deus “propõe” ao homem “a vida e bem ou a morte e o mal” e lhe “aconselha” que escolha a “vida”. Vimos como este texto fica interessante uma vez que uma “proposta” e um “aconselhamento” se dão na mesma Torá que, normalmente, é vista apenas como um livro de “leis”, de “obrigações”, de “faça” e “não faça”.

E, finalmente, encerramos com a avaliação de alguns textos do Novo Testamento que mostram o enfrentamento de Jesus com o mal, com o “diabo”, com o deserto, com o nada. A partir dos relatos da “tentação”, da agonia no Getsêmani e da crucificação, pudemos ver que o enfrentamento com o mal é o atestador da ação do homem livre, que, para ser livre, precisa enfrentar o mal interno, o “diabo” (opositor, desagregador) em si mesmo, sua possível desagregação no seu nada, sua possível extinção. O episódio da tentação mostra este enfrentamento a tudo o que é do plano horizontal, natural, que compõe a própria natureza humana. Os três estágios da experiência de Jesus no deserto apresentam fases, níveis, aspectos desta tendência do humano em se horizontalizar; Satanás, o adversário, é a imagem deste nada que age para que o homem com ele se identifique, para, ao naturalizá-lo e temporalizá-lo, finalmente nadificá-lo. A agonia no Getsêmani revela o quanto a natureza humana não deseja o enfrentamento com a morte, teme o nada, deseja aquilo que é diferente da verticalidade, mas pela “decisão”, pela “consciência” (termos complicados, sabemos disso), mantém-se em sua opção pela vida vertical, com seu preço de sofrimento e enfrentamento, que se alinha com a “vontade” do “Pai”. O abandono, a solidão na cruz (“Deus meu, por que me desamparaste?”) é o momento derradeiro diante deste nada, diante da extinção, diante da última ameaça de identificação com tempo, com o temporário. Mas o abandono em si mesmo é a pré-condição para a entrega ao vertical, quando o que é natural-horizontal já não pode fazer mais nada, já se esgotou em seus recursos e finalmente entrega a continuidade do processo ao transcendente, ultrapassando finalmente o plano do imanente. Neste enfrentamento, ao fazer suas opções, Jesus tipifica exemplarmente a experiência humana pois sabe que terá que não apenas tomar decisões, fazer escolhas sempre diante do abismo do nada, mas mantê-las, sustentá-las, até o momento derradeiro, sem descanso, sem misericórdia por parte da natureza, sem garantias em si mesmo. Diante da con
sciência de sua absoluta insuficiência antropológica, sabe que a vitória contra o nada só se dará mediante a contínua exposição ao transcendente, dentro da perspectiva de sua “taborização” (referência à “transfiguração” de Jesus no monte Tabor) contínua, de forma a encerrar a batalha na morte com o resultado acumulado desta contínua transformação (também pensada como “metanóia” e “teósis”). A “taborização” continuada, crescente, mostra o processo de “cristificação” de Jesus, através do qual ele se qualificou para este momento derradeiro, para sustentar suas decisões. E só a morte pôs fim à batalha, e só pela permanente exposição à luz vertical da divina transcendência, absolutamente além e incontrolável pela razão e pela natureza, pode o Homem ter sua esperança de vida: “está consumado”; “em tuas mãos entrego meu espírito”.

Este resumo da temática não consegue expor as nuances que pudemos perceber nestes autores e nestas questões, nem traduzir todas as leituras simbólicas nem os “insights” que experimentamos juntos durante o seminário. Mas, ao menos, dá uma noção de quão fundamental e complexo é este tema e quão caro nos é como humanos, vivos, sofrentes.

Fizemos este este percurso no Seminário com a esperança de que os presentes pudessem aquirir mais elementos para considerar com mais profundidade a questão que abriu o seminário e que o permeou o tempo todo: “Somos livres?”

José Luiz Bueno