Luiz Felipe Pondé – “Mrs. Dalloway”

Artigo publicado na Folha de São Paulo, segunda-feira, 12 de abril de 2010.

LUIZ FELIPE PONDÉ

“Mrs. Dalloway”

Ver a si mesma como estrangeira na própria alma é o pesadelo da personagem
de Woolf

MORAVA EU num kibutz em Israel. No final do dia de trabalho físico
extenuante, lia na porta do meu quarto, ensaiando meus primeiros cachimbos.
Durante alguns meses devorei livros da escritora inglesa Virginia Woolf
(1882-1941). Entre eles, um que me marcou excepcionalmente foi “Mrs.
Dalloway”, publicado em 1925.
Revi o maravilhoso “As Horas” (2002), com Nicole Kidman. E sempre quando
vejo esse filme me lembro de como ela foi essencial, ainda que de modo
pontual, em minha visão de mundo. No fundo, sempre suspeitei de que cada dia
é mais um dia sob o risco de ser devorado pelo sentimento último da
melancolia.

Às vezes na vida se faz necessário rompimentos com o cotidiano para que
possamos ver melhor o sentido do que fazemos, ou a total falta de sentido. A
vida se degrada facilmente na rotina de tentar mantê-la funcionando, por
isso a derrota, como no livro “Mito de Sísifo” (1942), de Albert Camus, pode
ser a condição necessária para a consciência repousar em paz consigo mesma.
Vencer sempre pode ser um inferno.

Na época, atravessando minha primeira (de várias) crises com minha formação
médica então em curso, busquei fugir para alguma fronteira do mundo.
Trabalhei no deserto do Neguev algumas vezes e posso dizer que o pôr do sol
no deserto vazio é uma experiência de dar inveja. A possibilidade de
caminhar pelo deserto, como me disse certa feita o escritor israelense Amós
Oz, refaz a alma porque vemos nosso rosto refletido na poeira. O deserto nos
ensina a humildade, e a humildade é sempre imbatível. Humildade nada tem a
ver com humilhação, mas, ao contrário, humildade fala da consciência de que
somos efêmeros como o vento. E só como efêmeros que podemos perceber a
dádiva que é respirar. Há um modo misterioso em como o deserto chama seu
nome quando você está disposto a ouvi-lo.

Na época, já sabia que Virginia Woolf havia se suicidado e, por isso mesmo,
quis conhecer sua obra. Nunca fui um deprimido clínico, mas sempre me
surpreendi pelo fato de não sê-lo. Muitas vezes pareceu-me que, se fosse
viver pelo que a razão me diz, já teria sucumbido à melancolia profunda. O
que me encantou em Mrs. Dalloway foi seu esforço em ser normal e feliz
e acreditar em si mesma e na sua fidelidade à rotina.

No dia em que se passa a história, ela organiza uma
festa em sua casa. Manter a vida aí se equipara ao esforço descomunal de
erguer uma festa quando, no fundo, ela se sente vazia e sem razões para
festejar. Entre uma alma triste e uma rotina vazia, ela opta pela segunda
como falta de escolha porque não pode confiar na tristeza.

Penso no número enorme de pessoas que se levantam pela manhã assim como quem
carrega um corpo que não é seu. Mrs. Dalloway é o fim de quem ingenuamente
acredita que as coisas sempre darão certo, bastando festejar a rotina comum.
Não, a rotina é indiferente à nossa fidelidade, podendo nos destruir mesmo
quando a servimos como a um senhor todo poderoso. O pesadelo de Mrs.
Dalloway é se ver como estrangeira em sua própria alma.

Aprendemos com ela que a vida não é necessariamente bela e que tentar negar
isso é uma forma de permanecer escravo de sua possível monstruosidade.
No fundo de nossa alma habitam monstros que a muito custo se mantêm em
silêncio. Esses monstros, quando o mundo silencia, surgem na superfície
mostrando o ridículo de nossa batalha diária.

Quantas vezes mulheres apenas suportam o choro de seus filhos, sofrendo no
fundo da alma o horror que é ser obrigada a amá-los quando não sentem por
eles nada parecido com amor materno, mas apenas o incômodo causado por
aqueles pequenos intrusos em suas vidas.

Quantos homens sufocam diante da certeza de que já vivem uma vida sem amor,
sem afeto e sem desejo, mas que isso é tudo que suportam ao lado de suas
esposas. Quantos filhos sofrem por se sentir indiferentes para com o destino
dos pais idosos, tentando convencer a si mesmos de que o amor pelos pais
seria o certo, mas que nada conseguem além de desejar vê-los mortos e assim
se sentirem livres finalmente.

Entre as funções da civilização, uma é a tentativa de calar esses monstros
criando ritos, rituais, festas para celebrar a frágil vitória contra essas
criaturas deformadas, atormentadas pelo completo desinteresse pela vida. A
verdade é que não há como civilizá-las, a não ser ensiná-las que elas não
têm lugar no mundo dos vivos e que, por isso, devem sucumbir à rotina da
infelicidade como norma da vida.

ponde.folha@ uol.com.br

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