Sobre as reações no Oriente Médio: religião, mídia e preconceito.

Exponho brevemente, aqui, algumas reflexões que tenho feito a fim de tentar entender um pouco melhor a situação presente no Oriente Médio, com relação à onda de manifestações coletivas, de ódio, violência, mortes, em alegado repúdio ao referido vídeo, considerado ofensivo ao Islã.

Entendo que está presente, sim, a questão religiosa (no sentido do dogma da irrepresentabilidade de Deus e do profeta, que estabelecem o caráter dito blasfemo do vídeo). Mas, parece-me que não se deve reduzir a interpretação do problema exclusivamente ao âmbito religioso. Parece difícil justificar tanta violência e até mortes com base unicamente na reação motivada no sentimento religioso da população.

Pode-se observar que o movimento tem, também, conotação política. Os grupos que estimularam a população ao movimento violento de reação utilizam e divulgam publicamente o motivo aparente do sentimento religioso para mover forças psicossociais na população e também para ganhar legitimidade junto à sua população em relação aos seus movimentos contestatórios e à violência estimulada por eles.

Ao mesmo tempo, não se pode perder de vista que há, conjuntamente, um problema de reação à presença econômico-política das potências ocidentais no Oriente Médio, especialmente dos Estados Unidos, que, queira-se ou não, deixa sempre a marca da presença de um poder economicamente exploratório. Se se justifica ou não essa acusação, isto é para se investigar, mas que os grupos que querem ascender ao poder nesses países se utilizam dessa retórica, isso vai ficando cada vez mais evidente.

Por outro lado, também há a ótica de como essa mensagem chega para nós, consumidores ocidentais de informação. A cobertura jornalística ocidental, ao menos no nível das manchetes, insistentemente dá como única e exclusiva explicação para o tema a questão religiosa, enfocando o fundamentalismo religioso islâmico, a intolerância religiosa, etc. Agindo dessa forma, essa cobertura jornalística apoia e reforça uma imagem já (pré)concebida, extremamente utilizada na retórica da guerra ao terror, a qual se aplica indiscriminadamente a toda a população e a todos os países que professam o islamismo no mundo.

Há indicações de que esse movimento radical é de responsabilidade de um grupo pequeno que consegue mobilizar a mídia para criar a impressão de ser algo que envolve a grande parte da população de confissão islâmica.

O que se pode deduzir daí é que, conscientemente ou não, o enfoque midiático exclusivo no argumento religioso é favorável aos argumentos de auto-defesa das potências mundiais presentes no Oriente Médio, pois lhes permite afirmar que o problema é originado na religião islâmica e em sua “intolerância” e não de sua presença economicamente predatória nessas regiões e nesses países, associadas a governos com pouco interesse em mudar a situação econômica de suas populações. Essa retórica reforça a idéia preconcebida de que os combustíveis da insatisfação e da mobilização popular são a religião e a intolerância. É evidente que essa insatisfação tem sido utilizada por estes grupos radicais islâmicos que usam a população como escudo e como massa de manobra para seus próprios projetos políticos de tomada do poder. Mas, deve-se observar que quanto mais a mídia internacional mantiver a cobertura exclusivamente sob o argumento da insatisfação religiosa, mais ela ajuda a mascarar o problema, que é sócio-econômico, e mais favorece o aprofundamento do fosso entre as culturas baseado no desconhecimento mútuo. Como conseqüência, essa mídia trabalha a favor de ocultar o papel das estruturas econômicas que atuam de forma exploratória nessa região e, paradoxalmente, favorece os grupos locais radicais e violentos na utilização midiática do argumento religioso para as mobilizações. A religião continuará sendo o culpado mais fácil de apontar em tudo isso. E essa (falsa) “culpa” é aplicada indiscriminadamente sobre toda uma população de mais de um bilhão de pessoas!

De nossa parte, é preciso que sejamos observadores críticos desse viés da cobertura da mídia internacional (que tem grande influência dos grupos de comunicação norte-americanos) ao menos para desconfiarmos do argumento exclusivo na religião.

E ainda eu gostaria de acrescentar um terceiro tópico, mais a título de reflexão em andamento do que propriamente de oferecer um argumento. Ao que parece, estes movimentos radicais que observamos não reconhecem o conceito nem o papel do “indivíduo”. Em outras palavras, o “indivíduo” tem pouca importância no aparato conceitual desses grupos (culturais, religiosos ou apenas políticos). Tampouco parece haver a preocupação com o reconhecimento das alteridades (a noção de que há um “outro” cultural, religioso, etc.,) que teria o mesmo estatuto ontológico que o seu próprio, o que implica o direito à existência em sua própria condição de diferente. Isso resulta em que se algum indivíduo ocidental produz uma ato considerado uma ofensa religiosa, tal fato não é visto como problema que aquele indivíduo particular causou mas, sim, que todos os ocidentais são responsáveis por esse ato. No caso em questão, que todos os norte-americanos são culpados pela ação de um ou alguns poucos cidadãos de seu país e, junto com eles, os demais não-islâmicos. Todo o diferente seria, assim, ruim por definição. (Veja-se os textos de Zygmunt Bauman sobre o problema do “diferente”, da “alteridade” na modernidade).

Este não é um problema novo. A noção de que um clã, tribo ou povo, na antigüidade, formava uma totalidade da qual o indivíduo era apenas um componente e que assumia coletivamente as virtudes, vícios, culpas, de seu povo, é bem conhecida. Os próprios relatos bíblicos ilustram essa situação com uma contundência notável.

A noção de subjetividade, e principalmente de um indivíduo como sujeito moral de seus atos, é uma construção ocidental, sim, que emergiu em especial com a modernidade. E é justamente essa noção que nos permite sustentar que a produção do tal vídeo é de responsabilidade daquelas pessoas que, por um ato voluntário, livre, decidiram produzir e produziram a peça em questão. Portanto, isso deve ser imputado à sua responsabilidade individual, e não a toda a coletividade, a realização de tal vídeo; eles, como autores, devem assumir as suas conseqüências morais e, se for o caso, civis e criminais. Essa noção de sujeito moral está na base da nossa noção de democracia, de sociedade, de leis, de estado laico, etc.

A questão que fica para se investigar é a de se a modernidade, ocidental de origem, nesse sentido, com seus conceitos de individualidade, de sujeito moral, de reconhecimento da alteridade, de sociedade civil, de democracia, direitos individuais e liberdade de expressão, talvez não tenha sido construída nem vivenciada ainda por esses grupos radicai, o que os levaria à rejeição da modernidade como apenas um “produto” ou uma “imposição” cultural do Ocidente.

Vários autores discutem a questão de se a modernidade era ou ainda é uma forma exclusivamente ocidental de civilização e se se poderia dizer que culturas não-ocidentais assumiriam ou se inseririam nessa chamada “modernidade”.

Talvez o momento das revoltas populares (que não parecem, de forma alguma, corresponder à maioria da população islâmica, muito pelo contrário) traga de novo essa questão da adoção dos parâmetros de modernidade por esses grupos do Oriente Médio e o quanto isso será necessário (e viável) para que a integração internacional possa se dar de fato.

E também serve para observarmos que nós, ocidentais, apesar de todo o caminho em direção à construção de uma cultura da racionalidade democrática e pluralista, também temos ainda grande dificuldade para compreender e para lidar com este “outro”, com o “diferente”, e desta forma compramos as idéias pré-fabricadas de que este é outro é sempre “radical e violento”. Para refletir com muita atenção!

2 ideias sobre “Sobre as reações no Oriente Médio: religião, mídia e preconceito.”

  1. Louis, excelente artigo.
    Quanto mais procuramos investigar as raízes terrenas desta crise entre Oriente e Ocidente, mais encontramos frestas escondidas entre a grande mídia, por onde escapam feixes luminosos que mostram um outro tom de realidade.
    Um tempo atrás, li “O jornalismo canalha”, do José Arbex Jr., retratando os bastidores da guerra dos EUA contra o Iraque, a manipulação de Bush sobre a CNN, a execração do jornalista (não me lembro o nome) que não beijou a mão do Exército americano etc. Me ajudou a me dar conta do quanto os óculos do Tio Sam influenciaram na composição das cores em nosso olhar do mundo por aqui.
    Creio que o 2º Mandamento, lançado na Lei Mosaica e enfatizado por Jesus, de “amar ao próximo como a ti mesmo”, passe primeiramente por compreendê-lo. Não pelo que dele dizem mas pelo que realmente é e pode ser.
    Abração.

    1. Obrigado, Marcelo!
      Acho que é isso mesmo. Um “fato”, na grande mídia, deve ser visto sempre como uma interpretação, que pode ter conotações políticas e mesmo religiosas. E nesse caso, especificamente, há essas múltiplas facetas nessa situação.
      Em ambos os lados da questão pode-se ver o quanto o fato nos meios de comunicação é descrito segundo o interesso do lado que o está relatando.
      A mídia nessas regiões também adota a linguagem que favoreça seus próprios pontos de vista.
      E nós, por nossa ver, ficamos com a incumbência de decifrar essas interpretações, esses vieses, para tentar enxergar alguma coisa mais objetiva em meio a essas cortinas de fumaça.
      E veja como nessas manifestações, o uso e a acusação da religião passam longe de qualquer idéia que se faça de “amor ao próximo”.

Participe com seu comentário