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A última liberdade

Novamente, um texto de Viktor Frankl, o criador da Logoterapia, me toca em um trecho extraído de sua obra “Man’s Search for Meaning” . Nesta obra, Frankl relata sua experiência nos campos de concentração nazista e expõe as experiências que fundamentaram o desenvolvimento da sua técnica psicoterapêutica. Permitam-me, uma vez mais, uma citação um tanto longa:

“We can answer these questions from experience as well as on principle. The experiences of camp life show that man does have a choice of action. There were enough examples, often of a heroic nature, which proved that apathy could be overcome, irritability suppressed. Man can preserve a vestige of spiritual freedom, of independence of mind, even in such terrible conditions of psychic and physical stress.

We who lived in concentration camps can remember the men who walked through the huts comforting others, giving away their last piece of bread. They may have been few in number, but they offer sufficient proof that everything can be taken from a man but one thing: the last of the human freedoms – to choose one’s attitude in any given set of circumstances, to choose one’s own way.

And there were always choices to make. Every day, every hour, offered the opportunity to make a decision, a decision which determined whether you would or would not submit to those powers which threatened to rob you of your very self, your inner freedom; which determined whether or not you would become the plaything of circumstance, renouncing freedom and dignity to become molded into the form of the typical inmate.” **

Frankl, nos campos de concentração, se vê frente a um tipo de situação que muitos descrevem como a exata impossibilidade de se poder ter liberdade ou a capacidade de fazer escolhas. Como um homem totalmente privado de sua liberdade de movimento, privado de sua dignidade, separado de tudo e de todos com quem construíra sua história pessoa, pode ter alguma possibilidade de fazer escolhas? Uma vida que pode ser extinguida por um simples ato de vontade ou, pior, por um ato da mais absoluta indiferença executado por seus algozes. Uma vida podia ser extirpada sem nenhuma razão particular, sem um sentido para aquela ação, sem uma explicação. Apesar disso, seu dia-a-dia era absolutamente controlado e definido pelas tarefas e pelos comandos dos dirigentes dos campos, fossem os soldados do exército nazista alemão, fossem os ‘capos’, prisioneiros a quem eram atribuídas funções de supervisão e que comandavam os alojamentos com mão de ferro mais pesada que as dos próprios soldados alemães.

Estes prisioneiros não tinham direito a nada. Não podiam falar, comer, descansar, trabalhar, olhar para qualquer lugar, ajudar um outro, ler, reclamar, ficar doentes, nada… Em tudo dependiam da permissão violentamente indolente dos soldados ou dos ‘capos’. Como se pode pensar que homens naquela condição tivessem alguma escolha para o que quer que fosse?

Frankl encontra na sua observação dos prisioneiros, e na observação de si mesmo, a resposta a esta questão. Segundo sua própria experiência, ele via que em seu interior, assim como nos demais, havia uma região do ser que não era prisioneira de nada nem de ninguém. Ainda que muitos, talvez mesmo a grande maioria dos prisioneiros nem se dessem conta disso, todos tinham em seu íntimo a liberdade última, a liberdade que Frankl chama de “spiritual freedom”, uma liberdade de espírito, que mesmo nas mais terríveis condições podia ser preservada. Sempre o indivíduo podia escolher a atitude que iria adotar diante do fato inexorável. Se o fato em si era imutável, sua reação interna, sua atitude diante dele sempre poderia ser escolhida.

Parece que as condições de extrema penúria e falta de dignidade em que viviam os prisioneiros tinham como resultado uma derrocada da auto-imagem construída ou recebida por cada um. Esta destruição da imagem social do prisioneiro era realizada à sua revelia. Ele não pedia por isso. Não obstante, o esfacelamento desta auto-imagem era levado a cabo. Porém, este processo primariamente destrutivo, em alguns casos permitia que o próprio prisioneiro, como indivíduo, tivesse acesso à sua interioridade, ao seu “si-mesmo” sem máscaras nem autoimagens preconcebidas. Ele podia ver a si mesmo na sua interioridade nua. Alguns nem se deram conta de que possuíam essa interioridade cheia de vida e significado. Mas alguns perceberam. E estes que a perceberam a preservaram; e tinham nessa interioridade o núcleo e sustentação de sua vida, de sua individualidade, de sua liberdade. Sua mente podia ser independente, apesar das condições adversas do ambiente. Frankl não diz que isso era fácil, nem automático. Mas que sempre esta possibilidade estava ao seu alcance e de cada um daqueles homens e mulheres.

Frankl afirma que cada homem, todos os dias, podia tomar novas decisões internas, a cada nova circunstância. Esta decisão, esta escolha, se referia a abdicar de vez de sua liberdade interna, tomando a forma disforme dos internos destruídos interiormente, ou de manter a liberdade interna e manter seu caráter, sua liberdade espiritual, de manter íntegro seu “self”.

Os “pequenos” atos heróicos que eram praticados diariamente, quando alguém, por exemplo, doava a outro sua única porção de alimento diário, um pedaço de pão, para confortar alguém, demonstravam que essa liberdade interna, esta mente não entregue aos algozes, mantinha-se livre e independente, apesar do estresse físico e emocional de todos os dias.

É impressionante esta constatação de Frankl. Não é para menos que ele teve tanto material para desenvolver sua técnica terapêutica e sua filosofia de vida e trabalho. Um descobrimento, uma constatação deste porte sobre a natureza humana é para se tornar um marco na história do conhecimento do homem sobre si mesmo. Uma lição para nós, seres da época da comunicação de massa, do marketing agressivo, do consumismo, da cultura de superficialidade, da moda, das necessidades de integração aos grupos sociais. Uma época em que parece que a maioria dos indivíduos humanos abdicou de sua liberdade interna, de sua independência mental, por tão pouco. Menos até mesmo que o prato de lentilha da antiga história bíblica.

Leia-se Vitor Frankl nos nossos dias. Vigorosamente. Quem sabe muitos comecem a despertar deste sono da entrega do seu tesouro de liberdade interna aos mecanismos culturais e mercadológicos. Despertemos!

** (FRANKL, Viktor  E.,  Man’s Search for Meaning, New York: Washington Square Press, 1985, pp 86-87)

Viktor Frankl e a tensão necessária

Permitam-me uma citação um tanto longa do livro de Viktor Frankl, Man’s Search for Meaning (A busca do Homem por sentido), obra em que descreve sua experiência pessoal como prisioneiro nos campos de concentração nazistas e na qual descreve as linhas gerais da técnica psicoterapêutica desenvolvida por ele mesmo, chamada de Logoterapia:

(…)mental health is based on a certain degree of tension, the tension between what one has already achieved and what one still ought to accomplish, or the gap between what one is and what one should become. Such a tension is inherent in the human being and therefore is indispensable to mental well-being. We should not, then, be hesitant about challenging man with a potential meaning for him to fulfill. It is only thus that we evoke his will to meaning from its state of latency.

I consider it a dangerous misconception of mental hygiene to assume that what man needs in the first place is equilibrium or, as it is called in biology, “homeostasis,” i.e., a tensionless state. What man actually needs is not a tensionless state but rather the striving and struggling for a worthwhile goal, a freely chosen task. What he needs is not the discharge of tension at any cost but the call of a potential meaning waiting to be fulfilled by him. What man needs is not homeostasis but what I call “noödynamics,” i.e., the existential dynamics in a polar field of tension where one pole is represented by a meaning that is to be fulfilled and the other pole by the man who has to fulfill it”.

(FRANKL, Viktor  E.,  Man’s Search for Meaning, New York: Washington Square Press, 1985 , pg 127)

A objetividade de Frankl é de impressionar. À primeira vista, poderia parecer que o mais fácil seria mesmo que seu método terapêutico, por ter grande base na experiência vivida pelos prisioneiros dos campos de concentração nazista, buscasse imediatamente o momento de equilíbrio, da pacificação interna, de resolução dos conflitos.

Mas, ao ler-se sua obra pode-se constatar que Frankl demonstra ser muito mais importante e poderoso que o indivíduo compreenda ou possa atribuir um significado à sua experiência de vida, especialmente quando se trata da vivência do sofrimento. Quando se trata de um sofrimento extremo, torna-se ainda mais evidente esta necessidade. Nestes casos, segundo o que Frankl demonstra, a falta de um significado, a falta de algo que faça com que um indivíduo olhe para o futuro e veja um sentido em estar vivo, tira-lhe as forças mais profundas de seu ser, necessárias para enfrentar a experiência existencial do sofrimento. Se a pessoa percebe um significado no que está vivendo, suas forças internas ganham uma dimensão absolutamente nova e que podem significar a diferença entre permanecer vivo ou não, ou permanecer vivo e são, ou não.

Vemos no trecho acima que a própria tensão interna ao indivíduo é necessária para que o significado latente possa ser explicitado. A tensão entre o que já se alcançou e o que ainda está por ser realizado, assim como a tensão entre o que já se é e o que se pode ou deve tornar-se. A tensão cria a possibilidade do movimento. O equilíbrio, neste caso, é o contrário do movimento. É preciso que haja dois pólos diferentes em natureza, em desequilíbrio entre si,  para que se manifeste o movimento de um para o outro. No caso da tensão psíquica e espiritual, a presença de um significado, ou de uma meta, é o elemento instaurador da tensão e gerador do movimento. Um indivíduo sem esta tensão interna, em termos psíquicos ou espirituais, está praticamente morto, sem movimento. Frankl chega a afirmar que esta tensão é “indispensável” à saúde psíquica.

No relato que faz em seu livro, em vários momentos constatou em si mesmo, e em outros indivíduos também, esta sua teoria. Frankl diz em seu livro que os mais aptos a sobreviverem às condições extremas de stress psicológico e físico dos campos nazistas eram aqueles que conseguiam fazer daquele terrível sofrimento um elemento para seu crescimento psíquico-espiritual (espiritual aqui tem um sentido existencial além do sentido religioso). Estes indivíduos viam algum significado naquilo ou então tinham algo em vista que os fazia olhar para o futuro e ter uma razão para suportar o sofrimento e querer sobreviver a ele.

Frankl não concebe como saudável adquirir uma paz interna sem enfrentar a tensão. Ele afirma que nem mesmo é saudável a imediata descarga das tensões e alcançar o equilíbrio “a qualquer preço”. É necessário desafiar o indivíduo com um significado ou uma meta que ponha sua dinâmica psíquica em ação, em direção a esta meta. O pensamento de Frankl é uma importante demonstração de que as ofertas de “pílulas” de “paz interna sem esforço”, vendidas em muitos formatos e apresentações em nosso sistema de mercado livre, são muito mais um sistema de camuflagem de problemas. Cedo ou tarde, este sistema cobra um grande preço do indivíduo em termos de sua sanidade.

A tensão, o desequilíbrio é necessário. É obvio que Frankl não está dizendo que é necessário criar um desequilíbrio como foi o caso extremo dos campos de concentração. Ele está dizendo que o desequilíbrio é necessário para que a própria dinâmica viva se manifeste. É preciso compreender a presença deste desequilíbrio e extrair dele as forças para uma vida produtiva e criativa. E a melhor forma de manifestar estas forças latentes do ser humano é apresentar-lhe a necessidade de encontrar significados e metas para sua vida.

O exemplo do desequilíbrio útil é encontrado nas formas de geração de energia. Em eletricidade, por exemplo, fala-se da diferença de potencial. O exemplo clássico é o da queda de água que é utilizada para movimentar os geradores de energia. Um plácido lago ou um calmo rio não servem para geração de energia.

É possível a um ser humano viver saudavelmente sem um sentido para sua vida? É possível viver sem objetivos? É possível viver em um estado interno de ausência de movimento, de tensão? Vale a pena viver assim?

Nossa pretensa racionalidade e objetividade contemporâneas, principalmente quando se apresenta com seu sotaque cientificista, aprecia a afirmação de que não há significado para nada, de que viver não tem sentido. Sem querer entrar agora na discussão das teleologias, pode-se ver que esta é uma proposta que induz à insanidade psíquica, segundo o que vimos com Frankl.

O que está aqui sendo chamado de tensão não é este sentido popular de uma sensação de expectativa com retesamento de músculos, mas trata-se de uma assimetria entre a situação presente e uma situação futura ou potencial, distinta da atual. Esta assimetria permite visualizar um horizonte para o viver, em uma perspectiva de algo a ser alcançado a partir do vivido no passado ou no presente.

Nada mais triste que uma existência passada mecanicamente, como um simples intervalo cheio de percalços entre o momento do nascimento e o da morte. É claro que muitas pessoas “inteligentes” acham que a existência humana é isso. Se vivem dessa forma os que assim pensam, isso fica para ser conferido.

A proposta de Frankl permite intuir um valor muito especial na sabedoria antiga quando, em seus inspirados relatos, registrados nos grandes textos, em especial os sagrados, indica que há um significado para a existência humana. Um significado que pode colocar em perspectiva tanto o sofrimento quanto as alegrias. Um significado, que também é meta, que cria uma polaridade, um desequilíbrio extremamente produtivo. Pense-se em especial na frase “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Entendida como a descrição de uma meta que atribui significado à vida humana, sua possibilidade de geração de uma dinâmica interna criativa é enorme. O fato de propor uma meta não faz que este texto elimine ou desconsidere a situação humana de fragilidade, insuficiência, instabilidade. Ao contrário, permite ao homem ao menos pensar na possibilidade de algo melhor poder ser extraído da presente vida, sempre cheia de dificuldades e percalços e de algumas alegrias. Algo que, dadas as implicações da frase, nem precisa ficar preso apenas a esperanças futuras de transcendência. Algo de valor existencial presente. Fica aí a sugestão para uma longa reflexão.