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vida e morte: nossa humanidade

setimo_seloHá que lembrar-nos, como o faz Fernando Savater, que a maior parte dos esforços humanos que os conduziram à construção da ou das civilizações, são dirigidos ao adiamento da morte.
Nossas culturas se constituem em torno deste esforço de adiamento do fim.
Para que serve, enfim, a moral? Não é para conseguir ordenar os comportamentos de forma que a violência e a morte possam ser evitados através do respeito às normas que protegem a vida do outro e nossa?
A ciência que se dedica à saúde, à alimentação, ao esporte, etc., não são formas de aumentar nossa longevidade, adiando a morte?
A indústria do entretenimento não serve para desviar nossa atenção do tempo que passa inexoravelmente em direção ao nosso fim?
A mitologia grega, que nos apresenta os deuses imortais, não serve para mostrar como se comportam os seres que não estão sujeitos à morte? Que sua moral é muito reduzida e sua preocupação com o outro é quase nula?
E a religião, não é nossa ferramenta de proteção contra a morte última? Se não podemos evitar a primeira, evitamos a segunda ao obedecer ao preceitos ditados pela divindade.
Até mesmo a filosofia, como apontam vários filósofos, se constrói a partir da ideia de perfeição, eternidade, beleza, unidade, etc., todos eles conceitos construídos em torno daquilo que não perece, que ultrapassa ou engana a morte, a imperfeição.
Sem a noção clara de que morreremos, certamente daríamos valor a quase nada que valorizamos hoje.
Ao saber que a morte de cada um de nós é uma morte absolutamente exclusiva, que não a compartilhamos com ninguém, que não se reduz a uma noção genérica de morte mas é a minha morte (quem me conhece na academia, sabe que estas expressões são de Franz Rosenzweig), ganhamos a plena consciência do valor de nossa vida individual.
É exatamente a morte o que nos ensina o valor de tudo. Pois, com o tempo escasso que temos, tudo ganha valor máximo.
Com a morte envolvendo cada um de nós, nossa presença pode ser apreciada em sua singularidade, naquilo que somos com exclusividade.
Sem a morte, não seríamos humanos.
Sem a morte, não haveria arte, filosofia, ciência, religião, história.
Sem a morte, seriamos incapazes de desfrutar a vida que cada um de nós recebeu. Sem a morte, jamais saberíamos que a vida é uma dádiva.
O nada nos antecede. A morte nos sucede. Entre estes dois parênteses, uma vida única nos foi dada. Que a morte nos ensine a vivê-la plenamente.

O Qohélet e o enfado do Conhecimento

Recentemente, lendo um livro de Slavoj Zizek, o psicanalista, filósofo, conferencista esloveno, fui posto novamente frente a um texto velho conhecido meu que está no livro Qohélet, da Bíblia. O Qohélet tradicionalmente é conhecido como Eclesiastes e atribuído ao rei Salomão, até por conta do texto consolidado no qual as primeiras linhas indicam a possível autoria do texto. Isto, em termos da pesquisa acadêmica é posto em dúvida, mas, de qualquer forma, não é o nosso foco aqui.

O que me despertou a atenção é o significado de um dos últimos versos do livro. Há várias traduções disponíveis para o texto. Mas pode-se encontrar no texto a afirmação de que não há limites para a produção de livros (rolos, no original) e o muito estudo (que no original poderia ser entendido como a ávida aplicação da mente) traz cansaço, ou enfado, para a carne, o corpo, ou para si mesmo.

Sempre ouvi pregadores e comentadores se referirem a este texto no sentido de que o muito estudo, ao final, apenas traz cansaço, e nada mais. O sentido aplicado sempre era o de que o conhecimento humano nada acrescenta à vida espiritual do fiel e o muito estudo seria, na verdade, desnecessário, pois o importante seria viver na contínua experiência e esperança da fé.

Nunca me convenci de tal explicação e, de qualquer maneira, via nesta interpretação um viés obscurantista, que queria evitar que as mentes dos fiéis fossem desafiadas pelo conhecimento, pela razão, e percebia também um outro viés, tão ruim quanto, que é o da “preguiça espiritual”, isto é, que a razão é inútil e que tudo o que importa vai ser “revelado espiritualmente”. E este segundo viés alimentando, igualmente, o primeiro.

O texto do Qohélet é visto como pessimista por alguns, como cético por outros, como criptomaterialista ou criptoateu por outros. Minha amiga, Cristina Guarnieri, doutora em Ciências da Religião pela PUC, em cuja tese de doutorado se enfrenta com Qohélet além de dois pensadores recentes, vê neste livro o encontro, o diálogo, ou o embate, entre a tradição judaica e atradição helenista de pensamento, segundo a experiência de um judeu da antigüidade. Neste ponto, começo a ver as leituras mais profundas e interessantes do Qohélet.

Mas, voltando ao ponto de partida, nesta leitura inspirada por Zizek, vi o aspecto que me chamou mais a atenção. O Qohélet faz um profundo questionamento sobre a existência humana, diante da natureza, diante do tempo, da busca de sentido, da morte. E a honestidade e franqueza do texto inexoravelmente encontram a condição humana, na sua incompletude, na sua insuficiência, na sua falta de sentido em si mesma.

Diz ainda o texto já nos primeiros versos: “Porque na muita sabedoria há muito enfado; e quem aumenta ciência aumenta tristeza.” (Eclesiastes 1:18). O escritor está diante da condição humana na sua mais crua face. A consciência de si, esta dádiva e este fardo humano, torna clara a distinção de cada ser individual com relação a tudo mais: ao outro, à natureza, a Deus. Este si-mesmo do homem o delimita diante de tudo o que não é ele mesmo. A consciência de si, a consciência existencial de cada indivíduo, é um tesouro, o maior fruto da existência e o maior material sobre o qual a inteligência se debruçará na busca da sabedoria.

Mas, exatamente neste ponto, a dupla natureza desta consciência se revela. Este ser que se percebe a si mesmo como único, como pensante, como consciente, como vivo, sabe que tudo isso é efêmero, é “vaidade”, é passageiro. A consciência da insuficiência, da incompletude, de estar diante da tristeza, do sofrimento, da morte, além da clara percepção da falta de sentido das coisas em si mesmas, do movimento aparentemente cíclico e mecânico da natureza, da inexistência de justiça e do próprio bem nas coisas dos homens. O justo e o injusto têm o mesmo fim, diz o texto. Tudo igual. Tudo repetitivo. E nada que se possa saber do que virá. Nada. Nem ninguém para saber nem para dizer.

Assim se vê o escritor diante desta gloriosa luz da consciência de si e, ao mesmo tempo, da tragédia que é a existência efêmera, sem fundamento nem destino, quando olhada em si mesma.

Ora, já não é difícil perceber que nesta reflexão, o estudo que leva ao conhecimento é enfado para a carne pois ele revela a precariedade desta carne, deste ser. O Pregador (uma das traduções para a palavra “qohélet”) não faz distinção de corpo e alma, algo que parece ser muito mais o feitio da concepção de homem presente no Antigo Testamento. Assim, cansaço do corpo é cansaço do ser. E este cansaço, este enfado, não é o do esforço, do trabalho do corpo em buscar o conhecimento, mas o cansaço, o enfado, de ver a própria condição, a própria precariedade como um vivo que logo deixará de viver, e que todo o fruto de seu trabalho, de sua vida, ficará aí, ou para outros, ou para o esquecimento.

Sem cair no pieguismo religioso, o Pregador reflete sobre a condição existencial humana. E nele mesmo, no texto, pode-se encontrar o olhar que se dirige ao longe, a algo para além da natureza, seja a exterior, ou seja, para a interioridade humana. Além da exterioridade, o único algo que pode dar sentido a isto que não tem sentido em si mesmo está nesta transcendência, num para-além deste ciclo sem sentido. Se há algum sentido nisso tudo, ele não provém da natureza, do tempo, nem do homem em si mesmo. Mas, há também um para-além no homem mesmo. Na sua incompletude, precariedade e insuficiência, ele pode perceber que há nele este algo que faz com que isto tudo possa ser percebido.

Diz o Pregador que “… (Deus) também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim.” (Eclesiastes 3:11). Como a natureza não tem sentido, nem justiça, nem alegria em si mesma, assim o Homem, que só encontra a saída naquilo que está para além de si mesmo e de tudo o que o cerca.

E este além-de-si-mesmo, de alguma maneira, está neste aquém-em-si-mesmo, a eternidade nele que está presente, mas que, nem por isso, lhe pode revelar o que permanece em mistério, oculto. A experiência existencial desta eternidade em si é tudo quanto este Homem parece poder alcançar. E precisaria ele de mais do que isso.

O enfado de si, trazido pela consciência, pela sabedoria, pelo muito conhecimento, traz em si a esperança de que este Homem possa ir além deste si-mesmo natural e possa olhar na direção daquilo que não se revela a esta enfadada mente e aos seus olhos, mas que, assim mesmo, a ele se dá, de alguma forma, em alguma medida, na experiência interna da própria existência como lampejo fugaz desta eternidade presente.

Sob o véu…

Tenho argumentado sobre a diferença entre ter preconceito e ter conceito sobre as coisas. O preconceito estabelece uma visão valorativa, um pré-julgamento e uma atitude pré-estabelecida em relação à coisa julgada. Um “pré”-conceito (prejuicio, em espanhol; prejudice, em inglês) estabelece uma atitude de desvalorização, confronto e desconfiança em relação à coisa julgada; e por isso mesmo tem apenas a aparência de algo racional e lógico; os argumentos contra a coisa julgada são muito mais retóricos do que qualquer outra coisa e, em grande parte, completamente irracionais (ou, no mínimo, irrefletidos).

Ter conceito sobre algo é exatamente o oposto. Requer que se investigue, que se observe, que se questione, que se dialogue com a coisa em questão. Ter conceito não é ter posições pró e contra. Ter conceito não é partir da resposta para chegar à justificação, mas partir da dúvida, da questão, da coisa, para se chegar a algo de compreensão, ou para se chegar mesmo à conclusão de que não se tem opinião ou conclusão a respeito, ou seja, que ainda não se tem conceito a respeito. Mas, vejo que pouca gente tem coragem de admitir ignorância, principalmente se dedicou algum tempo na busca e investigação de compreensão sem obter os frutos esperados.

Os assuntos de fé são os mais difíceis neste campo, pois, em geral, exigem exatamente o oposto do que estamos propondo aqui. Se, como à vezes se define, ter fé é exatamente não ter necessidade ou não se depender da razão, o processo de investigação, de dúvida, de diálogo, parece estar excluído. Será assim mesmo?

O que é que se esconde por trás dos dogmas da fé? Aquilo que é objeto de fé é imutável? Podem as religiões baseadas em revelação evoluir? Elas caminham em direção ao futuro ou sempre de volta ao passado, ao seu evento fundacional? Uma revelação é algo pétreo e imutável? Algo que é revelado não deveria ser auto-evidente, sem margem à dúvida? Não é este o sentido de algo que estava velado e passou a ser uma “revelação”, algo que estava oculto e ficou exposto, a descoberto? Mas, se uma revelação revela apenas símbolos ou indicações ou grandes linhas gerais, não fica aí já declarada a necessidade da “evolução” da religião baseada nesta “revelação” semi-velada, que exige uma compreensão cada vez mais profunda ou clara destes símbolos? Portanto, não seria que a própria revelação estabelece a necessidade da dúvida?

Cada vez mais me parece que aquilo que se refere ao mundo da fé, da religião, da espiritualidade, de Deus, exige mais do que nunca a dúvida, o questionamento, a investigação. Por mais poderosa, profunda, grandiloqüente que tenha sido uma revelação, por mais eloqüente que tenha sido ou seja o místico receptor da revelação, se é uma “revelação” isto implica que há sempre algo “velado”, algo ainda não “re-velado”, algo não des-velado.

Que há por trás do véu da revelação?

Reflexão sobre o Natal

Recentemente, em um trecho de um programa de televisão, o entrevistado comentava um aspecto do Natal que me pareceu bem interessante, que já deve ser do conhecimento de muitos que estão lendo este texto, mas que me estimulou estas reflexões.

O dia 25 de dezembro foi convencionado para comemoração do nascimento de Jesus já na antigüidade romana. Antes desta instituição cristã, este era o dia em que se comemorava em Roma o nascimento do deus Mitra, o “Sol Invicto”. Com a convenção cristã do dia 25 para a comemoração do nascimento de Jesus, foi feita substituição da comemoração não-cristã (chamada “pagã”) do nascimento de Mitra pelo dia cristão para a lembrança do nascimento de Jesus.

O tema do dia do em que teria efetivamente acontecido o nascimento de Jesus não é nosso foco aqui, por isso, basta lembrar que o nascimento de Jesus, como vários estudos indicam, parece ter ocorrido no verão do hemisfério norte, e não no inverno, como é o caso do dia 25 de dezembro. Assim, esta data não tem o caráter de um aniversário, mas apenas de uma data oficialmente convencionada para a lembrança e comemoração do nascimento de Jesus; além disso, também teve a função de ocupar o espaço do culto a Mitra e do seu nascimento, que era muito forte no exército romano nos tempos do império, de forma a impor o culto cristão e eliminar o culto mitraísta.

Mas, o aspecto interessante desta data é o fato de que o nascimento de Mitra era comemorado no dia 25 de dezembro por ser logo a seguir ao solstício de inverno do hemisfério norte, ou seja, logo após o dia mais curto (e, claro, a noite mais longa) do ano. O solstício de inverno marca o início desta estação no hemisfério norte e acontece no dia 21 de dezembro. Mitra era associada à divindade da luz e remonta ao culto persa de Ahura-Mazda, sendo Mitra a filha deste deus com um outra divindade feminina, tendo iniciado sua aparição como uma divindade feminina sendo, posteriormente, convertida em divindade masculina em especial no tempo do império romano. Mitra era o símbolo da luz que vem ao mundo para vencer as trevas. Seu nascimento indicava exatamente isso: o surgimento da Luz vitoriosa depois da longa noite de prevalência das trevas.

Assim, o dia do nascimento deste deus indicava que, apesar de as trevas terem predominado por um tempo, chegando ao seu ápice no solstício quando a noite mais longa ocorre, ainda assim, o sol foi vitorioso e nasceu e os dias voltaram a se alongar e noites a se encurtar, significando que, ao final, a luz teria prevalecido sobre as trevas, a luz ao final teria triunfado, e o nascimento de Mitra significaria que o deus da luz teria sido vencedor sobre as trevas.

Ora, obviamente a adequação desta simbologia para Jesus seria muito fácil de realizar, principalmente se se pensa, por exemplo, num texto como o do Evangelho de João, que claramente faz a associação do Cristo com a Luz.

Lembremos, porém, que a instrução de Jesus foi a de se comemorar, lembrar, a sua morte, necessária porque esta visava seu novo nascimento. Jesus jamais instruiu nem sugeriiu que se comemorasse o seu primeiro nascimento do ventre de Maria. Com isso, vemos a clara alusão que Jesus faz a este novo nascimento como sendo aquele no qual se dará sua constituição como definitivamente Cristificado, a partir do qual ele se tornará a lâmpada que emite a luz de Deus, para usar a imagem do Apocalipse. O nascimento da Luz Crística, ou seja, a disponibilização desta Luz para todos os Homens, se dará somente depois de Jesus passar pela Nova Geração, por meio da qual lhe é dada a vitória sobre a morte-tempo e que lhe possibilita, logo depois, segundo os relatos dos Evangelhos, enviar, irradiar, emitir a sua Luz Crística, representada sob o símbolo do Espírito Santo (Espírito em grego é pneuma = sopro, vento, ar, hálito; Santo, em grego é hagios, aquilo que está relacionado com a manifestação de Deus).

Assim, refletindo sobre a utilização deste símbolo do dia 25 de dezembro como solstício associado a Jesus, o Novo Nascimento, o Nascimento da Luz, logo após a noite mais longa, teria então, muito melhor significado não associado ao nascimento do infante Jesus, do recém-nascido filho de Maria e de José, mas sim ao representar o seu Nascimento em Condição totalmente Crística, de filho da Luz, de Lucificado. Poderíamos, de certa maneira, dizer que o Cristo nasce com a Nova Geração de Jesus, pois só então é que ele está totalmente e definitivamente Lucificado, Cristificado, Eternizado como Filho de Deus. O solsticio, assim, seria a representação do período em que Jesus permaneceu morto, em que as trevas aparentemente são vencedoras, mas que apenas ocultam a sua preparação para o novo nascimento como o Sol Invicto da Justiça.

Desta maneira, a melhor aplicação para o dia 25 de Dezembro, que é o dia que sucede a noite mais longa do ano, e que representa a vitória da luz sobre as trevas, do Sol da Justiça que prevalece sobre as trevas da noite, deveria ser o de simbolizar, de indicar, o nascimento do Cristo-Luz, e portanto, também o nosso segundo nascimento pelo nascimento do Cristo em nós, o nascimento da Luz Crística em nossas consciências.

O dia 25 de Dezembro ganharia seu melhor sentido ao significar o novo nascimento do Cristo-Luz e o nascimento da Luz do Cristo em nós.

José Luiz Bueno