Sobre as doutrinas da dissolução do ego em uma totalidade

Uma das questões abordadas em um fórum online em que participo com amigos (www.yubliss.com) tocou no tema da dissolução do ego em uma totalidade subjacente ao plano da consciência egóica.
Apresento uma trecho da reflexão sobre o tema que levei ao fórum.

Essa idéia -de que o ego pessoal deva ser integrado ou dissolvido em uma “totalidade”- toma várias formas e expressões. Hoje em dia, especialmente no campo do esoterismo, a física quântica tem sido uma fonte fértil de termos e expressões que sempre vem junto com essas propostas. Acho que um pouco deve-se ao próprio caráter “esotérico” que a linguagem científica adota, por exigir que o leitor possua um repertório de linguagem técnica que é difícil de obter. (O escritor e divulgador do ceticismo, Michael Shermer, em seus debates com Deepak Chopra, chama a linguagem de Chopra de ‘woo-woo language’, ou seja, ele diz que Chopra usa de termos da física quântica sem explicá-los e para dar uma aparência de cientificidade a seu discurso, que, no final, segundo Shermer, por seu uso fora de contexto e sem rigor científico, não significa absolutamente nada).
Mas, a idéia básica, ao que me parece, continua idêntica mesmo sendo expressa de forma ou em linguagem religiosa e esotérica. Essa idéia básica é a de que o ego, que é uma forma de se referir à pessoa ou à personalidade, e o seu produto, o pensamento, são intrínsecamente negativos, são alguma forma de produto indesejado na natureza e há que se descobrir alguma forma de dissolvê-lo para que a totalidade possa se “manifestar” ou “expressar-se” não “no” mas “através” dessa simples “forma” que é o indivíduo, que tem a ilusão de ser uma personalidade. E o pensamento é o fator de engano do ego que, porque o produz, ilude-se, achando que é algo de permanente, que tem alguma consistência.
Bem, essa forma de pensar tem muito adeptos, em especial nas formas de religiosidade ou espiritualidade que afirmam que há uma total integração entre o universo (material) manifesto e a totalidade imaterial, suprassensível ou ordem implícita. Essas formas tomam o nome de monismos ou de panteísmos ou , no caso filosófico, de imanentismo (como no caso de Spinoza).
Quando nos debruçamos a pensar sobre nossa condição humana, sobre como, na intimidade de nossa interioridade, nos sentimos sós, nos sentimos ignorantes de nossa origem, nossa condição e nosso destino (se é que há um), nos sentimos uma verdadeira ilha dentro de nossa consciência individual, sem saber, de verdade, como é que funciona o mundo, sem saber se há uma explicação verdadeira para o sofimento – o nosso e o que observamos nos outros-, com a sensação de que estamos sempre diante da dissolução iminente de nosso próprio ser, toda esta consciência de nós mesmos no mundo nos faz pensar que o fato mesmo de existirmos como pessoa parece ser algo ruim por si mesmo, algo necessariamente negativo.
Mas, podemos, no mesmo momento, nos dar conta de que o fato mesmo de que pensamos, que sentimos que somos algo em nós mesmos, que somos uma consciência, finita sim, mas uma consciência pensante, um pedaço de universo que sabe de si mesmo e se sabe diferente, distinto, de todos os outros e de tudo, é também algo impressionantemente maravilhoso. Ainda que se diga que isso deve ser uma ilusão do cérebro, nós, ao sentirmos nosso próprio ser e nos darmos conta de que pensamos e de que pensamos sobre o próprio ato de pensar, e temos a íntima consciência de nossa própria existência individual, sabemos que há algo em nós que, por pouca consistência que possua, é algo distinto, algo especial, algo único.
Dessa forma, a consciência de nossa existência individual, com o preço que ela nos cobra – como descrevi acima- ainda assim é aquilo que produz tudo, inclusive o próprio pensamento de uma possível necessidade de nossa auto-dissolução nesse “todo” no qual alguns entendem que estamos mergulhados.
A existência individual, a pessoalidade, é um peso muito grande, sim. Mas, ao mesmo tempo, algo absolutamente único, especial. Eu ainda considero de muito mais valor viver essa individualidade do que dissolvê-la. Por mais medonho e assustador que possa parecer.
Ainda acho que a dissolução é também uma forma de morte. Se essa totalidade é que vai se expressar através de minha individualidade, isso não me parece nada diferente de morrer e deixar de saber que sou algo e de oferecer os elementos de minha consciência e de meu corpo de volta à natureza para que ela os recicle e use em outros seres ou elementos naturais. A mim será absolutamente indiferente, pois não saberei que há essa totalidade se manifestando.
Para mim, em minha concepção, não é possível manter uma consciência pessoal, individual, simultaneamente com uma dissolução ou uma integração na totalidade. Se houver algum resquício de consciência de mim mesmo enquanto essa “totalidade” se manifesta, cairemos no mesmo problema de um ego existente. Se não houver mais nenhum resquício de consciência individual, a mim já não importa mais nada porque já não existo mais. Disssolvi-me. Morri como consciência.
Como diziam os epicuristas: não adianta preocupar-me com a morte pois, quando eu estou, ela está ausente, e quando ela está, eu já não estou mais.
Mesmo que se diga que a energia que me constitui permanece e que a morte é uma ilusão, sempre que minha consciência de mim mesmo deixa de existir, eu morri como indíviduo. Portanto, já não me importa. Se viver em outra dimensão é deixar de ser uma consciência individual, ou é deixar de saber que existi aqui como indivíduo, também não me importa porque não saberei de nada que vivi, pensei e senti aqui. Não serei diferente do meu corpo que se recicla e cujas moléculas são usadas por uma árvore, uma inseto ou outro ser humano para consituir um novo caule ou folhas ou o corpo de outro animal.
Acho que a reflexão sobre o valor da existência individual vai por aí.

Uma ideia sobre “Sobre as doutrinas da dissolução do ego em uma totalidade”

  1. Caro, Luiz!

    Belo texto! Parabéns!

    Minha inteligência, que entendo ser parte de meu Ego, me permite “pensar” que nossa individualidade, tem algo a mais,que podemos chamar de: Essência,Eu,Alma, Espírito. E que se depois de muito pensar, eu promover uma espécie de “egocídio” (não pensar nada, não desejar nada, não ouvir nem falar nada),algo poderá acontecer, que me dará a “certeza” destas minhas incertezas!

    Abraços!

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