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Como sementes…

Gosto de avaliar as propostas das correntes e escolas de conhecimento da antigüidade que chegam aos nosso dias com muito do vigor com que surgiram milênios atrás, e que tratam de compreender a natureza humana em seus potenciais.

Algumas são atraentes pois, apesar de levarem em consideração os avanços do conhecimento científico e os muitos percalços e o desenvolvimento do pensamento filosófico, não estão condicionadas nem limitadas pelos parâmetros das ciências duras, em nem, em especial das ciências humanas, que querem reduzir toda a experiência humana ao conceito de cultura.

Um estudioso alemão, historiador, filólogo e filósofo da religião, especialista no mundo grego antigo, que trabalhou na primeira metado do século XX, chamado Walter Otto, diz que a consciência utilitarista e voltada a resultados de nosso tempo, em especial a dos cientistas e eruditos acadêmicos, perdeu os parâmetros e o alcance para perceber, intuir, compreender as visões de mundo da antigüidade, em especial aquelas que vêem o homem inserido num cosmos mais amplo, povoado de seres míticos, divinos, de forças não-naturais (ou ao menos, de forças naturais onde “natureza” é algo muito mais amplo do que a ciência atual define), muito mais complexo e rico de dimensões e aspectos do que este em que nos vemos neste século.

O que é interessante nestas concepções antropológicas da antigüidade é que o homem é visto, compreendido, pensado a partir de parâmetros muito mais variados que os das ciência do Homem de nosso tempo. O Ser Humano é visto sob aspectos que hoje são descartados ou são impensáveis pelas ciências reducionistas e pelas filosofias mais materialistas ou utilitárias. A riqueza da vida humana, em seus aspectos sublimes e trágicos, é vista como parte de um universo de leis vivas muito amplas e profundas, de influxos na natureza a partir de fontes extra-materiais, de interações como o Homem de forças não compreensíveis a partir de uma visão apenas descritiva e quantitativa do Universo e da Homem.

Segundo Walter Otto, a pobreza da visão contemporânea sobre a antigüidade pode ser percebida quando um estudioso analisa qualquer mito, ou rito antigo, e espera ver neles uma função utilitária, isto é, que os homens as realizavam ou preservavam com a finalidade de obter algum benefício material, seja nas colheitas, seja na reprodução de seus animais, seja na fertilidade das mulheres e etc..

E uma das visões mais atraentes com relação ao ser humano é aquela que o compara a uma semente. Nesta forma de ver o Ser Humano nesta sua existência temporal, vê-se nele não a sua forma final, isto é, não um ser acabado no sentido de ter atingido seu estágio final de desenvolvimento. E nem, tampouco, como a forma degenerada de algo superior, de um estado mais elevado, que foi perdido quando o Homem passou a viver neste plano terrestre e que teria jogado o homem nesta que seria um condição inferior.

A visão alegórica do Homem (do Ser Humano) como uma semente mostra que a sua condição atual é necessária, é um estágio natural de sua condição, e que já demonstra, por sí, um ganho. Da inexistência, surge o indivíduo na condição de semente existente.

E toda semente tem a possibilidade de prosseguir na existência e no ser e de se converter em algo mais complexo e completo, de se desenvolver e atingir uma condição que no presente estágio é apenas potencial, mas que pode vir a ser atual.

A tragédia humana desta existência, quando vista sob o prisma de uma visão do Humano atual como semente, toma um sentido muito rico. Nada das dificuldades, sofrimentos, desgastes, lutas, oposições, que o Homem sofre são tiradas, nem mitigadas, mas também não são convertidas aos parâmetros de mérito e culpa. Todos os fatores e processos que agem sobre o Humano neste estágio são necessários no sentido de que sem eles a semente não se desenvolve. Claro está que estes mesmos processos podem fazer com que a semente se extinga sem “vingar”, sem se atualizar naquilo que, agora, ainda é potencial.

E um dos acontecimentos mais definidores do Humano, que é a “morte”, encontra seu lugar num processo que não extingue a semente, mas faz com que ela, morrendo, rompendo com a condição atual deste estágio, possa se transformar, possa iniciar o novo estágio do caminho em direção a se tornar uma “planta” madura. Sem os elementos atuais necessários ao seu crescimento (terra, água, luz, nutrientes) a semente não chega ao estágio de completude seminal. Mas, também, sem a morte, estes elementos não são processados para levá-la à condição de planta, de árvore. Mas, a morte, inexorável, pode chegar a uma semente que não adquiriu os nutrientes suficientes, ou que não resistiu às intempéries da existência. Tudo isso, ao final, dará um de dois resultados: extinção ou planta madura.

É como se o vivo, o existente individual, estivesse sempre diante de suas duas possibilidades: extinguir-se ou atingir seu potencial, e sabendo que o vivo morre, mas a Vida não morre. E que, com a morte, o vivo vai em direção à Vida, cada vez mais.

Por isso, vejo que algumas propostas de descrição do homem, mesmo algumas já da antigüidade, se empobrecem quando tiram o homem atual do resultado final, como se o homem, em vez de semente completa, fosse apenas a casca de um algo, a casca de um núcleo que não é daqui e que não vai ficar aqui, independentemente do que se passar com a casca. Esta visão, do homem como invólucro de algo que não é ele mesmo e que, ao mesmo tempo, se manifesta através dele como simples “roupagem”, é estranha pois tira muito do sentido e do brilho da vida potencial. Por mais que o indivíduo faça, nada que ele faça tem alguma importância pois ele é apenas veículo de algo que não é ele mesmo.

A semente não é causa de si mesma, mas foi constituída de tal maneira que pode se desenvolver e ultrapassar os estágios atuais e prosseguir em direção a algo inusitado, ou ao menos, no máximo sentido, intuido. E ao mesmo tempo, encara o desafio de estar diante da extinção.

O fato de a semente prosseguir, na forma de planta madura, integra a vida atual no processo todo. A vida atual não é descartada, nem desconsiderada, nem desvalorizada em função do passado nem do futuro. O que é vivido agora permeia o futuro e o atemporal. O agora está integrado ao futuro. A semente não tem que esperar a morte, mas tem que viver bem para morrer bem. Isso me lembra algumas frases de Huberto Rohden.

Nos textos que relatam os ensinos de Jesus, o Cristo, aparece a imagem da semente: “se o grão de trigo não morrer, não dará fruto, mas, quando morrer, dará muito fruto”. Eis aí a mais bela síntese desta imagem do Humano como semente na qual, o vivo, morrendo, não deixa de viver, mas de “vivo” caminha em direção à “Vida”.

Potenciais

Não consigo entender estes raciocínios filosóficos, científicos, ou de botequim, que têm como foco principal a desvalorização do ser humano. Não é mais necessário ficar advogando a posição de “centro do Universo” para a Humanidade. Mas, por outro lado, reputar a vida humana, o indivíduo humano, como porção desprezível do universo, é também algo para não se aceitar.

Continuamos sendo a única manifestação de vida (conhecida) que sofre por saber de sua própria condição de maldade. Somos a única forma de vida que espera a própria morte, que pensa sobre ela, que lida com ela através das muitas fórmulas e preceitos religiosos, metafísicos, sociais e culturais. Somos a única forma viva que integra os mortos em sua vida coletiva.

Somos a única forma consciente de vida que se pergunta sobre si mesmo, que sabe de si mesmo, que olha para si e na qual cada representante vê em si mesmo um “indivíduo”, que se faz auto-consciente e consciente de que há um “outro” do qual é distinto, seja um semelhante, seja o mundo, seja Deus.

Entender e ressaltar o valor da vida e consciência humanas nada tem que ver com a argumentação e crítica daqueles que temem esta valorização como disfarce para a justificativa da maldade que é intrínseca à natureza humana. Somos uma forma de vida que tem a possibilidade de se transformar. O potencial que temos para o bem e para o mal é o maior tesouro da natureza humana. Pode o indivíduo saber-se mau, saber-se agente do mal, mas ao mesmo tempo, pode querer e tomar a decisão de mudar, pode sincera e conscientemente mudar este rumo, pode lograr deixar para trás um estado ou atitude de maldade e transformar-se em um agente gerador de pensamentos, sentimentos e atos construtivos, altruístas, fraternos. Ou pode seguir lutando com esta inconstância e oscilação, pois apesar de saber-se potencialmente tanto bom como mau, pode não ter o controle de suas próprias emoções e reações, mas pode decidir-se a trabalhar sobre elas para construir um estado de maior constância no bem.

O ser humano não está determinado mecanica e automaticamente, nem para o bem nem para o mal. Sua estrutura lhe permite usar da vontade e da consciência de si para promover mudanças de rumo, de objetivo, de qualidade.

Encontramos na chamada “natureza” uma harmonia entre seus organismos que é espantosa. O plano inanimado como suporte para a vida; os planos de vida em seus diferentes graus de consciência (o que inclui os que não a possuem) se coordenam num grande ciclo de integração que envolve a desapaixonada cadeia alimentar, onde não se nota o ódio numa espécie que caça a outra para sobreviver, mas uma força instintiva, não consciente, que impõe a integração e a harmonia, ainda que através da ação de predadores e de presas. É uma harmonia “mecanicamente disposta”. Sua coesão e coerência se faz por forças inconscientes, instintivas, “naturais”. Podemos notar que não há uma decisão consciente neste planos em ser justo quando se caça ou em ser mau quando se come uma presa, ou que é uma maldade ser perseguido por um predador.

Nós, humanos, somos o ponto fora da curva. Caçamos por fome, mas também por prazer ou por ódio. Coletamos para sobreviver mas também para vender e enriquecer. Desmatamos para plantar ou apenas para o deleite egoístico. Sim, fazemos, ou melhor, podemos fazer tudo isso. Mas, isso mesmo, estes mesmos fatos, nos fazem perceber que não somos determinados para o bem nem para o mal, mas podemos nos encaminhar para um ou para outro por decisão própria. E mesmo que tenhamos decidido e ido em alguma destas direções, ela não está determinada inexoravelmente até o final de nossa existência individual. Enquanto vivos, podemos mudá-la. E mudá-la de novo, e de novo, e de novo…

Não é isto a mais espantosa capacidade? Não é isto um de nossos mais destacados diferenciais? Não é esta capacidade o nosso tesouro? Nossa responsabilidade e privilégio? E talvez nossa bênção e nossa maldição? Mas, o fato de ser abençoado ou amaldiçoado nos dá a visão das nossas potencialidades. E estas potencialidade, como tesouro diferencial que temos, nos dá a dimensão da nossa importância. Somos o centro do universo? Já temos as respostas consagradas. Mas, ao mesmo tempo, não somos o desprezível monturo de pó descartado de estrelas. Dizem alguns poetas e místicos que há seres da pleni-luz e da trevas totais, mas que somente o homem oscila entre ambas, entre a luz e as trevas. Huberto Rohden em um de seus poemas místicos diz que o homem mais sublime que já viveu foi representado erguido na cruz, ainda abaixo do céu mas já acima da terra, que a cruz seria este símbolo do encontro nele, Homem no mais pleno sentido da expressão, da verticalidade Crística com a horizontalidade do tempo-espaço.

Vida. Consciência. Liberdade. Potencialidade para o bem e para o mal. Assim somos nós. E diante de nós, mm permanente abismo de possibilidades, sempre à nossa frente, a cada passo neste caminho da existência. Sempre diante do êxtase e da vertigem. Há ainda quem prefira ser pedra, planta ou animal diante disso?