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O caminho interno

Muitos sábios da antiguidade já avisaram que a jornada para o interior do homem é dura, áspera, um caminho pedregoso. Mas, também, sempre sinalizaram que o objetivo, quando alcançado, sempre vale a pena.

Por que é pedregoso o caminho? Não é difícil de perceber a razão. O caminho para dentro significa o auto-conhecimento. Conhecer a si mesmo implica em ver todas as nossas mazelas internas. O que somos, independentemente do que aparentamos ou do que de nós pensam as pessoas. Ver a complexidade de sentimentos, de memórias mentais ou emocionais, as tristezas acumuladas, a raiva não expressada, mágoas acumuladas, frustrações e mais frustrações.

Junto a isso, a vontade de muitos em construir uma imagem pública, uma persona, que seja agradável, bem-recebida pelos demais. Que permita conquistar e manter amigos ou um círculo de pessoas próximas. E como, em geral, esta imagem pública não corresponde ao autêntico ser-de-dentro, gasta-se uma imensa energia vital para mantê-la. E é questão de tempo para que a imagem externa e a identidade interna entrem em choque. E mais uma vez, conflito e dor.

Desta região de nossa natureza saem muitos de nossos aspectos, atitudes e atos mais tenebrosos. Mas sempre muito humanos, demasiado humanos. Dizer que são tenebrosos não quer dizer que venham de outra região do universo e entrem em nossa natureza fazendo-nos agir de forma totalmente distinta do que somos. Não. Os atos mais tenebrosos são praticados por nós mesmos, gerados desta região de trevas que há em nós e que somos nós. O filósofo Luiz Felipe Pondé disse em um artigo (Folha de São Paulo, 27/07/09) que muitos atos praticados por nós, humanos, são chamados de “desumanos”, como uma forma de nos isentar destes atos como se tivessem sido praticados por alguém muito diferente de nós. Mas, fomos nós mesmos, humanos, quem os praticou. E estes atos são gerados nessa região de trevas de nossa natureza, que temos de atravessar nesta jornada interna, em que buscamos a outra faceta de nosso ser, aquela que é o avesso destas trevas. Tudo em nós que radica nesta região obscura de nossa natureza, tudo aquilo que aí é gerado e com o que, inadvertidamente, nos identificamos, crendo que tudo o que somos se reduz ou resume a estas trevas, tudo isso é que nos leva, ou é por isso que nos levamos, ao sofrimento, seja moral, emocional, mental ou físico. Nesta dimensão de nós mesmos nos vemos fragmentados, oscilantes, gerando formas de nós mesmos que criam realidades externas mas que, elas mesmas, não têm permanência, se desvanecem no tempo.

Mas, felizmente, se seguimos na jornada, vamos ver que nossa natureza não é só isso. Se nossa natureza fosse apenas trevas, então não haveria experiência de nada positivo, de nada de bom em nossa existência. Mas a experiência de algo bom indica nossa capacidade de perceber este algo bom na vida. Nossa jornada rumo ao interior pode nos levar a um centro, a uma dimensão de nós mesmos onde podemos perceber a luz, a quietude, a tranquilidade, o bem. Uma dimensão que não é separada das demais (física, mental, emocional), como as demais não são separadas uma das outras. Mas assim como o físico é um com as emoções, e ambos são um com a mente, mas todas essas nossas faculdades se distinguem uma das outras, nossa dimensão vital, nossa consciência, nossa dimensão essencial ou espiritual é uma com as demais mas não definida nem restrita às outras. Ela percebe vitalmente as outras, mas pode se distinguir delas. Por ser informe, por ser vital, essa dimensão não sofre da inconstância e fragmentação das emoções e da mente. Por ser vital, percorre o corpo todo sem estar definida por um órgão qualquer. Esta dimensão é buscada por quem pratica a meditação como sendo um centro de tranquilidade e paz. Uns a chamam de “espírito”, outras a chamam de o “observador interno”, outros ainda do “espaço interno”, e tantos outros nomes. Sua característica é de poder se distinguir dos tantos barulhos da natureza externa e dos ruídos da natureza humana, e oferecer, por esta distinção, a possibilidade do silêncio, da tranquilidade, da observação não-conceitual, da percepção intuitiva e direta de si mesmo.

Nesta região de nós mesmos podemos encontrar forças vitais não condicionadas por nossa história ou por nossas características pessoais. Nesta região podemos perceber a paz. Podemos encontrar forças vitais que propiciam o agir criativo. Podemos encontrar possibilidades além de nossa percepção mental, conceitual, bem como para além de nossos condicionamentos emocionais e sensitivos. Não penso que sejamos fonte de vida em nós mesmos. Ainda que nesta região incondicionada de nossa natureza possamos perceber o que há de divino em nós mesmo e em tudo quanto nos rodeia, na natureza em que estamos imersos, não vejo aí a fonte dessas capacidades. É por essa natureza que percebemos a Vida, mas não é ela a fonte da vida. Essa região de nossa natureza é a expressão individualizada da vida universal. Com estas quatro faculdades que percebemos em nós mesmos podemos ter a experiência interna do que significa a “unidade na diversidade”. Somos este microcosmo, como diziam os antigos sábios. Mas não somos o Cosmos, nem a fonte do Cosmos, seja ela identificada como for. Mas somos expressão, manifestação desse Cosmos. Somos unidade e somos diversidade. Somos unidade e fragmentação. Somos permanência e somos mudança. Somos constância e somos evolução. Somos informes e somos forma.

Ao percebermos essa multiplicidade de nossa natureza, essa amplitude de dimensões, e podendo mergulhar até esse ponto, esse âmbito de nosso ser onde encontramos um refúgio sereno e silencioso, percebemos que nossos potenciais são muito maiores do que habitualmente concebemos. A consciência de nós mesmos mostra, sem dúvida, as possibilidades das trevas como da luz que nos compõem. Mas que bom ter essa consciência. Se temos essas duas possibilidades em nós mesmos, podemos visualizar uma infinidade de possibilidades também diante de nós, a serem escolhidas e alcançadas. Somos nossa história. Somos nosso passado presentificado. Mas também somos um futuro aberto e não definido, esperando para ser vivido.

Essa é uma faceta do tesouro que encontramos nessa jornada para dentro e que levamos conosco na saída “para fora”, ao entrarmos de volta na vida cotidiana. Sempre que necessitarmos, lançamos mão do tesouro que está em nossas mãos. E sempre que necessitarmos de mais, sempre poderemos empreender a jornada para esse lugar de dentro, sempre alcançável, sempre protegido, sempre exclusivo e tomar mais desse tesouro que, por ser qualitativa, é inesgotável.

Então, viajemos!

Silêncio

Sou um apaixonado pelo silêncio.

Mas, por favor, não pense, caro leitor, que a demora em escrever este novo texto foi por exercício de “silêncio escrito”. Foi apenas a seqüência de afazeres que ocupou o tempo e a atenção. Por outro lado, o silêncio, de certa forma, também se manifestou aí.

O silêncio tem propriedades únicas. Por exemplo, dizem meus amigos músicos que sem silêncio não há música. As pausas estão aí para mostrar isso. Sem o silêncio, a música deixaria de ser música para ser um contínuo de emissão sonora que, de tão permanente, deixaria de ser percebido. O som contínuo, ininterrupto, deixaria de ser discernido. O silêncio é necessário à criação.

Sem o silêncio, não haveria mística. Quem consegue imaginar um místico que falasse o tempo todo? Apesar do caráter anedótico desta imagem, ela é consistente com os fatos. Um místico, em geral, é um grande ouvinte. E se há uma coisa que a audição necessita é do silêncio da voz do ouvinte. Quem fala, dificilmente ouve. E se o místico seguisse falando, aquele ou aquilo a que ele está buscando ouvir não seria percebido quando se lhe desse à experiência. É claro que os místicos não são apenas ouvintes, mas o silenciar de seu ser é condição básica para que ele esteja disponível para que o “outro de si” possa falar. É preciso que o ouvinte crie a vacuidade interna pelo seu silêncio para que, assim, possa ser plenificado pela palavra, ou pela sinfonia, que lhe virá como dádiva.

Já na antigüidade, certos místicos ensinavam que o silêncio seria a única expressão cabível daquilo que experimentavam. O que lhes era dado simplesmente não cabia em palavras, as expressões verbais ou escritas seriam simplesmente incapazes de descrever ou de transmitir o que lhes tinha sido concedido. A noção de que experimentavam algo da infinitude apenas confirma isso, pois que palavras, como signos finitos expressados por uma mente e uma voz finita, poderiam descrever o indescritível, a infinitude, a atemporalidade? Já o apóstolo “falava” dos “ditos indizíveis” ou de “palavras inefáveis” que ele teria “ouvido”.

O silêncio do homem é o momento do seu mergulho no inefável, no misterioso, no indizível. Aquilo que não pode ser “dito”, não por incapacidade, mas por excesso de conteúdo em relação ao contenedor simbólico das palavras, é muito mais real na interioridade do ouvinte do que qualquer elemento que se lhe dê pelos sentidos.

Há muita gente que simplesmente se vê aterrorizada diante do silêncio. É o nosso condicionamento de estar vertidos para fora. O filósofo alemão Peter Sloterdijk nota muito bem que o processo de isolamento do mundo exterior que utilizamos hoje em dia não é tanto mais pela via do silêncio, mas, ao contrário, pelo uso do fone de ouvido onde preenchemos nosso mundo interno com os sons que escolhemos, e assim, ouvindo a seleção musical que preparamos, nos desligamos do “mundo exterior”.

Quem tem medo do silêncio talvez o associe com a vacuidade morta. Ou ainda, pelo silenciar cada um possa tomar contato com seu barulho interno e se assustar com o tanto de sons inúteis que produz em seu interior, sem ter o menor controle sobre isso. Há uma estação, ou muitas, internas que produzem ruídos e barulhos sem que a vontade ou a consciência do ouvinte possam fazer nada a respeito.

O silêncio é necessário para qualquer processo criativo. O silêncio é criador. O barulho, o ruído e mesmo a palavra e a música, sucedem ao silêncio. Certa vez, meditando sobre o texto bíblico do Gênesis, fiquei pensando na interessante imagem de que antes da primeira palavra que aparece neste livro que fala das origens de tudo, antes que a primeira letra surgisse, o que havia? A minha sensação foi de que estaria ali, precedendo a primeira letra da primeira palavra, um infinito silêncio criador.