Sob o véu…

Tenho argumentado sobre a diferença entre ter preconceito e ter conceito sobre as coisas. O preconceito estabelece uma visão valorativa, um pré-julgamento e uma atitude pré-estabelecida em relação à coisa julgada. Um “pré”-conceito (prejuicio, em espanhol; prejudice, em inglês) estabelece uma atitude de desvalorização, confronto e desconfiança em relação à coisa julgada; e por isso mesmo tem apenas a aparência de algo racional e lógico; os argumentos contra a coisa julgada são muito mais retóricos do que qualquer outra coisa e, em grande parte, completamente irracionais (ou, no mínimo, irrefletidos).

Ter conceito sobre algo é exatamente o oposto. Requer que se investigue, que se observe, que se questione, que se dialogue com a coisa em questão. Ter conceito não é ter posições pró e contra. Ter conceito não é partir da resposta para chegar à justificação, mas partir da dúvida, da questão, da coisa, para se chegar a algo de compreensão, ou para se chegar mesmo à conclusão de que não se tem opinião ou conclusão a respeito, ou seja, que ainda não se tem conceito a respeito. Mas, vejo que pouca gente tem coragem de admitir ignorância, principalmente se dedicou algum tempo na busca e investigação de compreensão sem obter os frutos esperados.

Os assuntos de fé são os mais difíceis neste campo, pois, em geral, exigem exatamente o oposto do que estamos propondo aqui. Se, como à vezes se define, ter fé é exatamente não ter necessidade ou não se depender da razão, o processo de investigação, de dúvida, de diálogo, parece estar excluído. Será assim mesmo?

O que é que se esconde por trás dos dogmas da fé? Aquilo que é objeto de fé é imutável? Podem as religiões baseadas em revelação evoluir? Elas caminham em direção ao futuro ou sempre de volta ao passado, ao seu evento fundacional? Uma revelação é algo pétreo e imutável? Algo que é revelado não deveria ser auto-evidente, sem margem à dúvida? Não é este o sentido de algo que estava velado e passou a ser uma “revelação”, algo que estava oculto e ficou exposto, a descoberto? Mas, se uma revelação revela apenas símbolos ou indicações ou grandes linhas gerais, não fica aí já declarada a necessidade da “evolução” da religião baseada nesta “revelação” semi-velada, que exige uma compreensão cada vez mais profunda ou clara destes símbolos? Portanto, não seria que a própria revelação estabelece a necessidade da dúvida?

Cada vez mais me parece que aquilo que se refere ao mundo da fé, da religião, da espiritualidade, de Deus, exige mais do que nunca a dúvida, o questionamento, a investigação. Por mais poderosa, profunda, grandiloqüente que tenha sido uma revelação, por mais eloqüente que tenha sido ou seja o místico receptor da revelação, se é uma “revelação” isto implica que há sempre algo “velado”, algo ainda não “re-velado”, algo não des-velado.

Que há por trás do véu da revelação?

Como sementes…

Gosto de avaliar as propostas das correntes e escolas de conhecimento da antigüidade que chegam aos nosso dias com muito do vigor com que surgiram milênios atrás, e que tratam de compreender a natureza humana em seus potenciais.

Algumas são atraentes pois, apesar de levarem em consideração os avanços do conhecimento científico e os muitos percalços e o desenvolvimento do pensamento filosófico, não estão condicionadas nem limitadas pelos parâmetros das ciências duras, em nem, em especial das ciências humanas, que querem reduzir toda a experiência humana ao conceito de cultura.

Um estudioso alemão, historiador, filólogo e filósofo da religião, especialista no mundo grego antigo, que trabalhou na primeira metado do século XX, chamado Walter Otto, diz que a consciência utilitarista e voltada a resultados de nosso tempo, em especial a dos cientistas e eruditos acadêmicos, perdeu os parâmetros e o alcance para perceber, intuir, compreender as visões de mundo da antigüidade, em especial aquelas que vêem o homem inserido num cosmos mais amplo, povoado de seres míticos, divinos, de forças não-naturais (ou ao menos, de forças naturais onde “natureza” é algo muito mais amplo do que a ciência atual define), muito mais complexo e rico de dimensões e aspectos do que este em que nos vemos neste século.

O que é interessante nestas concepções antropológicas da antigüidade é que o homem é visto, compreendido, pensado a partir de parâmetros muito mais variados que os das ciência do Homem de nosso tempo. O Ser Humano é visto sob aspectos que hoje são descartados ou são impensáveis pelas ciências reducionistas e pelas filosofias mais materialistas ou utilitárias. A riqueza da vida humana, em seus aspectos sublimes e trágicos, é vista como parte de um universo de leis vivas muito amplas e profundas, de influxos na natureza a partir de fontes extra-materiais, de interações como o Homem de forças não compreensíveis a partir de uma visão apenas descritiva e quantitativa do Universo e da Homem.

Segundo Walter Otto, a pobreza da visão contemporânea sobre a antigüidade pode ser percebida quando um estudioso analisa qualquer mito, ou rito antigo, e espera ver neles uma função utilitária, isto é, que os homens as realizavam ou preservavam com a finalidade de obter algum benefício material, seja nas colheitas, seja na reprodução de seus animais, seja na fertilidade das mulheres e etc..

E uma das visões mais atraentes com relação ao ser humano é aquela que o compara a uma semente. Nesta forma de ver o Ser Humano nesta sua existência temporal, vê-se nele não a sua forma final, isto é, não um ser acabado no sentido de ter atingido seu estágio final de desenvolvimento. E nem, tampouco, como a forma degenerada de algo superior, de um estado mais elevado, que foi perdido quando o Homem passou a viver neste plano terrestre e que teria jogado o homem nesta que seria um condição inferior.

A visão alegórica do Homem (do Ser Humano) como uma semente mostra que a sua condição atual é necessária, é um estágio natural de sua condição, e que já demonstra, por sí, um ganho. Da inexistência, surge o indivíduo na condição de semente existente.

E toda semente tem a possibilidade de prosseguir na existência e no ser e de se converter em algo mais complexo e completo, de se desenvolver e atingir uma condição que no presente estágio é apenas potencial, mas que pode vir a ser atual.

A tragédia humana desta existência, quando vista sob o prisma de uma visão do Humano atual como semente, toma um sentido muito rico. Nada das dificuldades, sofrimentos, desgastes, lutas, oposições, que o Homem sofre são tiradas, nem mitigadas, mas também não são convertidas aos parâmetros de mérito e culpa. Todos os fatores e processos que agem sobre o Humano neste estágio são necessários no sentido de que sem eles a semente não se desenvolve. Claro está que estes mesmos processos podem fazer com que a semente se extinga sem “vingar”, sem se atualizar naquilo que, agora, ainda é potencial.

E um dos acontecimentos mais definidores do Humano, que é a “morte”, encontra seu lugar num processo que não extingue a semente, mas faz com que ela, morrendo, rompendo com a condição atual deste estágio, possa se transformar, possa iniciar o novo estágio do caminho em direção a se tornar uma “planta” madura. Sem os elementos atuais necessários ao seu crescimento (terra, água, luz, nutrientes) a semente não chega ao estágio de completude seminal. Mas, também, sem a morte, estes elementos não são processados para levá-la à condição de planta, de árvore. Mas, a morte, inexorável, pode chegar a uma semente que não adquiriu os nutrientes suficientes, ou que não resistiu às intempéries da existência. Tudo isso, ao final, dará um de dois resultados: extinção ou planta madura.

É como se o vivo, o existente individual, estivesse sempre diante de suas duas possibilidades: extinguir-se ou atingir seu potencial, e sabendo que o vivo morre, mas a Vida não morre. E que, com a morte, o vivo vai em direção à Vida, cada vez mais.

Por isso, vejo que algumas propostas de descrição do homem, mesmo algumas já da antigüidade, se empobrecem quando tiram o homem atual do resultado final, como se o homem, em vez de semente completa, fosse apenas a casca de um algo, a casca de um núcleo que não é daqui e que não vai ficar aqui, independentemente do que se passar com a casca. Esta visão, do homem como invólucro de algo que não é ele mesmo e que, ao mesmo tempo, se manifesta através dele como simples “roupagem”, é estranha pois tira muito do sentido e do brilho da vida potencial. Por mais que o indivíduo faça, nada que ele faça tem alguma importância pois ele é apenas veículo de algo que não é ele mesmo.

A semente não é causa de si mesma, mas foi constituída de tal maneira que pode se desenvolver e ultrapassar os estágios atuais e prosseguir em direção a algo inusitado, ou ao menos, no máximo sentido, intuido. E ao mesmo tempo, encara o desafio de estar diante da extinção.

O fato de a semente prosseguir, na forma de planta madura, integra a vida atual no processo todo. A vida atual não é descartada, nem desconsiderada, nem desvalorizada em função do passado nem do futuro. O que é vivido agora permeia o futuro e o atemporal. O agora está integrado ao futuro. A semente não tem que esperar a morte, mas tem que viver bem para morrer bem. Isso me lembra algumas frases de Huberto Rohden.

Nos textos que relatam os ensinos de Jesus, o Cristo, aparece a imagem da semente: “se o grão de trigo não morrer, não dará fruto, mas, quando morrer, dará muito fruto”. Eis aí a mais bela síntese desta imagem do Humano como semente na qual, o vivo, morrendo, não deixa de viver, mas de “vivo” caminha em direção à “Vida”.

Potenciais

Não consigo entender estes raciocínios filosóficos, científicos, ou de botequim, que têm como foco principal a desvalorização do ser humano. Não é mais necessário ficar advogando a posição de “centro do Universo” para a Humanidade. Mas, por outro lado, reputar a vida humana, o indivíduo humano, como porção desprezível do universo, é também algo para não se aceitar.

Continuamos sendo a única manifestação de vida (conhecida) que sofre por saber de sua própria condição de maldade. Somos a única forma de vida que espera a própria morte, que pensa sobre ela, que lida com ela através das muitas fórmulas e preceitos religiosos, metafísicos, sociais e culturais. Somos a única forma viva que integra os mortos em sua vida coletiva.

Somos a única forma consciente de vida que se pergunta sobre si mesmo, que sabe de si mesmo, que olha para si e na qual cada representante vê em si mesmo um “indivíduo”, que se faz auto-consciente e consciente de que há um “outro” do qual é distinto, seja um semelhante, seja o mundo, seja Deus.

Entender e ressaltar o valor da vida e consciência humanas nada tem que ver com a argumentação e crítica daqueles que temem esta valorização como disfarce para a justificativa da maldade que é intrínseca à natureza humana. Somos uma forma de vida que tem a possibilidade de se transformar. O potencial que temos para o bem e para o mal é o maior tesouro da natureza humana. Pode o indivíduo saber-se mau, saber-se agente do mal, mas ao mesmo tempo, pode querer e tomar a decisão de mudar, pode sincera e conscientemente mudar este rumo, pode lograr deixar para trás um estado ou atitude de maldade e transformar-se em um agente gerador de pensamentos, sentimentos e atos construtivos, altruístas, fraternos. Ou pode seguir lutando com esta inconstância e oscilação, pois apesar de saber-se potencialmente tanto bom como mau, pode não ter o controle de suas próprias emoções e reações, mas pode decidir-se a trabalhar sobre elas para construir um estado de maior constância no bem.

O ser humano não está determinado mecanica e automaticamente, nem para o bem nem para o mal. Sua estrutura lhe permite usar da vontade e da consciência de si para promover mudanças de rumo, de objetivo, de qualidade.

Encontramos na chamada “natureza” uma harmonia entre seus organismos que é espantosa. O plano inanimado como suporte para a vida; os planos de vida em seus diferentes graus de consciência (o que inclui os que não a possuem) se coordenam num grande ciclo de integração que envolve a desapaixonada cadeia alimentar, onde não se nota o ódio numa espécie que caça a outra para sobreviver, mas uma força instintiva, não consciente, que impõe a integração e a harmonia, ainda que através da ação de predadores e de presas. É uma harmonia “mecanicamente disposta”. Sua coesão e coerência se faz por forças inconscientes, instintivas, “naturais”. Podemos notar que não há uma decisão consciente neste planos em ser justo quando se caça ou em ser mau quando se come uma presa, ou que é uma maldade ser perseguido por um predador.

Nós, humanos, somos o ponto fora da curva. Caçamos por fome, mas também por prazer ou por ódio. Coletamos para sobreviver mas também para vender e enriquecer. Desmatamos para plantar ou apenas para o deleite egoístico. Sim, fazemos, ou melhor, podemos fazer tudo isso. Mas, isso mesmo, estes mesmos fatos, nos fazem perceber que não somos determinados para o bem nem para o mal, mas podemos nos encaminhar para um ou para outro por decisão própria. E mesmo que tenhamos decidido e ido em alguma destas direções, ela não está determinada inexoravelmente até o final de nossa existência individual. Enquanto vivos, podemos mudá-la. E mudá-la de novo, e de novo, e de novo…

Não é isto a mais espantosa capacidade? Não é isto um de nossos mais destacados diferenciais? Não é esta capacidade o nosso tesouro? Nossa responsabilidade e privilégio? E talvez nossa bênção e nossa maldição? Mas, o fato de ser abençoado ou amaldiçoado nos dá a visão das nossas potencialidades. E estas potencialidade, como tesouro diferencial que temos, nos dá a dimensão da nossa importância. Somos o centro do universo? Já temos as respostas consagradas. Mas, ao mesmo tempo, não somos o desprezível monturo de pó descartado de estrelas. Dizem alguns poetas e místicos que há seres da pleni-luz e da trevas totais, mas que somente o homem oscila entre ambas, entre a luz e as trevas. Huberto Rohden em um de seus poemas místicos diz que o homem mais sublime que já viveu foi representado erguido na cruz, ainda abaixo do céu mas já acima da terra, que a cruz seria este símbolo do encontro nele, Homem no mais pleno sentido da expressão, da verticalidade Crística com a horizontalidade do tempo-espaço.

Vida. Consciência. Liberdade. Potencialidade para o bem e para o mal. Assim somos nós. E diante de nós, mm permanente abismo de possibilidades, sempre à nossa frente, a cada passo neste caminho da existência. Sempre diante do êxtase e da vertigem. Há ainda quem prefira ser pedra, planta ou animal diante disso?

Sobre a banalização do “humano”

Eu sei que o caminho mais fácil é o do extremo, e sei que no extremo não há conhecimento, por isso, procuro não pensar nem agir nos extremos, e procuro caminhar racionalmente eqüidistante dos extremos. O que, provavelmente, nem sempre consigo. Mas, sigo tentando e me esforçando.

Uma das coisas em que mais nos regozijamos, nos ufanamos, em nossos dias de sociedade civilizada, é de nossas conquistas no campo do conhecimento científico. E tais são os benefícios que a Humanidade tem obtido que realmente temos o que comemorar. E aí mesmo, nesta área, é onde ocorre um dos nossos tradicionais extremismos.

Temos passado, como Humanidade, ao menos neste ramo ocidental, por um período de descobertas que têm trazido tal fascínio que cotidianamente vemos as pessoas assumirem uma postura “científica” até nos diálogos familiares no café da manhã. Nada mais digno de orgulho do que isso. Mas, exatamente aí, temos sofrido um processo de convencimento de que este tipo de raciocínio é o único possível. Começamos a nos deixar convencer de que se não pensamos de forma “racional” e “científica”, então, não pensamos. Só é racional o que é científico. E só se pode pensar “racionalmente”.

Sem cair na banalidade de uma crítica fácil ao modelo científico de pensamento, que a maioria nem sabem bem o que significa, e que obviamente é uma grande conquista da humanidade para a humanidade, refiro-me a uma linha de pensamento que se oculta por trás desta aparentemente “óbvia maneira correta” de pensar. O que este tipo de “racionalidade” oculta, não assume, não explicita, é que ela é a face socialmente aceitável da absoluta banalização e materialização do humano, num processo que continuamente o transforma em simples ativo de uso cotidiano das muitas indústrias sociais. Que é o homem? Biologicamente, apenas um pedaço de matéria dotada de um algo que se chama auto-consciência, que logrou manter-se diante da pressão evolutiva. Socialmente, apenas um produto dos mecanismos históricos, culturais e políticos. Que é o homem? Apenas um “agente econômico”, um “consumidor”, um “eleitor”, um “contribuinte”, um “componente do universo de pesquisa de opinião”. Que é o homem? Apenas mais uma “coisa” dentre as muitas coisas existentes.

Esta “coisa” tem algum “valor”? Cientificamente, estatísticamente, mercadológicamente, politicamente falando, claro que sim! Tem o valor de um algo que pode ser manipulado, testado, medido, vendido, comprado. Mas, e além disso? “Bobagem”, dirão. Valor? Significado? Sentido? Bobagem. Já não temos mais tempo para pensar nestas coisas. Nossa mentalidade científica já “provou” que não há sentido, valor nem significado para nada. Em outras palavras, que é o homem? Resposta: nada.

Isto é o que se oculta atrás desta nossa mentalidade utilitarista, quantitativa. E aí, dada esta falta absoluta de sentido, de qualquer fundamento para o valor da vida humana, instaura-se o mais absoluto nihilismo. E o que resta aos que pensam um pouco mas não saem deste envoltório “racional”? Esconder-se atrás de uma quase tola afirmação uma simplicidade da vida, que o que importa é “ser feliz”, que é viver o dia-a-dia com os prazeres cotidianos. Que é isso senão a mais urgente fuga da consciência de que em nosso tempo, com a nossa mentalidade racional e científica, nós, os indivíduos, os “humanos”, passamos a valer nada, a significar nada, a não ter sentido nenhum. E então é preciso preencher e ocultar este vazio, este nada, este deserto, com as simplicidades e cotidianidades. É preciso se “entreter”, é preciso ter “passa-tempos”, é preciso estar o tempo todo voltado para as coisas pois o deserto interno é extremamente desagradável.

Estou fazendo a apologia do combate à ciência e à racionalidade? Por favor, não me tome por extremista nem tolo. Mas, ao mesmo tempo, não estou disposto a assumir este auto-engano coletivo de ocultar este “nada” com a maquiagem mercadológica que vende esta belíssima embalagem vazia de conteúdo, que é esta mentalidade pseudo-científica e pseudo-racional de nosso tempo que não tem coragem de assumir o preço de nadificação do humano que ela inevitavelmente traz consigo.

Pensar o humano apenas como um algo que pode ser testado, medido, provado, manipulado, alterado. Isso é a mentalidade “objetiva”, “racional”, “científica”. Este é o aspecto perverso que é preciso ter em conta quando se assume este tipo de mentalidade, de “racionalidade”. Este é o legado que é preciso avaliar e criticar. Não a conquista dos conhecimentos científicos, não o produto dos “esforços racionais”. Mas, sim, a ilusão, o engano, que afirma que esta é a única forma de conhecer e de falar do “humano”. A ilusão de que nossa “razão” dá conta de tudo. E que “razão” mais “ciência” são tudo o que precisamos em termos de conhecimento. É preciso saber que este casamento tem como filho o nihilismo absoluto. E que, se assumimos esta mentalidade para enfrentar o viver, é preciso saber que junto com o nihilismo, que elimina toda a possibilidade de se investigar valores e significado, vem o reinado da força, pois, onde não há critério, a força resolve. O século XX foi o grande período em que isso se mostrou muito evidente.

Há momentos do pensamento em que ele é propositivo. Mas, há momentos em que é preciso exercer a crítica para se poder adquirir algum “discernimento”. Isto é o que me propus fazer nesta breve reflexão.

Sobre “A Liberdade e o Mal”

Man readily renounces freedom in the name of the easing of life” (N. Berdyaev).

É chocante como este pensador russo, cristão ortodoxo, escancara a situação humana diante do drama da sua liberdade. Será possível que aquilo que tanto se exalta e aclama em nosso tempo seja exatamente aquilo de que mais queremos fugir em nossa humana condição? Será a liberdade algo formalmente desejado mas realmente temido e evitado? Será o homem realmente livre?

Obviamente não pretendo responder a uma interrogação tão grande como essa, especialmente no espaço de um “blog” pessoal, mas me pareceu irresistível destacar esta frase do russo Berdyaev, em especial depois da marcante experiência que tivemos com o Seminário “A Liberdade e o Mal”, que realizamos em janeiro, na sede da Thélos Associação Cultural, em São Paulo.

A discussão que pude apresentar neste Seminário envolveu a abordagem de algumas posturas teológicas e filosóficas que ao menos expuseram a importância e a complexidade do tema. Quero apresentar o roteiro que seguimos no Seminário de forma a compartilhar um pouco dos temas que tratamos nestes dias.

Partimos da leitura de um texto fundamental para o Ocidente que é o relato do Gênesis, nos capítulos 2 a 4, em que os protagonistas são Deus (obviamente!), o Homem/Humanidade, a serpente e as ávores do conhecimento do bem e do mal e da vida. Nossa leitura se distanciou das interpretações correntes pois consideramos o Gênesis em seu estilo alegórico (ou “simbólico”, se se preferir o enfoque nesta chave de leitura), no qual vemos o Adam (a palavra “Adam” no hebraico pode ser relacionada com a outra palavra “adamah”, que significa “procedido da terra”) como Homem/Humanidade e não como o relato da vida de um indivíduo. Neste trecho, a Humanidade é apresentada em seu movimento crucial de tomada de consciência de si mesmo, através do qual passa a perceber que a liberdade lhe é inerente mas que, ao mesmo tempo, ela só se lhe torna efetiva quando confrontada e posta em ação mediante as duas dimensões e condições que a tornam real: o bem e o mal. O Homem/Humanidade só se torna livre diante da ação livre que o faz possuir o conhecimento ao mesmo tempo do bem e do mal. E este conhecimento é o sinônimo do sofrimento humano em sua condição única. O Homem/Humanidade se vê nu, o que pode significar que se percebe insuficiente mesmo diante da natureza e que, acima disso, já se percebe “moralmente” desqualificado e mau diante de Deus. A imagem do homem se cobrindo diante de Deus e não diante da natureza revela que sua consciência de bem e mal só se dá diante do Ser que, por estar para além da natureza, é o único que pode lhe fazer ver sua própria condição de insuficiência, de mortalidade, de maldade. Essa idéia bíblica vai ser fundamental ao Ocidente no desenvolvimento da sua visão de liberdade.

Passamos rapidamente pelo conceito agostiniano (Agostinho, séc. IV e V) de liberdade como sendo uma liberdade apenas para o mal, uma vez que, segundo o pensador africano, o bem só seria concebível no homem pela ação da graça divina; saltamos e citamos também Espinosa (séc XVII), que em seu pensamento “geométrico” parte do substância infinita como única causa para tudo (porque só a substância infinita é causa de si mesma e subsiste por si), devido à qual não se pode conceber liberdade na criatura (que não é causa de si mesma e nem subsiste por si própria mas na substância infinita), pois só haveria liberdade no movimento da substância infinita em seus atributos e seus modos, dos quais, o atributo extensão e o atributo pensamento seriam os componentes do homem.

Postos estes dois marcos filosóficos, exemplificadores do esforço teológico e filosófico em entender a liberdade humana, pudemos ver a apreciação do tema do mal a partir da ótica teológica segundo o estudo desenvolvido por um autor contemporâneo, o teólogo inglês John W. Wenham em seu livro “O Enigma do Mal”, no qual o autor expõe e enfrenta o que considera as dificuldades extremas dos textos bíblicos em se lidar com este tema. Segundo o autor, só se pode compreender o Deus cristão em sua profundidade, bem como a revelação em sua relevância, se não se evita a consideração do “mal”, em suas muitas e variadas manifestações (de sofrimentos, de traições, de guerras e extermínios, entre outras). Para esta abordagem, o autor faz um extensivo levantamento de textos que ressaltam as ordens de Deus para a guerra e o extermínio de povos, para os salmos imprecatórios, para as maldições lançadas sobre o povo, e para mostrar que isso não é uma característica do Antigo Testamento apenas, o autor expõe as ameaças de sofrimento eterno, de punições, de terrores, também no Novo Testamento, começando pelas palavras dos apóstolos, e citando também palavras do Cristo. Sem o mal, segundo Wenham, Deus e a Bíblia se tornariam “irrelevantes” em seus ensinamentos e prescrições para o Homem. Seguindo dentro de seus parâmetros teológicos e confessionais, o autor vai reafirmar que todo este contexto se explica pela desobediência do homem, o qual, vivendo num mundo perfeito diante de Deus opta pela desobediência e pelo mal, o que causa o mal no mundo e traz todo o sofrimento em sua vida. Neste ponto, a questão que trouxemos (já feita por outros autores) a esta interpretação do relato do Gênesis foi de que se o homem não conhecia o bem e o mal, pois só tomou conhecimento deles ao comer do fruto da árvore “do conhecimento do bem e do mal”, como pôde ser punido por “escolher” algo que não tinha conhecimento de que era mau, pois nem sabia haver algo como o mal?

Pudemos ver que o tratamento conjunto deste temas pelas vias teológica e filosófica como interligados e interdependentes foi levado a cabo em especial pelos idealistas alemães, sob a forte influência do grande místico alemão Jacob Boehme, dentre os quais ganha destaque a obra de Schelling (séc. XVIII e XIX), que sofre uma grande guinada a partir do seu livro “Investigações sobre a essencia da liberdade humana”, a partir da qual o filósofo defende a tese de que só pode haver a liberdade humana na consciência de que a própria estrutura antrop
ológica é este misto e esta dinâmica entre as duas forças que lhe são constituintes: o bem e o mal. Schelling faz uma espécie de cosmogonia na qual apresenta sua idéia de que a natureza é fruto do movimento de uma força inexorável que se manifesta e que revela Deus em sua essência de Vontade Pura. O movimento inexorável desta vontade pura é que gera a natureza. Na natureza, este movimento de vontade vai se voltar para dentro de si mesmo, e nesse votar-se a si, neste querer existir em si pensando que existe “por sí” é que se concebe o que é o mal. Algo como um auto-centrismo, uma espécie de ilusão de autonomia, se se pudesse aplicar esta imagem à natureza, como sendo a própria definição de mal. Mediante esta dinâmica de bem e mal se concebe o homem, e conceber o homem significa conceber um ser radicalmente livre porque surge como o misto destas duas grandes manifestações de luz e trevas, de bem e mal, e assim, sua liberdade vai ser exatamente esta “possibilidade para o bem e para o mal”. Sem o mal, não se pode absolutamente conceber algo como a liberdade.

Esta discussão alemã foi vista também a partir do russo Berdyaev, em especial mediante seu texto “The Metaphysical Problem of Freedom”, um artigo brilhante no qual o autor apresenta um panorama da temática da liberdade, destacando o embate entre o pensamento cristão e a filosofia. O autor afirma que a liberdade só pode ser concebida como dinâmica e não a partir de conceitos estáticos. Sua visão é de que há duas formas de se conceber a liberdade, uma considera a liberdade primordial, básica, irracional, indeterminada. A outra é a liberdade a partir da razão, concedida por Deus. Mas o autor adverte que se se considera qualquer uma delas isoladamente como o conceito final de liberdade, o resultado vai ser a própria dissolução desta. O primeiro tipo leva à dissolução da liberdade pelo anarquismo e o segundo à dissolução desta pelo autoritarismo via imposição de um tipo racional de virtude. O autor argumenta também que nem os conceitos de Deus, de natureza e de alma são suficientes para se ‘fundamentar’ a liberdade e mostra as razões para isso. Assim, se nenhum destes conceitos pode ser fundamento para a liberdade, só lhe resta e só se pode conceber como único fundamento para a liberdade o “nada” incriado, o âmbito das infinitas possiblidades, o mal. Da mesma forma, a liberdade só poderia ser concebida como a dinâmica entre a liberdade irracional e a liberdade da razão. Esta dinâmica só seria possível porque o movimento da liberdade (isto é, o rompimento deste auto-encerramento na dupla dinâmica) ocorre pela inserção vertical da verdade do espírito na dimensão horizontal da natureza determinista: “Conhecereis a verdade e a Verdade vos libertará”.

A discussão de Berdyaev é imensamente ampliada e enriquecida através do livro “Crítica e Profecia” (Editora 34, 2003), do filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé, no qual o autor, para expor sua tese sobre a necessidade de considerar o aspecto religioso (cristão ortodoxo) da obra de Dostoyévski para se poder apreender a grandeza da obra do autor russo, desenvolve uma extensa discussão sobre as origens do pensamento ortodoxo russo que remontam aos primórdios do movimento monástico e asceta dos padres do deserto. A partir desta discussão, vimos que o movimento de ida ao deserto destes místicos era a imagem do subjugação da physis (tudo quanto é natureza, natural) na imagem da subjugação do próprio corpo como o aspecto “natural” do homem, e do enfrentamento do deserto como o próprio nada, no qual o mal se mostraria sem máscaras nem disfarces. Assim, vimos que, para o pensamento cristão ortodoxo russo, mantendo esta compreensão da tradição dos padres do deserto, toda identificação do homem com seu aspecto “natural”, como quer a ciência contemporânea (na verdade, todo o pensamento “naturalista” ocidental desde suas origens gregas) significa exatamente a identificação do homem com o mal, com a desagregação, com a decomposição, com a desgraça (no sentido de isolamento da graça divina), ou seja, como o próprio mal. Todo conhecimento que procura definir o homem a partir da natureza e de suas leis é um grande engano pois o homem não se resume a seus aspectos naturais, assim como as definições de Deus a partir da razão são inadequadas pois Deus não é um ente da natureza e nem é do plano da razão. Deus estaria para além de ambos. Toda definição natural e racional de Deus é uma definição produzida pelo próprio mal. Neste contexto podemos melhor compreender as posições de Berdyaev em que procura mostrar que a inserção vertical do plano do espírito é necessária para romper o auto-encerramento do homem neste plano horizontal da natureza, que é o do nada e o do mal. O homem é livre, radicalmente livre, mas isso significa exatamente que ele está constantemente diante do abismo do nada.

Já próximos ao final, retomamos um texto do Êxodo no qual Deus “propõe” ao homem “a vida e bem ou a morte e o mal” e lhe “aconselha” que escolha a “vida”. Vimos como este texto fica interessante uma vez que uma “proposta” e um “aconselhamento” se dão na mesma Torá que, normalmente, é vista apenas como um livro de “leis”, de “obrigações”, de “faça” e “não faça”.

E, finalmente, encerramos com a avaliação de alguns textos do Novo Testamento que mostram o enfrentamento de Jesus com o mal, com o “diabo”, com o deserto, com o nada. A partir dos relatos da “tentação”, da agonia no Getsêmani e da crucificação, pudemos ver que o enfrentamento com o mal é o atestador da ação do homem livre, que, para ser livre, precisa enfrentar o mal interno, o “diabo” (opositor, desagregador) em si mesmo, sua possível desagregação no seu nada, sua possível extinção. O episódio da tentação mostra este enfrentamento a tudo o que é do plano horizontal, natural, que compõe a própria natureza humana. Os três estágios da experiência de Jesus no deserto apresentam fases, níveis, aspectos desta tendência do humano em se horizontalizar; Satanás, o adversário, é a imagem deste nada que age para que o homem com ele se identifique, para, ao naturalizá-lo e temporalizá-lo, finalmente nadificá-lo. A agonia no Getsêmani revela o quanto a natureza humana não deseja o enfrentamento com a morte, teme o nada, deseja aquilo que é diferente da verticalidade, mas pela “decisão”, pela “consciência” (termos complicados, sabemos disso), mantém-se em sua opção pela vida vertical, com seu preço de sofrimento e enfrentamento, que se alinha com a “vontade” do “Pai”. O abandono, a solidão na cruz (“Deus meu, por que me desamparaste?”) é o momento derradeiro diante deste nada, diante da extinção, diante da última ameaça de identificação com tempo, com o temporário. Mas o abandono em si mesmo é a pré-condição para a entrega ao vertical, quando o que é natural-horizontal já não pode fazer mais nada, já se esgotou em seus recursos e finalmente entrega a continuidade do processo ao transcendente, ultrapassando finalmente o plano do imanente. Neste enfrentamento, ao fazer suas opções, Jesus tipifica exemplarmente a experiência humana pois sabe que terá que não apenas tomar decisões, fazer escolhas sempre diante do abismo do nada, mas mantê-las, sustentá-las, até o momento derradeiro, sem descanso, sem misericórdia por parte da natureza, sem garantias em si mesmo. Diante da con
sciência de sua absoluta insuficiência antropológica, sabe que a vitória contra o nada só se dará mediante a contínua exposição ao transcendente, dentro da perspectiva de sua “taborização” (referência à “transfiguração” de Jesus no monte Tabor) contínua, de forma a encerrar a batalha na morte com o resultado acumulado desta contínua transformação (também pensada como “metanóia” e “teósis”). A “taborização” continuada, crescente, mostra o processo de “cristificação” de Jesus, através do qual ele se qualificou para este momento derradeiro, para sustentar suas decisões. E só a morte pôs fim à batalha, e só pela permanente exposição à luz vertical da divina transcendência, absolutamente além e incontrolável pela razão e pela natureza, pode o Homem ter sua esperança de vida: “está consumado”; “em tuas mãos entrego meu espírito”.

Este resumo da temática não consegue expor as nuances que pudemos perceber nestes autores e nestas questões, nem traduzir todas as leituras simbólicas nem os “insights” que experimentamos juntos durante o seminário. Mas, ao menos, dá uma noção de quão fundamental e complexo é este tema e quão caro nos é como humanos, vivos, sofrentes.

Fizemos este este percurso no Seminário com a esperança de que os presentes pudessem aquirir mais elementos para considerar com mais profundidade a questão que abriu o seminário e que o permeou o tempo todo: “Somos livres?”

José Luiz Bueno

Reflexão sobre o Natal

Recentemente, em um trecho de um programa de televisão, o entrevistado comentava um aspecto do Natal que me pareceu bem interessante, que já deve ser do conhecimento de muitos que estão lendo este texto, mas que me estimulou estas reflexões.

O dia 25 de dezembro foi convencionado para comemoração do nascimento de Jesus já na antigüidade romana. Antes desta instituição cristã, este era o dia em que se comemorava em Roma o nascimento do deus Mitra, o “Sol Invicto”. Com a convenção cristã do dia 25 para a comemoração do nascimento de Jesus, foi feita substituição da comemoração não-cristã (chamada “pagã”) do nascimento de Mitra pelo dia cristão para a lembrança do nascimento de Jesus.

O tema do dia do em que teria efetivamente acontecido o nascimento de Jesus não é nosso foco aqui, por isso, basta lembrar que o nascimento de Jesus, como vários estudos indicam, parece ter ocorrido no verão do hemisfério norte, e não no inverno, como é o caso do dia 25 de dezembro. Assim, esta data não tem o caráter de um aniversário, mas apenas de uma data oficialmente convencionada para a lembrança e comemoração do nascimento de Jesus; além disso, também teve a função de ocupar o espaço do culto a Mitra e do seu nascimento, que era muito forte no exército romano nos tempos do império, de forma a impor o culto cristão e eliminar o culto mitraísta.

Mas, o aspecto interessante desta data é o fato de que o nascimento de Mitra era comemorado no dia 25 de dezembro por ser logo a seguir ao solstício de inverno do hemisfério norte, ou seja, logo após o dia mais curto (e, claro, a noite mais longa) do ano. O solstício de inverno marca o início desta estação no hemisfério norte e acontece no dia 21 de dezembro. Mitra era associada à divindade da luz e remonta ao culto persa de Ahura-Mazda, sendo Mitra a filha deste deus com um outra divindade feminina, tendo iniciado sua aparição como uma divindade feminina sendo, posteriormente, convertida em divindade masculina em especial no tempo do império romano. Mitra era o símbolo da luz que vem ao mundo para vencer as trevas. Seu nascimento indicava exatamente isso: o surgimento da Luz vitoriosa depois da longa noite de prevalência das trevas.

Assim, o dia do nascimento deste deus indicava que, apesar de as trevas terem predominado por um tempo, chegando ao seu ápice no solstício quando a noite mais longa ocorre, ainda assim, o sol foi vitorioso e nasceu e os dias voltaram a se alongar e noites a se encurtar, significando que, ao final, a luz teria prevalecido sobre as trevas, a luz ao final teria triunfado, e o nascimento de Mitra significaria que o deus da luz teria sido vencedor sobre as trevas.

Ora, obviamente a adequação desta simbologia para Jesus seria muito fácil de realizar, principalmente se se pensa, por exemplo, num texto como o do Evangelho de João, que claramente faz a associação do Cristo com a Luz.

Lembremos, porém, que a instrução de Jesus foi a de se comemorar, lembrar, a sua morte, necessária porque esta visava seu novo nascimento. Jesus jamais instruiu nem sugeriiu que se comemorasse o seu primeiro nascimento do ventre de Maria. Com isso, vemos a clara alusão que Jesus faz a este novo nascimento como sendo aquele no qual se dará sua constituição como definitivamente Cristificado, a partir do qual ele se tornará a lâmpada que emite a luz de Deus, para usar a imagem do Apocalipse. O nascimento da Luz Crística, ou seja, a disponibilização desta Luz para todos os Homens, se dará somente depois de Jesus passar pela Nova Geração, por meio da qual lhe é dada a vitória sobre a morte-tempo e que lhe possibilita, logo depois, segundo os relatos dos Evangelhos, enviar, irradiar, emitir a sua Luz Crística, representada sob o símbolo do Espírito Santo (Espírito em grego é pneuma = sopro, vento, ar, hálito; Santo, em grego é hagios, aquilo que está relacionado com a manifestação de Deus).

Assim, refletindo sobre a utilização deste símbolo do dia 25 de dezembro como solstício associado a Jesus, o Novo Nascimento, o Nascimento da Luz, logo após a noite mais longa, teria então, muito melhor significado não associado ao nascimento do infante Jesus, do recém-nascido filho de Maria e de José, mas sim ao representar o seu Nascimento em Condição totalmente Crística, de filho da Luz, de Lucificado. Poderíamos, de certa maneira, dizer que o Cristo nasce com a Nova Geração de Jesus, pois só então é que ele está totalmente e definitivamente Lucificado, Cristificado, Eternizado como Filho de Deus. O solsticio, assim, seria a representação do período em que Jesus permaneceu morto, em que as trevas aparentemente são vencedoras, mas que apenas ocultam a sua preparação para o novo nascimento como o Sol Invicto da Justiça.

Desta maneira, a melhor aplicação para o dia 25 de Dezembro, que é o dia que sucede a noite mais longa do ano, e que representa a vitória da luz sobre as trevas, do Sol da Justiça que prevalece sobre as trevas da noite, deveria ser o de simbolizar, de indicar, o nascimento do Cristo-Luz, e portanto, também o nosso segundo nascimento pelo nascimento do Cristo em nós, o nascimento da Luz Crística em nossas consciências.

O dia 25 de Dezembro ganharia seu melhor sentido ao significar o novo nascimento do Cristo-Luz e o nascimento da Luz do Cristo em nós.

José Luiz Bueno

individualidade, liberdade, contingência