Sócrates e Diotima- Diálogo sobre o amor

Do diálogo “O banquete”

(Diálogos / Platão, São Paulo : Nova Cultural, 1991. — (Os pensadores)

— E a ti eu te deixarei agora; mas o discurso que sobre o Amor eu ouvi um dia, de uma mulher de Mantinéia, Diotima, que nesse assunto era entendida e em muitos outros — foi ela que uma vez, porque os atenienses ofereceram sacrifícios para conjurar a peste, fez por dez anos[1] recuar a doença, e era ela que me instruía nas questões de amor — o discurso então que me fez aquela mulher eu tentarei repetir-vos, a partir do que foi admitido por mim e por Agatão, com meus próprios recursos e como eu puder. É de fato preciso, Agatão, como tu indicaste, primeiro discorrer sobre o próprio Amor, quem é ele e qual a sua natureza e depois sobre as suas obras. Parece-me então que o mais fácil é proceder como outrora a estrangeira, que discorria interrogando-me[2], pois também eu quase que lhe dizia outras tantas coisas tais quais agora me diz Agatão, que era o Amor um grande deus, e era do que é belo; e ela me refutava, exatamente com estas palavras, com que eu estou refutando a este, que nem era belo segundo minha palavra, nem bom.

E eu então: — Que dizes, ó Diotima? É feio então o Amor, e mau?

E ela: — Não vais te calar? Acaso pensas que o que não for belo, é forçoso ser feio?

— Exatamente.

— E também se não for sábio é ignorante? Ou não percebeste que existe algo entre sabedoria e ignorância?

— Que é?

— O opinar certo, mesmo sem poder dar razão, não sabes, dizia-me ela, que nem é saber — pois o que é sem razão, como seria ciência? — nem é ignorância[3] — pois o que atinge o ser, como seria ignorância? — e que é sem dúvida alguma coisa desse tipo a opinião certa, um intermediário entre entendimento e ignorância.

— É verdade o que dizes, tornei-lhe.

— Não fiques, portanto, forçando o que não é belo a ser feio, nem o que não é bom a ser mau. Assim também o Amor, porque tu mesmo admites[4] que não é bom nem belo, nem por isso vás imaginar que ele deve ser feio e mau, mas sim algo que está, dizia ela, entre esses dois extremos.

— E todavia é por todos reconhecido que ele é um grande deus.[5]

— Todos os que não sabem, é o que estás dizendo, ou também os que sabem?

— Todos eles, sem dúvida.

E ela sorriu e disse: — E como, ó Sócrates, admitiriam ser um grande deus aqueles que afirmam que nem deus ele é?

— Quem são estes? perguntei-lhe.

— Um és tu — respondeu-me — e eu, outra.

E eu: — Que queres dizer com isso?

E ela: — É simples. Dize-me, com efeito, todos os deuses não os afirmas felizes e belos? Ou terias a audácia de dizer que algum deles não é belo e feliz?

— Por Zeus, não eu — retornei-lhe.

— E os felizes então, não dizes que são os que possuem o que é bom e o que é belo?

— Perfeitamente.

— Mas no entanto, o Amor, tu reconheceste que, por carência do que é bom e do que é belo, deseja isso mesmo de que é carente.

— Reconheci, com efeito.

— Como então seria deus o que justamente é desprovido do que é belo e bom?

— De modo algum, pelo menos ao que parece.

— Estás vendo então — disse — que também tu não julgas o Amor um

deus?

— Que seria então o Amor? — perguntei-lhe. — Um mortal?

— Absolutamente.

— Mas o quê, ao certo, ó Diotima?

— Como nos casos anteriores — disse-me ela — algo entre mortal e imortal.

— O quê, então, ó Diotima?

— Um grande gênio, ó Sócrates; e com efeito, tudo o que é gênio está entre um deus e um mortal.

— E com que poder? perguntei-lhe.

— O de interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses, de uns as súplicas e os sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo ele a si mesmo. Por seu intermédio é que procede não só toda arte divinatória, como também a dos sacerdotes que se ocupam dos sacrifícios, das iniciações e dos encantamentos, e enfim de toda adivinhação e magia. Um deus com um homem não se mistura, mas é através desse ser que se faz todo o convívio e diálogo dos deuses com os homens, tanto quando despertos como quando dormindo; e aquele que em tais questões é sábio é um homem de gênio[6], enquanto o sábio em qualquer outra coisa, arte ou ofício, é um artesão. E esses gênios, é certo, são muitos e diversos, e um deles é justamente o Amor.

— E quem é seu pai — perguntei-lhe — e sua mãe?

— É um tanto longo de explicar, disse ela; todavia, eu te direi. Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o néctar — pois vinho ainda não havia — penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor. Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer  maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista[7]: e nem imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece[8]; ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece[9] o Amor nem enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis com efeito o que se dá. Nenhum deus filosofa ou deseja ser sábio — pois já é —[10], assim como se alguém mais é sábio, não filosofa. Nem também os ignorantes filosofam ou desejam ser sábios; pois é nisso mesmo que está o difícil da ignorância, no pensar, quem não é um homem distinto e gentil, nem inteligente, que lhe basta assim. Não deseja portanto quem não imagina ser deficiente naquilo que não pensa lhe ser preciso.

— Quais então, Diotima — perguntei-lhe — os que filosofam, se não são nem os sábios nem os ignorantes?

— É o que é evidente desde já — respondeu-me — até a uma criança: são os que estão entre esses dois extremos, e um deles seria o Amor. Com efeito, uma das coisas mais belas é a sabedoria, e o Amor é amor pelo belo, de modo que é forçoso o Amor ser filósofo e, sendo filósofo, estar entre o sábio e o ignorante. E a causa dessa sua condição é a sua origem: pois é filho de um pai sábio e rico[11] e de uma mãe que não é sábia, e pobre. E essa então, ó Sócrates, a natureza desse gênio; quanto ao que pensaste ser o Amor, não é nada de espantar o que tiveste. Pois pensaste, ao que me parece a tirar pelo que dizes, que Amor era o amado e não o amante; eis por que, segundo penso, parecia-te todo belo o Amor. E de fato o que é amável é que é realmente belo, delicado, perfeito e bem-aventurado[12]; o amante, porém é outro o seu caráter, tal qual eu expliquei.

E eu lhe disse: — Muito bem, estrangeira! É belo o que dizes! Sendo porém

tal a natureza do Amor, que proveito ele tem para os homens?

— Eis o que depois disso — respondeu-me — tentarei ensinar-te. Tal é de

fato a sua natureza e tal a sua origem; e é do que é belo, como dizes. Ora, se alguém

nos perguntasse: Em que é que é amor do que é belo o Amor, ó Sócrates e

Diotima? ou mais claramente: Ama o amante o que é belo; que é que ele ama?

— Tê-lo consigo — respondi-lhe.

— Mas essa resposta — dizia-me ela — ainda requer[13] uma pergunta desse tipo: Que terá aquele que ficar com o que é belo?

— Absolutamente — expliquei-lhe — eu não podia mais responder-lhe de pronto a essa pergunta.

— Mas é, disse ela, como se alguém tivesse mudado a questão e, usando o bom[14] em vez do belo, perguntasse: Vamos, Sócrates, ama o amante o que é bom; que é que ele ama?

— Tê-lo consigo — respondi-lhe.

— E que terá aquele que ficar com o que é bom?

— Isso eu posso — disse-lhe — mais facilmente responder: ele será feliz.

— É com efeito pela aquisição do que é bom, disse ela, que os felizes são felizes, e não mais é preciso ainda perguntar: E para que quer ser feliz aquele que o quer? Ao contrário, completa parece a resposta.

— É verdade o que dizes — tornei-lhe.

— E essa vontade então e esse amor, achas que é comum a todos os homens, e que todos querem ter sempre consigo o que é bom, ou que dizes?

— Isso — respondi-lhe — é comum a todos.

— E por que então, ó Sócrates, não são todos que dizemos que amam, se é

que todos desejam a mesma coisa[15] e sempre, mas sim que uns amam e outros

não?

— Também eu — respondi-lhe — admiro-me.

—Mas não! Não te admires! — retrucou ela; — pois é porque destacamos do amor um certo aspecto e, aplicando-lhe o nome do todo, chamamo-lo de amor, enquanto para os outros aspectos servimo-nos de outros nomes.

— Como, por exemplo? — perguntei-lhe.

— Como o seguinte. Sabes que “poesia”[16] é algo de múltiplo; pois toda causa de qualquer coisa passar do não-ser ao ser é “poesia”, de modo que as confecções de todas as artes são “‘poesias”, e todos os seus artesãos poetas.

— É verdade o que dizes.

— Todavia — continuou ela — tu sabes que estes não são denominados poetas, mas têm outros nomes, enquanto que de toda a “poesia” uma única parcela foi destacada, a que se refere à música e aos versos, e com o nome do todo é denominada. Poesia é com efeito só isso que se chama, e os que têm essa parte da poesia, poetas.

— É verdade — disse-lhe.

— Pois assim também é com o amor. Em geral, todo esse desejo do que é bom e de ser feliz, eis o que é “o supremo e insidioso amor, para todo homem”[17], no entanto, enquanto uns, porque se voltam para ele por vários outros caminhos, ou pela riqueza ou pelo amor à ginástica ou à sabedoria, nem se diz que amam nem que são amantes, outros ao contrário, procedendo e empenhando-se numa só forma, detêm o nome do todo, de amor, de amar e de amantes.

— É bem provável que estejas dizendo a verdade — disse-lhe eu.

— E de fato corre um dito[18], continuou ela, segundo o qual são os que procuram a sua própria metade os que amam; o que eu digo porém é que não é nem da metade o amor, nem do todo; pelo menos, meu amigo, se não se encontra este em bom estado, pois até os seus próprios pés e mãos querem os homens cortar, se lhes parece que o que é seu está ruim. Não é com efeito o que é seu, penso, que cada um estima, a não ser que se chame o bem de próprio e de seu, e o mal de alheio; pois nada mais há que amem os homens senão o bem; ou te parece que amam?

— Não, por Zeus — respondi-lhe.

— Será então — continuou — que é tão simples[19] assim, dizer que os homens amam o bem?

— Sim — disse-lhe.

— E então? Não se deve acrescentar que é ter consigo o bem que eles amam?

— Deve-se.

— E sem dúvida — continuou — não apenas ter, mas sempre ter?

— Também isso se deve acrescentar.

— Em resumo então — disse ela — é o amor amor de consigo ter sempre o bem.

— Certíssimo — afirmei-lhe — o que dizes.

— Quando então — continuou ela — é sempre isso o amor, de que modo, nos que o perseguem, e em que ação, o seu zelo e esforço se chamaria amor[20]? Que vem a ser essa atividade? Podes dizer-me?

— Eu não te admiraria então, ó Diotima, por tua sabedoria, nem te freqüentaria para aprender isso mesmo.

— Mas eu te direi — tornou-me — É isso, com efeito, um parto em beleza, tanto no corpo como na alma.

— É um adivinho — disse-lhe eu — que requer o que estás dizendo: não entendo.

— Pois eu te falarei mais claramente, Sócrates, disse-me ela. Com efeito, todos os homens concebem, não só no corpo como também na alma, e quando chegam a certa idade, é dar à luz que deseja a nossa natureza. Mas ocorrer isso no que é inadequado é impossível. E o feio é inadequado a tudo o que é divino,enquanto o belo é adequado. Moira então e Ilitia[21] do nascimento é a Beleza. Por isso, quando do belo se aproxima o que está em concepção, acalma-se, e de júbilo transborda, e dá à luz e gera; quando porém é do feio que se aproxima, sombrio e aflito contrai-se, afasta-se, recolhe-se e não gera, mas, retendo o que concebeu, penosamente o carrega. Daí é que ao que está prenhe e já intumescido é grande o alvoroço que lhe vem à vista do belo, que de uma grande dor liberta o que está prenhe. É com efeito, Sócrates, dizia-me ela, não do belo o amor, como pensas.

— Mas de que é enfim?

— Da geração e da parturição no belo.

— Seja — disse-lhe eu.

— Perfeitamente — continuou. — E por que assim da geração? Porque é algo de perpétuo e imortal para um mortal, a geração. E é a imortalidade que, com o bem, necessariamente se deseja, pelo que foi admitido, se é que o amor é amor de sempre ter consigo o bem[22]. É de fato forçoso por esse argumento que também da imortalidade seja o amor.


[1] 106 Se se trata da peste que assolou Atenas no começo da guerra do Peloponeso, Diotima teria feito o sacrifício em 440, quando Sócrates

entrava na casa dos trinta. (N. do T.)

[2] 107 É estranho que uma sacerdotisa use o método de explicação dos sofistas do século V, através de perguntas forjadas por ela mesma. Esse

parece um dos mais fortes indícios de que o fato contado por Sócrates é fictício, sobretudo se se considera a exata correspondência dos

diálogos Sócrates-Agatão, Diotima-Sócrates. (N. do T.)

[3] 108 Cf. Menão, 97b-e. (N. doT)

[4] 109 No Lísis (216d – 221e) Sócrates faz uma proposição semelhante (é amigo do belo e do bom o que não é nem bom nem mau), que ele

encaminha para a seguinte aporia: A presença do mal no que não é bom nem é mau é o que faz este desejar o belo e o bom, e assim, ausente

o mal, o belo e o bom não seriam capazes de suscitar o amor. Como se vê trata-se de puras idéias, cuja relação é dificultada na razão direta da

sua exata conceituação. (N. do T.)

[5] 110 Essa observação de Sócrates vai determinar a passagem do método dialético para a exposição alegórica. Demonstrada a natureza

intermediária do Amor, Diotima chama-o de gênio, conta sua origem e traça seu retrato.(N. do T.)

[6] 111 A expressão grega é ????????? ???? , isto e, homem marcado pelo gênio, pela divindade ( ?????? ). Nossos correspondentes “genial” ou “de gênio” derivam para a idéia de talento. (N.doT.)

[7] 112 O epíteto de sofista vem sem dúvida por associação com os dois anteriores. V. Protágoras, 328d. (N.doT.)

[8] 113 No grego ???????? (derivado de ????? = recurso). A transposição dessa temporal para depois de “ressuscita”, feita por Wilamovits e adotada por Robin, não nos parece suficientemente justificada por razões estilísticas. Ao contrário do que alegam os seus defensores, tal como está o texto dos mss., o período mostra-se bem articulado, pela correspondência dessa temporal com a expressão “graças à natureza do pai” no seguinte esquema: vive quando enriquece/ morre/ ressuscita graças à natureza do pai (N.doT.)

[9] 114 No grego ??????(também derivado de ?????). (N. do T.)

[10] 115 Cf. no Lísis um argumento semelhante: o bom, bastando-se a si mesmo, não é amigo (isto é, não ama e não deseja) do bom.(N. do T.)

[11] 116 No grego ?????? , assim como infra ?????= pobre, ambos derivados de ????? (N. do T.)

[12] 117 Cf. supra 180a-4. (N. do T.)

[13] 118 A expressão no grego é pitoresca ( ????? , isto é, deseja), por sua relação com a idéia discutida no contexto. (N. do T.)

[14] 119 V. supra n. 104. (N. do T.)

[15] 120 Isto é, o que é bom ou, mais literalmente, as coisas boas. (N. do T.)

[16] 121 ?????? é no grego ação de ?????? = fazer, isto é, confecção, produção e num sentido mais limitado, poesia. (N. do T.)

[17] 122 Provavelmente uma citação do verso não identificado (N. do T.)

[18] 123 Essa alusão ao discurso de Aristófanes é, como nota Robin em sua introdução ao Banquete, um indício habilmente dissimulado na

verossimilhança da narração do caráter fictício de Diotima. (N. do T.)

[19] 124 O que segue até b deve ser relacionado com 200b-e. O desejo de ter para o futuro é o desejo de ter sempre. Daí associar-se a idéia do bem

à de continuidade, a qual, logo mais referida ao homem, ser mortal, assume a feição de imortalidade. (N. do T.)

[20] 125 Nova mudança no método de exposição, que agora passa a ser discursivo. Assimilando abruptamente, à maneira dos profetas, a atividade

amorosa ao processo da geração, Diotima discorre então sobre o sentido desta, revelando-a como uma maneira de participarem os seres deste

mundo da perene estabilidade do mundo ideal. (N. do T.)

[21] 126 Divindade que preside aos nascimentos, assim como uma das três Moiras ou Parcas. (N. do T.)

[22] 127 206a. V. nota respectiva. (N. do T.)

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