Da longa luta entre o universal e o particular

De diversas maneiras, esta antiga polêmica sempre surge no horizonte. Duas maneiras de se pensar: uma que parte de valores universais, acima das subjetividades, que determina os padrões para justo, o bom. Um padrão que não se sujeita a vontades particulares, nem mesmo à vontade da maioria. É a idéia de que há uma lógica, um plano, que ordena a realidade. São as “leis universais”, que tiveram tanta fama e que, hoje em dia, estão em baixa na bolsa comercial das credibilidades globais e nas pesquisas de preferências das maiorias.

A outra forma, mais recente, é a que parte exatamente da subjetividade, do particular. É quando o indivíduo se manifesta ou quando o fato particular se sobressai. É o momento em que pode surgir o ato criativo, quando surge o valor de algo como insubstituível. Ao mesmo tempo, é quando surge o gosto, a preferência, a conveniência. Quando o particular impera, não há padrão, norma, parâmetro. Tudo é possível e nada é seguro. Toda e qualquer vontade, por absurda e violenta que seja, tem tanto valor quanto qualquer outra. O certo e o errado são apenas questão de costume ou da preferência vigente da maioria. O maior centro de decisão dos valores vigentes é o instituto de pesquisa; em vez da lei universal, a opinião pública; em vez da lei escrita, a pesquisa; em vez do valor, a média estatística; em vez da qualidade, a quantidade.

Nesta pequena síntese, estão resumidos séculos de debate filosófico. Até antes do Renascimento e da Idade Moderna, o universal era o conceito vigente. A filosofia platônica e o desenvolvimento teológico sustentavam esta visão. Com o Iluminismo moderno e a esperança de que a razão autônoma desse conta de todas as necessidades humanas, o subjetivo e o particular entraram em alta. Os padrões universais caíram, e com eles toda e qualquer capacidade de julgamento moral das ações humanas, individuais e coletivas. O julgamento passou a ser pela lei formal ou pela razão instrumental segundo o critério utilitário. Daí a ciência e a tecnologia, que não têm em si nenhum critério moral. Tanto se pode produzir energia e sistemas de tratamento de saúde quanto armas de destruição em massa. Dá no mesmo.

Tanto um como outro têm sua razão e sua aplicação. Tanto um como outro são defensáveis. Filosoficamente, parece não haver solução à vista. O utilitarismo vigente, a razão de mercado, a lógica da eficiência e produtividade e a pesquisa de opinião pública, quantitativamente parecem estar predominando.

Mas, o resultado aparente, devido ao desenvolvimento tecnológico, oculta uma decadência vertiginosa na autocompreensão do ser humano. E um conceito tão fundamental como o da própria vida humana, e a questão de se ela tem valor em si mesma, tem sido julgado neste tribunal da eficiência e da lógica de mercado.
Estamos diante da crise da pós-modernidade. Este termo, que já está ficando caduco ou pedante, ainda revela o estado em que nos encontramos.

Parece que depois de um milênio de universalismo, predominantemente teológico, e de quinhentos anos de razão iluminista, temos que achar um terceiro termo que possa responder a essa necessidade. Possível? Não se sabe. Mas, a tentativa é mais do que justificada.

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