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Viktor Frankl e a tensão necessária

Permitam-me uma citação um tanto longa do livro de Viktor Frankl, Man’s Search for Meaning (A busca do Homem por sentido), obra em que descreve sua experiência pessoal como prisioneiro nos campos de concentração nazistas e na qual descreve as linhas gerais da técnica psicoterapêutica desenvolvida por ele mesmo, chamada de Logoterapia:

(…)mental health is based on a certain degree of tension, the tension between what one has already achieved and what one still ought to accomplish, or the gap between what one is and what one should become. Such a tension is inherent in the human being and therefore is indispensable to mental well-being. We should not, then, be hesitant about challenging man with a potential meaning for him to fulfill. It is only thus that we evoke his will to meaning from its state of latency.

I consider it a dangerous misconception of mental hygiene to assume that what man needs in the first place is equilibrium or, as it is called in biology, “homeostasis,” i.e., a tensionless state. What man actually needs is not a tensionless state but rather the striving and struggling for a worthwhile goal, a freely chosen task. What he needs is not the discharge of tension at any cost but the call of a potential meaning waiting to be fulfilled by him. What man needs is not homeostasis but what I call “noödynamics,” i.e., the existential dynamics in a polar field of tension where one pole is represented by a meaning that is to be fulfilled and the other pole by the man who has to fulfill it”.

(FRANKL, Viktor  E.,  Man’s Search for Meaning, New York: Washington Square Press, 1985 , pg 127)

A objetividade de Frankl é de impressionar. À primeira vista, poderia parecer que o mais fácil seria mesmo que seu método terapêutico, por ter grande base na experiência vivida pelos prisioneiros dos campos de concentração nazista, buscasse imediatamente o momento de equilíbrio, da pacificação interna, de resolução dos conflitos.

Mas, ao ler-se sua obra pode-se constatar que Frankl demonstra ser muito mais importante e poderoso que o indivíduo compreenda ou possa atribuir um significado à sua experiência de vida, especialmente quando se trata da vivência do sofrimento. Quando se trata de um sofrimento extremo, torna-se ainda mais evidente esta necessidade. Nestes casos, segundo o que Frankl demonstra, a falta de um significado, a falta de algo que faça com que um indivíduo olhe para o futuro e veja um sentido em estar vivo, tira-lhe as forças mais profundas de seu ser, necessárias para enfrentar a experiência existencial do sofrimento. Se a pessoa percebe um significado no que está vivendo, suas forças internas ganham uma dimensão absolutamente nova e que podem significar a diferença entre permanecer vivo ou não, ou permanecer vivo e são, ou não.

Vemos no trecho acima que a própria tensão interna ao indivíduo é necessária para que o significado latente possa ser explicitado. A tensão entre o que já se alcançou e o que ainda está por ser realizado, assim como a tensão entre o que já se é e o que se pode ou deve tornar-se. A tensão cria a possibilidade do movimento. O equilíbrio, neste caso, é o contrário do movimento. É preciso que haja dois pólos diferentes em natureza, em desequilíbrio entre si,  para que se manifeste o movimento de um para o outro. No caso da tensão psíquica e espiritual, a presença de um significado, ou de uma meta, é o elemento instaurador da tensão e gerador do movimento. Um indivíduo sem esta tensão interna, em termos psíquicos ou espirituais, está praticamente morto, sem movimento. Frankl chega a afirmar que esta tensão é “indispensável” à saúde psíquica.

No relato que faz em seu livro, em vários momentos constatou em si mesmo, e em outros indivíduos também, esta sua teoria. Frankl diz em seu livro que os mais aptos a sobreviverem às condições extremas de stress psicológico e físico dos campos nazistas eram aqueles que conseguiam fazer daquele terrível sofrimento um elemento para seu crescimento psíquico-espiritual (espiritual aqui tem um sentido existencial além do sentido religioso). Estes indivíduos viam algum significado naquilo ou então tinham algo em vista que os fazia olhar para o futuro e ter uma razão para suportar o sofrimento e querer sobreviver a ele.

Frankl não concebe como saudável adquirir uma paz interna sem enfrentar a tensão. Ele afirma que nem mesmo é saudável a imediata descarga das tensões e alcançar o equilíbrio “a qualquer preço”. É necessário desafiar o indivíduo com um significado ou uma meta que ponha sua dinâmica psíquica em ação, em direção a esta meta. O pensamento de Frankl é uma importante demonstração de que as ofertas de “pílulas” de “paz interna sem esforço”, vendidas em muitos formatos e apresentações em nosso sistema de mercado livre, são muito mais um sistema de camuflagem de problemas. Cedo ou tarde, este sistema cobra um grande preço do indivíduo em termos de sua sanidade.

A tensão, o desequilíbrio é necessário. É obvio que Frankl não está dizendo que é necessário criar um desequilíbrio como foi o caso extremo dos campos de concentração. Ele está dizendo que o desequilíbrio é necessário para que a própria dinâmica viva se manifeste. É preciso compreender a presença deste desequilíbrio e extrair dele as forças para uma vida produtiva e criativa. E a melhor forma de manifestar estas forças latentes do ser humano é apresentar-lhe a necessidade de encontrar significados e metas para sua vida.

O exemplo do desequilíbrio útil é encontrado nas formas de geração de energia. Em eletricidade, por exemplo, fala-se da diferença de potencial. O exemplo clássico é o da queda de água que é utilizada para movimentar os geradores de energia. Um plácido lago ou um calmo rio não servem para geração de energia.

É possível a um ser humano viver saudavelmente sem um sentido para sua vida? É possível viver sem objetivos? É possível viver em um estado interno de ausência de movimento, de tensão? Vale a pena viver assim?

Nossa pretensa racionalidade e objetividade contemporâneas, principalmente quando se apresenta com seu sotaque cientificista, aprecia a afirmação de que não há significado para nada, de que viver não tem sentido. Sem querer entrar agora na discussão das teleologias, pode-se ver que esta é uma proposta que induz à insanidade psíquica, segundo o que vimos com Frankl.

O que está aqui sendo chamado de tensão não é este sentido popular de uma sensação de expectativa com retesamento de músculos, mas trata-se de uma assimetria entre a situação presente e uma situação futura ou potencial, distinta da atual. Esta assimetria permite visualizar um horizonte para o viver, em uma perspectiva de algo a ser alcançado a partir do vivido no passado ou no presente.

Nada mais triste que uma existência passada mecanicamente, como um simples intervalo cheio de percalços entre o momento do nascimento e o da morte. É claro que muitas pessoas “inteligentes” acham que a existência humana é isso. Se vivem dessa forma os que assim pensam, isso fica para ser conferido.

A proposta de Frankl permite intuir um valor muito especial na sabedoria antiga quando, em seus inspirados relatos, registrados nos grandes textos, em especial os sagrados, indica que há um significado para a existência humana. Um significado que pode colocar em perspectiva tanto o sofrimento quanto as alegrias. Um significado, que também é meta, que cria uma polaridade, um desequilíbrio extremamente produtivo. Pense-se em especial na frase “façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Entendida como a descrição de uma meta que atribui significado à vida humana, sua possibilidade de geração de uma dinâmica interna criativa é enorme. O fato de propor uma meta não faz que este texto elimine ou desconsidere a situação humana de fragilidade, insuficiência, instabilidade. Ao contrário, permite ao homem ao menos pensar na possibilidade de algo melhor poder ser extraído da presente vida, sempre cheia de dificuldades e percalços e de algumas alegrias. Algo que, dadas as implicações da frase, nem precisa ficar preso apenas a esperanças futuras de transcendência. Algo de valor existencial presente. Fica aí a sugestão para uma longa reflexão.

Potenciais

Não consigo entender estes raciocínios filosóficos, científicos, ou de botequim, que têm como foco principal a desvalorização do ser humano. Não é mais necessário ficar advogando a posição de “centro do Universo” para a Humanidade. Mas, por outro lado, reputar a vida humana, o indivíduo humano, como porção desprezível do universo, é também algo para não se aceitar.

Continuamos sendo a única manifestação de vida (conhecida) que sofre por saber de sua própria condição de maldade. Somos a única forma de vida que espera a própria morte, que pensa sobre ela, que lida com ela através das muitas fórmulas e preceitos religiosos, metafísicos, sociais e culturais. Somos a única forma viva que integra os mortos em sua vida coletiva.

Somos a única forma consciente de vida que se pergunta sobre si mesmo, que sabe de si mesmo, que olha para si e na qual cada representante vê em si mesmo um “indivíduo”, que se faz auto-consciente e consciente de que há um “outro” do qual é distinto, seja um semelhante, seja o mundo, seja Deus.

Entender e ressaltar o valor da vida e consciência humanas nada tem que ver com a argumentação e crítica daqueles que temem esta valorização como disfarce para a justificativa da maldade que é intrínseca à natureza humana. Somos uma forma de vida que tem a possibilidade de se transformar. O potencial que temos para o bem e para o mal é o maior tesouro da natureza humana. Pode o indivíduo saber-se mau, saber-se agente do mal, mas ao mesmo tempo, pode querer e tomar a decisão de mudar, pode sincera e conscientemente mudar este rumo, pode lograr deixar para trás um estado ou atitude de maldade e transformar-se em um agente gerador de pensamentos, sentimentos e atos construtivos, altruístas, fraternos. Ou pode seguir lutando com esta inconstância e oscilação, pois apesar de saber-se potencialmente tanto bom como mau, pode não ter o controle de suas próprias emoções e reações, mas pode decidir-se a trabalhar sobre elas para construir um estado de maior constância no bem.

O ser humano não está determinado mecanica e automaticamente, nem para o bem nem para o mal. Sua estrutura lhe permite usar da vontade e da consciência de si para promover mudanças de rumo, de objetivo, de qualidade.

Encontramos na chamada “natureza” uma harmonia entre seus organismos que é espantosa. O plano inanimado como suporte para a vida; os planos de vida em seus diferentes graus de consciência (o que inclui os que não a possuem) se coordenam num grande ciclo de integração que envolve a desapaixonada cadeia alimentar, onde não se nota o ódio numa espécie que caça a outra para sobreviver, mas uma força instintiva, não consciente, que impõe a integração e a harmonia, ainda que através da ação de predadores e de presas. É uma harmonia “mecanicamente disposta”. Sua coesão e coerência se faz por forças inconscientes, instintivas, “naturais”. Podemos notar que não há uma decisão consciente neste planos em ser justo quando se caça ou em ser mau quando se come uma presa, ou que é uma maldade ser perseguido por um predador.

Nós, humanos, somos o ponto fora da curva. Caçamos por fome, mas também por prazer ou por ódio. Coletamos para sobreviver mas também para vender e enriquecer. Desmatamos para plantar ou apenas para o deleite egoístico. Sim, fazemos, ou melhor, podemos fazer tudo isso. Mas, isso mesmo, estes mesmos fatos, nos fazem perceber que não somos determinados para o bem nem para o mal, mas podemos nos encaminhar para um ou para outro por decisão própria. E mesmo que tenhamos decidido e ido em alguma destas direções, ela não está determinada inexoravelmente até o final de nossa existência individual. Enquanto vivos, podemos mudá-la. E mudá-la de novo, e de novo, e de novo…

Não é isto a mais espantosa capacidade? Não é isto um de nossos mais destacados diferenciais? Não é esta capacidade o nosso tesouro? Nossa responsabilidade e privilégio? E talvez nossa bênção e nossa maldição? Mas, o fato de ser abençoado ou amaldiçoado nos dá a visão das nossas potencialidades. E estas potencialidade, como tesouro diferencial que temos, nos dá a dimensão da nossa importância. Somos o centro do universo? Já temos as respostas consagradas. Mas, ao mesmo tempo, não somos o desprezível monturo de pó descartado de estrelas. Dizem alguns poetas e místicos que há seres da pleni-luz e da trevas totais, mas que somente o homem oscila entre ambas, entre a luz e as trevas. Huberto Rohden em um de seus poemas místicos diz que o homem mais sublime que já viveu foi representado erguido na cruz, ainda abaixo do céu mas já acima da terra, que a cruz seria este símbolo do encontro nele, Homem no mais pleno sentido da expressão, da verticalidade Crística com a horizontalidade do tempo-espaço.

Vida. Consciência. Liberdade. Potencialidade para o bem e para o mal. Assim somos nós. E diante de nós, mm permanente abismo de possibilidades, sempre à nossa frente, a cada passo neste caminho da existência. Sempre diante do êxtase e da vertigem. Há ainda quem prefira ser pedra, planta ou animal diante disso?