Arquivo da categoria: mística

O que realmente vale a pena (sobre a experiência em Juiz de Fora)

Neste período passado no Seminário de Mística Comparada, coordenado pelo prof. Faustino Teixeira, da UFJF, em Juiz de Fora-MG, tive mais uma vez a oportunidade de conviver com, e ver a convivência de, pessoas de confissões religiosas diferentes e mesmo com posicionamentos diferentes em relação à religião e à mística.

seminario-mistica-juiz-de-fora-2012

Nessa experiência, algo, mais uma vez, me veio à mente. Uma das grandes iniciativas, que tomou corpo em anos já passados, é a de promover o chamado “diálogo interreligioso”, que seria uma tentativa de aproximar as diferentes religiões, promovendo o intercâmbio entre elas e buscando, principalmente, como resultado, a convivência pacífica, respeitosa e, quem sabe, até mesmo frutífera entre estas diferentes práticas e diferentes percepções do que é o Ser Humano, o Mundo e Deus ou os Deuses.

Mas, em Juiz de Fora, ficou para mim, mais uma vez, muito forte a impressão de que jamais serão propriamente as religiões que dialogarão. Elas são, em si, sistemas de conceitos, de princípios, de crenças, de muitas visões abstratas, imateriais, algumas já sedimentadas e feitas imutáveis, que apontam para aquilo cuja natureza não pertence ou não está restrita a este nosso mundo ou a esta nossa condição. Sendo assim, de forma similar ao que ocorre com os sistemas filosóficos, os “sistemas” religiosos até mesmo convivem em uma mesmo espaço ou mesmo tempo histórico, mas, cada um deles é uma totalidade fechada, completa em si, auto-suficiente e, em muitos dos casos (senão todos), satisfeita com sua própria “verdade”, o que implica em reconhecer somente a sua verdade.

O que, então, saltou-me aos olhos é que, mais um vez, o diálogo parte, não das religiões, não dos conceitos e sistemas, mas das pessoas. Sim, “pessoas”. Estes seres de cuja interioridade parte o interesse pelo outro, a vontade de conhecer o outro, o sentimento de respeito e de prazer de estar junto do diferente, a necessidade de aprender com o outro, a vontade de rir junto das ignorâncias compartilhadas, de perceber, principalmente naquilo que não é dito, as angústias de que todos sofrem pelo fato mesmo de sermos todos humanos e que isto mesmo é que dá o valor da convivência.

Quando vi isso, mais uma vez percebi que, no fundo, a “verdade”, como conceito, idéia, sistema, é o que menos importa. As relações verdadeiras, diretas, autênticas, que se comprazem com o diferente, que aprendem com isso o que nos une como imperfeitos e o que nos aproxima como seres capazes de diferentes respostas e caminhos para enfrentar a condição humana.

Se há alguma esperança de paz, de convívio frutífero, de mútuo aprendizado, de compaixão pela universal angústia de estar vivo, tudo isso brotará não das religiões, dos sistemas metafísicos, nem mesmo das soluções políticas e científicas, mas, sim, de pessoas que assim o desejam, de pessoas que valorizam esse algo humano, que até o presente nos parece único (apesar de todas as iniciativas de desvalorização e rebaixamento do humano).

É das pessoas que parte toda e qualquer possibilidade de aproximação, ou de distanciamento. O que experimentei em Juiz de Fora, foi a “possibilidade”: aproximação, a convivência, o prazer de estar junto, sabendo que “respostas”, “verdades”, talvez sejam simplesmente inalcançáveis para nós humanos, mas que isso talvez nem importe (como, aliás ensinam várias tradições religiosas), pois, daquilo que nos é possível, como é a convivência frutífera, já faz valer a pena.

 

Pequena chama.

Quem nunca experimentou aquilo que os românticos chamavam de um momento sublime? Mas, refiro-me a algo que, diferentemente dos românticos, não dependa da grandeza ou da imponência daquilo que esteja diante de nós, como elementos da natureza dotados da grandeza, da imensidão, da obscuridade. Penso em algo que se torna sublime, de forma paradoxal, exatamente pela singeleza. Algo que experimentamos que, de tão singelo torna-se único. Algo que é capaz de nos levar ao enlevo. Algo que nos marca de forma tão indelével que é capaz de fugir da voragem do olvido.

Experiências únicas que parecem que só podem ocorrer naqueles momentos em que a natureza se distrai e esquece-se de nós e, assim, podemos experimentar algo do eterno no efêmero. Talvez sejam coisas assim que vão compondo esse algo que chamamos de humano, essa eclosão de ser em um mundo de coisas, uma chama de consciência em uma vastidão de natureza.

Silêncio

Sou um apaixonado pelo silêncio.

Mas, por favor, não pense, caro leitor, que a demora em escrever este novo texto foi por exercício de “silêncio escrito”. Foi apenas a seqüência de afazeres que ocupou o tempo e a atenção. Por outro lado, o silêncio, de certa forma, também se manifestou aí.

O silêncio tem propriedades únicas. Por exemplo, dizem meus amigos músicos que sem silêncio não há música. As pausas estão aí para mostrar isso. Sem o silêncio, a música deixaria de ser música para ser um contínuo de emissão sonora que, de tão permanente, deixaria de ser percebido. O som contínuo, ininterrupto, deixaria de ser discernido. O silêncio é necessário à criação.

Sem o silêncio, não haveria mística. Quem consegue imaginar um místico que falasse o tempo todo? Apesar do caráter anedótico desta imagem, ela é consistente com os fatos. Um místico, em geral, é um grande ouvinte. E se há uma coisa que a audição necessita é do silêncio da voz do ouvinte. Quem fala, dificilmente ouve. E se o místico seguisse falando, aquele ou aquilo a que ele está buscando ouvir não seria percebido quando se lhe desse à experiência. É claro que os místicos não são apenas ouvintes, mas o silenciar de seu ser é condição básica para que ele esteja disponível para que o “outro de si” possa falar. É preciso que o ouvinte crie a vacuidade interna pelo seu silêncio para que, assim, possa ser plenificado pela palavra, ou pela sinfonia, que lhe virá como dádiva.

Já na antigüidade, certos místicos ensinavam que o silêncio seria a única expressão cabível daquilo que experimentavam. O que lhes era dado simplesmente não cabia em palavras, as expressões verbais ou escritas seriam simplesmente incapazes de descrever ou de transmitir o que lhes tinha sido concedido. A noção de que experimentavam algo da infinitude apenas confirma isso, pois que palavras, como signos finitos expressados por uma mente e uma voz finita, poderiam descrever o indescritível, a infinitude, a atemporalidade? Já o apóstolo “falava” dos “ditos indizíveis” ou de “palavras inefáveis” que ele teria “ouvido”.

O silêncio do homem é o momento do seu mergulho no inefável, no misterioso, no indizível. Aquilo que não pode ser “dito”, não por incapacidade, mas por excesso de conteúdo em relação ao contenedor simbólico das palavras, é muito mais real na interioridade do ouvinte do que qualquer elemento que se lhe dê pelos sentidos.

Há muita gente que simplesmente se vê aterrorizada diante do silêncio. É o nosso condicionamento de estar vertidos para fora. O filósofo alemão Peter Sloterdijk nota muito bem que o processo de isolamento do mundo exterior que utilizamos hoje em dia não é tanto mais pela via do silêncio, mas, ao contrário, pelo uso do fone de ouvido onde preenchemos nosso mundo interno com os sons que escolhemos, e assim, ouvindo a seleção musical que preparamos, nos desligamos do “mundo exterior”.

Quem tem medo do silêncio talvez o associe com a vacuidade morta. Ou ainda, pelo silenciar cada um possa tomar contato com seu barulho interno e se assustar com o tanto de sons inúteis que produz em seu interior, sem ter o menor controle sobre isso. Há uma estação, ou muitas, internas que produzem ruídos e barulhos sem que a vontade ou a consciência do ouvinte possam fazer nada a respeito.

O silêncio é necessário para qualquer processo criativo. O silêncio é criador. O barulho, o ruído e mesmo a palavra e a música, sucedem ao silêncio. Certa vez, meditando sobre o texto bíblico do Gênesis, fiquei pensando na interessante imagem de que antes da primeira palavra que aparece neste livro que fala das origens de tudo, antes que a primeira letra surgisse, o que havia? A minha sensação foi de que estaria ali, precedendo a primeira letra da primeira palavra, um infinito silêncio criador.

Sob o véu…

Tenho argumentado sobre a diferença entre ter preconceito e ter conceito sobre as coisas. O preconceito estabelece uma visão valorativa, um pré-julgamento e uma atitude pré-estabelecida em relação à coisa julgada. Um “pré”-conceito (prejuicio, em espanhol; prejudice, em inglês) estabelece uma atitude de desvalorização, confronto e desconfiança em relação à coisa julgada; e por isso mesmo tem apenas a aparência de algo racional e lógico; os argumentos contra a coisa julgada são muito mais retóricos do que qualquer outra coisa e, em grande parte, completamente irracionais (ou, no mínimo, irrefletidos).

Ter conceito sobre algo é exatamente o oposto. Requer que se investigue, que se observe, que se questione, que se dialogue com a coisa em questão. Ter conceito não é ter posições pró e contra. Ter conceito não é partir da resposta para chegar à justificação, mas partir da dúvida, da questão, da coisa, para se chegar a algo de compreensão, ou para se chegar mesmo à conclusão de que não se tem opinião ou conclusão a respeito, ou seja, que ainda não se tem conceito a respeito. Mas, vejo que pouca gente tem coragem de admitir ignorância, principalmente se dedicou algum tempo na busca e investigação de compreensão sem obter os frutos esperados.

Os assuntos de fé são os mais difíceis neste campo, pois, em geral, exigem exatamente o oposto do que estamos propondo aqui. Se, como à vezes se define, ter fé é exatamente não ter necessidade ou não se depender da razão, o processo de investigação, de dúvida, de diálogo, parece estar excluído. Será assim mesmo?

O que é que se esconde por trás dos dogmas da fé? Aquilo que é objeto de fé é imutável? Podem as religiões baseadas em revelação evoluir? Elas caminham em direção ao futuro ou sempre de volta ao passado, ao seu evento fundacional? Uma revelação é algo pétreo e imutável? Algo que é revelado não deveria ser auto-evidente, sem margem à dúvida? Não é este o sentido de algo que estava velado e passou a ser uma “revelação”, algo que estava oculto e ficou exposto, a descoberto? Mas, se uma revelação revela apenas símbolos ou indicações ou grandes linhas gerais, não fica aí já declarada a necessidade da “evolução” da religião baseada nesta “revelação” semi-velada, que exige uma compreensão cada vez mais profunda ou clara destes símbolos? Portanto, não seria que a própria revelação estabelece a necessidade da dúvida?

Cada vez mais me parece que aquilo que se refere ao mundo da fé, da religião, da espiritualidade, de Deus, exige mais do que nunca a dúvida, o questionamento, a investigação. Por mais poderosa, profunda, grandiloqüente que tenha sido uma revelação, por mais eloqüente que tenha sido ou seja o místico receptor da revelação, se é uma “revelação” isto implica que há sempre algo “velado”, algo ainda não “re-velado”, algo não des-velado.

Que há por trás do véu da revelação?

Reflexão sobre o Natal

Recentemente, em um trecho de um programa de televisão, o entrevistado comentava um aspecto do Natal que me pareceu bem interessante, que já deve ser do conhecimento de muitos que estão lendo este texto, mas que me estimulou estas reflexões.

O dia 25 de dezembro foi convencionado para comemoração do nascimento de Jesus já na antigüidade romana. Antes desta instituição cristã, este era o dia em que se comemorava em Roma o nascimento do deus Mitra, o “Sol Invicto”. Com a convenção cristã do dia 25 para a comemoração do nascimento de Jesus, foi feita substituição da comemoração não-cristã (chamada “pagã”) do nascimento de Mitra pelo dia cristão para a lembrança do nascimento de Jesus.

O tema do dia do em que teria efetivamente acontecido o nascimento de Jesus não é nosso foco aqui, por isso, basta lembrar que o nascimento de Jesus, como vários estudos indicam, parece ter ocorrido no verão do hemisfério norte, e não no inverno, como é o caso do dia 25 de dezembro. Assim, esta data não tem o caráter de um aniversário, mas apenas de uma data oficialmente convencionada para a lembrança e comemoração do nascimento de Jesus; além disso, também teve a função de ocupar o espaço do culto a Mitra e do seu nascimento, que era muito forte no exército romano nos tempos do império, de forma a impor o culto cristão e eliminar o culto mitraísta.

Mas, o aspecto interessante desta data é o fato de que o nascimento de Mitra era comemorado no dia 25 de dezembro por ser logo a seguir ao solstício de inverno do hemisfério norte, ou seja, logo após o dia mais curto (e, claro, a noite mais longa) do ano. O solstício de inverno marca o início desta estação no hemisfério norte e acontece no dia 21 de dezembro. Mitra era associada à divindade da luz e remonta ao culto persa de Ahura-Mazda, sendo Mitra a filha deste deus com um outra divindade feminina, tendo iniciado sua aparição como uma divindade feminina sendo, posteriormente, convertida em divindade masculina em especial no tempo do império romano. Mitra era o símbolo da luz que vem ao mundo para vencer as trevas. Seu nascimento indicava exatamente isso: o surgimento da Luz vitoriosa depois da longa noite de prevalência das trevas.

Assim, o dia do nascimento deste deus indicava que, apesar de as trevas terem predominado por um tempo, chegando ao seu ápice no solstício quando a noite mais longa ocorre, ainda assim, o sol foi vitorioso e nasceu e os dias voltaram a se alongar e noites a se encurtar, significando que, ao final, a luz teria prevalecido sobre as trevas, a luz ao final teria triunfado, e o nascimento de Mitra significaria que o deus da luz teria sido vencedor sobre as trevas.

Ora, obviamente a adequação desta simbologia para Jesus seria muito fácil de realizar, principalmente se se pensa, por exemplo, num texto como o do Evangelho de João, que claramente faz a associação do Cristo com a Luz.

Lembremos, porém, que a instrução de Jesus foi a de se comemorar, lembrar, a sua morte, necessária porque esta visava seu novo nascimento. Jesus jamais instruiu nem sugeriiu que se comemorasse o seu primeiro nascimento do ventre de Maria. Com isso, vemos a clara alusão que Jesus faz a este novo nascimento como sendo aquele no qual se dará sua constituição como definitivamente Cristificado, a partir do qual ele se tornará a lâmpada que emite a luz de Deus, para usar a imagem do Apocalipse. O nascimento da Luz Crística, ou seja, a disponibilização desta Luz para todos os Homens, se dará somente depois de Jesus passar pela Nova Geração, por meio da qual lhe é dada a vitória sobre a morte-tempo e que lhe possibilita, logo depois, segundo os relatos dos Evangelhos, enviar, irradiar, emitir a sua Luz Crística, representada sob o símbolo do Espírito Santo (Espírito em grego é pneuma = sopro, vento, ar, hálito; Santo, em grego é hagios, aquilo que está relacionado com a manifestação de Deus).

Assim, refletindo sobre a utilização deste símbolo do dia 25 de dezembro como solstício associado a Jesus, o Novo Nascimento, o Nascimento da Luz, logo após a noite mais longa, teria então, muito melhor significado não associado ao nascimento do infante Jesus, do recém-nascido filho de Maria e de José, mas sim ao representar o seu Nascimento em Condição totalmente Crística, de filho da Luz, de Lucificado. Poderíamos, de certa maneira, dizer que o Cristo nasce com a Nova Geração de Jesus, pois só então é que ele está totalmente e definitivamente Lucificado, Cristificado, Eternizado como Filho de Deus. O solsticio, assim, seria a representação do período em que Jesus permaneceu morto, em que as trevas aparentemente são vencedoras, mas que apenas ocultam a sua preparação para o novo nascimento como o Sol Invicto da Justiça.

Desta maneira, a melhor aplicação para o dia 25 de Dezembro, que é o dia que sucede a noite mais longa do ano, e que representa a vitória da luz sobre as trevas, do Sol da Justiça que prevalece sobre as trevas da noite, deveria ser o de simbolizar, de indicar, o nascimento do Cristo-Luz, e portanto, também o nosso segundo nascimento pelo nascimento do Cristo em nós, o nascimento da Luz Crística em nossas consciências.

O dia 25 de Dezembro ganharia seu melhor sentido ao significar o novo nascimento do Cristo-Luz e o nascimento da Luz do Cristo em nós.

José Luiz Bueno